Cidadeverde.com
Suzane Jales

Lições que aprendi com o aikido

Meu contato com o aikido começou no primeiro dia do meu curso de coach. Arline Davis, nossa mestra, propôs uma apresentação diferente: cada um de nós deveria escrever num pedaço de papel algo inusitado, diferente ou incomum que fizesse. Depois, todos os papéis foram dobrados, colocados em uma caixa e ela ia tirando um por vez. Quando um papel era lido, nós tentávamos adivinhar quem aparentava fazer o que estava escrito ali. Foi divertido dar palpites e ficar discutindo: será mesmo essa pessoa? Quando o grupo chegava mais ou menos a um consenso, o autor se revelava, ia pra frente da sala e falava daquela e de outras características dele, apresentando-se para o grupo.

 

Num desses papéis estava escrito “Pratico aikido”. Era o colega sentado ao meu lado e que realmente lembrava um samurai. Foi logo descoberto! Na sua apresentação, ele disse que o aikido é também conhecido como a “Arte da paz” e que visa o autodesenvolvimento do ser humano e sua integração com a vida. Aquilo foi, para mim, como sinos badalando no ar... E assim, a curiosidade em mim e a amizade entre nós dois instalaram-se de imediato.

 

Ao longo do curso e depois dele, nós conversamos muito sobre essa prática criada pelo japonês Morihei Ueshiba em meados da década de 40. Foi assim que aprendi, por exemplo, que os três ideogramas que formam o nome dessa arte levam-nos melhor a seu conceito: AI é harmonia, união, integração e foneticamente, em japonês, também pode significar amor; KI, conhecido na China como Chi e na Índia como Prana, é energia, a energia vital, a própria vida; DO, que na China é chamado de Tao, é o caminho, o modo de vida.

 

Em um dos nossos diálogos, emocionado, meu amigo confidenciou: “O aikido salvou a minha vida!”. Na hora, isso já me impressionou, mas entendi mesmo o seu real significado quando li um texto de Paulo Netto: “Os ensinamentos de Morihei foram resumidos na frase ‘Takemusu Aiki’. Take sim­boliza valor e bravura; representa a irreprimível e inabalável coragem de viver. Musu representa nascimento, crescimento, realização, plenitude. É a força criativa do cosmos responsável pela produção de tudo o que sustenta a vida”. Foram palavras como as que soltamos no Morro do Gritador, na cidade piauiense de Pedro II: elas voltaram e ficaram ressonando em mim.

 

Meses depois, ele convidou-me para assistir a um treino na cidade de Itaquá, em São Paulo. Eu estava eufórica: ia ver na prática o que só conhecia na teoria... Seu trabalho era voluntário e o grupo de alunos nos esperava na calçada. “O sensei chegou!”, anunciou um deles, muito animado. Entendi logo que sensei era professor em japonês – uma classe muito respeitada por eles: quando um professor se inclina diante do imperador, este último suaviza o ato de humildade curvando-se, ele próprio, em respeito ao docente. Não é o mesmo gesto feito por um súdito, porém é um movimento perceptível que, partindo de um imperador, é considerado honra extrema.

 

O Dojo (local onde se pratica a arte) era simples: um galpão com um tatame que tomava grande parte do piso de cimento. Mas dava para sentir que o clima daquele ambiente era diferente: tinha uma energia boa no ar.

 

Acomodei-me num banco e fiquei observando tudo o que acontecia. Por ser completamente leiga no assunto, é difícil expressar o que vi: um treino de aikido vai muito além do físico, do movimento, da técnica...

 

De um lado do tatame, em perfeita união, algumas crianças com enormes sorrisos nos lábios pareciam estar aprendendo a cair. Mas, olhando melhor, achei que, na verdade, estavam descobrindo como se levantar depois de uma queda. Recordei os meus tempos de Grupos de Jovens e do padre Luciano, que nos lembrava sempre: “Façam suas orações ajoelhados, mesmo que não acreditem nelas. Pelo menos vão engrossar a pele dos joelhos. Assim, se um dia caírem, não sentirão tanto e vão levantar-se rapidamente”.

 

Do outro lado, um aluno se preparava com o sensei para fazer as provas que poderiam lhe dar a faixa preta (depois soube que ele conquistou). Um outro aluno também o auxiliava. A prática era sempre assim: quem aplicava a técnica demonstrava um profundo respeito pelo outro, que a recebia, pois sabia que precisava do seu colega... E ele estava lá, pronto para ajudá-lo. Havia cumplicidade, parceria... Era fácil vê ali a importância de compartilhar, de não querer fazer tudo sozinho. Lindo, verdadeiro e profundo!

 

E o que dizer dos movimentos? Circulares, eles pareciam completamente sintonizados com o fluxo do universo. Mas o que me chamou mais a atenção foi sentir a presença do princípio da não resistência.

Quando recebia uma tentativa de aprisionamento, o “atacado” apenas acolhia a agressão, buscava seu centro e, ignorando a parte do corpo aprisionada, movimentava-se livremente aplicando uma técnica vigorosa, apesar de suave, e libertava-se daquela “prisão”.  Sem confronto e sem precisar pensar no que fazia. Tudo era harmônico e natural. Impossível descrever! Só posso dizer que pude ver integração e equilíbrio.

 

Os alunos traziam nos olhos admiração e respeito pelo sensei e este estava lá com um grande espírito de cooperação para se entregar por inteiro, sem esperar nada de volta... embora fosse visível que ele também recebia, e muito! Mas o que ele ganhava era igualmente doado pelos alunos. Era a própria materialização das palavras do escritor Fabrício Carpinejar: “A troca é um ato infeliz do amor, indica que não houve doação”. Lá não havia troca, só muito amor no ar...

 

Ao final, fui chamada para me reunir com eles no centro do tatame, onde foi depositado tudo o que eles haviam levado: refrigerante, bolo e biscoitos, que foram repartidos entre os presentes. Qualquer semelhança com a santa ceia não era mera coincidência.

 

Voltei de Itaquá com a alma aos pulos e o coração cheio de ensinamentos... Ainda hoje, quando fecho os olhos, posso reviver cada momento que passei lá.

 

Infelizmente, em Teresina, onde moro, não tem um local para a prática do aikido. Mas passei a exercitar a sua filosofia de vida, que, de alguma forma, já fazia parte da minha essência. Proceder assim foi um aprendizado que me foi repassado por este sensei. Quando ele precisou morar em outra cidade e deixar o mosteiro que frequentava, recebeu de um monge a seguinte mensagem: “Você não precisar se isolar e morar num mosteiro para viver como um monge. Seja-o onde e com quem estiver!”.


Morihei Ueshiba