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Suzane Jales

O barulho da carroça

Certo dia, eu estava comprando plantas com minha mãe na Praça do Marquês, em Teresina, quando passou um motoqueiro em alta velocidade fazendo um barulhão ensurdecedor que incomodou a todos. Imagino que aquela moto devia estar com descarga livre ou silenciador de motor de explosão defeituoso, deficiente ou inoperante”, ou seja, em desacordo com o artigo 230 do Código de Trânsito Brasileiro.

 

Pensei cá com meus botões: se ele queria chamar atenção, errou o alvo, pois, naquela velocidade, mal deu pra ver a cor da moto... e quase nada de seu ocupante. Agora, se ele pensou em demonstrar o que tem na cabeça... Bem, acho melhor contar uma história pra explicar. E mesmo que você já a conheça, vale à pena recordar...

 

Uma família que morava numa grande cidade foi passar uns dias no interior. Lá, reencontraram-se com familiares que há muito não viam. O avô, muito feliz em receber aquelas visitas, convidou o netinho recém-chegado para dar umas voltas e conhecer a vizinhança.

 

Com uma grande alegria estampada no rosto, os dois saíram para passear. Mais à frente, numa clareira, o avô parou, pediu silêncio e perguntou:

- Você está ouvindo alguma coisa?

Seu netinho respondeu:

- Os passarinhos... Eles estão cantando!

- E além do cantar dos pássaros, você está ouvindo algo mais?

O garoto apurou bem os ouvidos por alguns segundos e respondeu:

- Estou ouvindo um barulho... acho que é de uma carroça.

- Isso mesmo, disse o vovô. É uma carroça vazia...

O menino, surpreso, perguntou:

- Como o senhor pode saber que a carroça está vazia, se ainda não a vimos passar?

- Aí está uma bela questão, meu querido, falou o avô. É muito fácil saber que uma carroça está vazia por causa do barulho que ela faz. Quanto mais vazia a carroça está, maior é o seu barulho...

 

É exatamente isso o que achei daquele motoqueiro: é uma carroça vazia...

 

Mas também penso assim quando vejo uma pessoa gritando ou falando demais, intimidando os outros, se achando o dono da verdade, sendo inoportuno, interrompendo a conversa de todo mundo... Aí eu lembro logo dessa historinha: quanto mais vazia a carroça, mais barulho ela faz...

 

Assim como eu, você também conhece gente que faz isso? E será que, igualmente, não nos pegamos agindo de forma parecida, vez por outra?



Nossa evolução

Eu sempre deixo claro o quão importante considero a busca do autoconhecimento. É por isso mesmo que começo através dessa investigação o processo de coaching. Nesse trabalho, um pequeno detalhe chama a minha atenção: quando o tema em pauta é desenvolvimento pessoal, a maioria dos clientes faz uma pausa, pede pra pular e depois voltar ou questiona como analisar esse assunto em sua vida. Isso não acontece em itens como organização, carreira, relacionamentos, equilíbrio emocional e espiritualidade, dentre outros.

 

Aí eu fiquei pensando: como podemos nos desenvolver como seres humanos se não sabemos avaliar como está o nosso processo de evolução?

 

Eu vou logo avisando: não existe uma tabelinha pronta onde a gente encontre os parâmetros já definidos para ir marcando SIM ou NÃO para cada degrauzinho subido... Cada um tem que trabalhar e descobrir a sua forma de evoluir.

 

Há alguns anos, entendi que a procura da evolução é o maior investimento que eu deveria fazer por mim mesmo. Neste campo, meu encontro com o eneagrama foi fundamental.

 

Não vou entrar em muitos detalhes aqui, até porque ainda sou uma aprendiz (fiz apenas um curso), mas compartilho com vocês uma ideia geral do que se trata: o eneagrama é um sistema muito profundo na descrição de comportamentos humanos, comportamentos esses que adquirimos ainda na infância. Conhecer os nove tipos é extremamente interessante e se encontrar então... nem se fala!

 

Mas o que mais me encanta no eneagrama é que ele mostra os caminhos possíveis da evolução de nossa consciência, ou, em outras palavras, da superação da paixão e da fixação de nosso tipo.

 

Assim, aquele indivíduo que é perfeccionista, que tem a tendência de focar sua atenção no erro, que reprime seus impulsos e desejos para manter uma postura correta na vida, que monitora o seu comportamento e dos outros e contém a raiva quando se depara com a imperfeição, expande-se quando consegue silenciar o seu exigente “crítico interno” e desenvolve a aceitação.

 

Aquela pessoa que é extremamente calma, paciente, que deixa de fazer suas necessidades para atender aos pedidos e demandas dos outros, que foge do conflito, que sufoca sua raiva e tem imensa dificuldade em falar “não” cresce quando traça limites e prioridades e consegue expressar seus desejos e visões.

 

Já aquela criatura que é generosa, determinada, que costuma defender os mais fracos, mas exagera no exercício do poder e da dominação, negando suas próprias fraquezas evolui quando emprega o poder e o controle de formas proporcionais às situações vividas e aprende a valorizar as opiniões dos outros.

 

E por aí vai...

 

Eu aconselho a todos terem um contato com essa ferramenta e por considerá-la vital para mim e para o trabalho que desenvolvo, pretendo fazer em dezembro o curso Eneagrama para Coaching e Liderança e, no próximo ano, o Enneagram Professional Training Program (EPTP) que é considerado o programa de certificação em eneagrama mais abrangente do mundo. Ambos serão ministrados pela Iluminatta Brasil e UP9.

 

E só lembrando o que nos disse Bert Hellinger, teólogo, filósofo e psicoterapeuta alemão: “Só o imperfeito pode evoluir. O perfeito já se estagnou, cristalizou-se. Portanto, só o imperfeito tem futuro”.



Entre quatro paredes

Li na revista Cidade Verde a entrevista de Dom Jacinto, Arcebispo de Teresina, afirmando que o celibato de padres é algo que pode mudar na igreja católica. Logo depois, numa roda de bate-papo, eu ouvi o seguinte comentário: “a gente só sabe mesmo quem são as pessoas entre quatro paredes e longe do Facebook, onde todo mundo é lindo e feliz” – na verdade, uma frase antiga que foi apenas modernizada.

 

Como minha cabeça costuma fazer conexões bem distintas, essas observações me remeteram a duas obras bem diferentes: “Comprometida”, de Elisabeth Gilbert e “Entre quatro paredes”, de Jean-Paul Sartre. E eu vou dizer o que vejo de comum entre o comentário do início desse artigo e produções tão distintas...

 

Em seu livro “Comprometida”, no afã de entender/justificar por que as pessoas se casam, Elisabeth Gilbert nos fala do escritor e jornalista Ferdinand Mount e cita seu livro “The Subversive Family” (A Família Subversiva). Mount diz que todos os casamentos não arranjados são atos automáticos de subversão contra a autoridade e afirma que a família é a organização subversiva suprema – a única que pode arrogar-se esse título com constância e coerência.

 

Segundo Ferdinand, só a família, em toda a história, continuou e continua a minar o poder constituído, tornando-se o inimigo permanente e duradouro de todas as hierarquias e ideologias que quiseram/querem dominar o mundo. “A primeira meta de qualquer corpo autoritário específico é impor o controle a uma população por meio de seus meios específicos: coação, doutrinação, intimidação, propaganda”, argumenta. A questão é que, para frustração dessas “autoridades”, nunca foi possível monitorar inteiramente ou controlar as intimidades mais secretas que acontecem e do que falam entre quatro paredes onde impera a privacidade...  E não importa se essa conversa é inocente, corriqueira ou séria: ela pertence apenas às duas pessoas que a dividem. E aí, adeus dominação!

 

O livro de Elisabeth Gilbert lembra, ainda, que, quando surge um novo culto, religião ou movimento revolucionário, há o mesmo agente motivador do passado que se esforça para separar o indivíduo dos demais: só o coletivo é importante... e abafam-se os desejos individuais. Esse também foi um dos principais motivos da proibição do casamento entre escravos: seria perigoso demais para os seus donos.  Só que os escravos criaram o seu modo de se casar: pulavam sobre um cabo de vassoura enviesado num portal e se declaravam casados.

 

Mas não precisamos voltar o tempo: hoje, vemos que uma das maiores lutas dos homossexuais é pelo direito de terem uniões legalmente reconhecidas, de constituir família, de poder se tornar pais e mães...

 

Já em “Entre quatro paredes”, Sartre coloca três protagonistas sendo obrigados a viver juntos e ver refletida a própria imagem nos olhos dos outros - um inferno! Assim, no convívio do cotidiano, mesmo que um pretenda ser visto da melhor forma, o outro pode ignorar essa aspiração e o enxergar em profundidade e com um rigor que, talvez, ele não deseje.

 

O filósofo diz: “aquele que me olha é sempre o meu carrasco”. Isso é foco total na nossa incapacidade de ver e compreender nossas fraquezas. Mas o personagem Garcin diz também: “Nenhum de nós pode se salvar sozinho; ou nos perdemos de uma vez juntos, ou nos salvamos juntos”. Isso mostra que é possível ver na importância de estar entre quatro paredes, quando nos mostramos verdadeiros para o outro, o leque de possibilidade de evolução que se abre através das influências geradas no diálogo do dia a dia. Em outras palavras, ele quer dizer que apesar de o inferno ser os outros, é possível a conquista do paraíso! É por isso que fazemos o que a poetiza Emily Dickinson diz: “De todas as almas criadas, escolhi uma”.



Palavra X ação

No último sábado, eu participei de uma saudável discussão sobre o falar e o agir. Em época de eleição, bem que poderíamos estar nos referindo aos políticos que têm um bom discurso, mas que na hora de agir são uma negação.

 

Mas não foi esse o caso: estávamos falando de nós mesmos... Exatamente nós, que criticamos muito aqueles que consideramos demagogos, mas, muitas vezes, protelamos o que precisamos fazer. E aí, também ficamos só no falatório, com bons argumentos, inclusive para nos convencer que estamos certos em empurrar com a barriga.

 

Lá na nossa conversa, todos foram unânimes em concordar que a palavra e a ação são importantes, mas a questão residia em saber quando é preciso agir mais e falar menos...

 

Falar antes de fazer é mesmo uma das características típica da natureza humana. O problema é que, se não houver um casamento perfeito entre o que dizemos e o que fazemos, de cara já perdemos logo a credibilidade. E quem não tem credibilidade pode falar à vontade que não vai ter efeito nenhum.

 

A ação mantém a coerência entre o que realmente somos e o que falamos que somos. Essa é uma questão tão importante que eu sempre fico me perguntando se o que digo é mesmo o que eu acho ou o que eu gostaria de achar... Você já pensou sobre isso?

 

Lembro de quando eu reclamava dos meus filhos, quando pequenos, e os advertia dizendo coisas como: “Se você não comer tudo, hoje não vai ter televisão(para o mais velho) ou computador (para a mais nova)!”. Eu tinha todo o cuidado do mundo para, caso precisasse, cumprir o que eu havia dito... Se não, era desgaste na certa... e aí eu perderia totalmente o moral e o controle da situação. Quem é pai e mãe sabe bem disso.

 

Também é comum acontecer de querermos fazer um projeto grandioso que a curto ou médio prazo está fora do nosso alcance e ficamos aguardando aparecer uma hora propícia... Só que, muitas vezes, deixamos de fazer o que podemos – como, por exemplo, partes dele – por considerarmos insignificante ou inútil.

 

Recordo que, num workshop de Bety Alice Erickson em que eu estive, ela chamou nossa atenção para algo que considera muito importante: “Quando passamos a ter consciência de alguma coisa, não dá pra fingir que não mais sabemos”. E nós sabemos, por exemplo, que podemos ter o comando da nossa mente e, por conseguinte, dos resultados que dependem de nós. Compreendemos também que somos nós que escolhemos os nossos valores, crenças e decisões.

 

Assim, podemos olhar para nossos projetos de vida e optar por continuar apenas na falação ou começar a colocá-los em prática e batalhar para mudar a nossa realidade... nem que seja plantando as primeiras sementinhas. A escolha é exclusivamente nossa!



A que nos apegamos?

Quando eu tinha 14 anos e a maioria dos irmãos estava casado ou estudava fora, mudamos de casa pela primeira vez: saímos de uma residência antiga e enorme para uma casa de conjunto, de tamanho médio. Lembro que meus pais tiveram que se desfazer dos móveis, que não cabiam no novo lar. Nos planos de papai, estava a construção de uma casa nova, grande e projetada especialmente para nós. Esta nós também vendemos anos depois, quando papai já havia falecido, e fomos morar em apartamentos. Nas duas mudanças, houve muito chororó e foi fácil ver o quanto pode ser sofrido ter que abrir mão daquilo que se tem apego.

 

Eu sabia que cada uma delas tinha uma parte importante da nossa história, mas confesso que, no fundo, eu fiquei extremamente empolgada: ao contrário de muita gente, eu adoro mudança. E, depois dessas duas primeiras, já morei em tantos lugares, incluindo nova cidade, casa e apartamento, que tenho dúvidas do número exato: acho que foram doze, contando com a última delas, feita há cerca de seis meses.

 

Eu estava conversando sobre isso com uns amigos durante uma viagem: uma prima que é muito apegada a sua casa maravilhosa e que antigamente nem conseguia viajar por muitos dias para não a deixar sozinha; e um amigo que comprou um Corolla, mas não consegue se desfazer do velho Monza... Ela já superou muitas fases, mas sabe quanta coisa perdeu por causa do seu comportamento. Já ele ainda não ultrapassou a barreira e ainda está pagando um estacionamento somente para deixar o carro lá, completamente parado...

 

Engraçado esse sentimento de dependência que, sem querer, vamos criando. Eu mesma, que me considerava bem desapegada, fui pega de surpresa quando, tempos atrás, perguntaram-me quantas bolsas eu tinha. Chutei, exagerando bem, que eu deveria ter umas dez e qual não foi a minha surpresa ao chegar em casa, contá-las e constatar que só pretas eu tinha 15 e a grande maioria delas eu não usava há anos! Foi aí que descobri um sinal de apego: manter algo que não precisamos e que não nos acrescenta nada, só ocupa lugar.

 

Passei a incluir minhas bolsas no pacote de doações que faço todo final de ano para o bazar da paróquia, mas isso me mostrou que, na verdade, todos nós somos apegados a alguma coisa: somos possessivos e nos mantemos agarrados a tudo que achamos que nos pertence.

 

E não existem apenas apegos materiais: o apego emocional (a paixões que já terminaram, os rancores, as mágoas etc.) e às ideias (da própria pessoa ou aquelas ouvidas e/ou lidas em livros) podem ser mais fortes ainda... e mais dolorido para se deixar ir!

 

Pior é saber que quando nos apegamos, sem perceber, ficamos menos compreensíveis, tendemos ao egoísmo e podemos até nos tornar preconceituosos. Assim: começamos a pensar em termos de “meu tempo”, “meu espaço”, “meu trabalho”, “meus pensamentos”... Defendemos isso com dentes e garras e nos afastamos de tudo que o coloca em cheque ou o questiona.

 

Bom é saber que depois de soltar o que nos prende somos surpreendidos com o novo que vem e que, muitas vezes, é muito melhor ou pelo menos mais importante para o nosso crescimento. Melhor ainda é perceber que o novo pode vir da mesma pessoa, do mesmo relacionamento e da mesma casa... é só permitir-se!

Entender isso é libertador porque está aí a maior barreira contra o apego: a consciência. Quanto mais consciente nos tornamos, maior será o desapego.

 

Sei que não é fácil descartar uma parte que consideramos importante na nossa vida: é algo que exige muita reflexão e dedicação. Mas podemos começar pelo primeiro degrau, desfazendo-nos de objetos que não têm mais utilidade ou função, de roupas que não nos servem mais ou que pouco usamos (tem tanta gente precisando)... Aí vamos criando o hábito e quando nos sentirmos seguros, partimos para coisas mais complicadas, maiores, mas que necessitamos "deixar ir".



Lições que aprendi com o aikido

Meu contato com o aikido começou no primeiro dia do meu curso de coach. Arline Davis, nossa mestra, propôs uma apresentação diferente: cada um de nós deveria escrever num pedaço de papel algo inusitado, diferente ou incomum que fizesse. Depois, todos os papéis foram dobrados, colocados em uma caixa e ela ia tirando um por vez. Quando um papel era lido, nós tentávamos adivinhar quem aparentava fazer o que estava escrito ali. Foi divertido dar palpites e ficar discutindo: será mesmo essa pessoa? Quando o grupo chegava mais ou menos a um consenso, o autor se revelava, ia pra frente da sala e falava daquela e de outras características dele, apresentando-se para o grupo.

 

Num desses papéis estava escrito “Pratico aikido”. Era o colega sentado ao meu lado e que realmente lembrava um samurai. Foi logo descoberto! Na sua apresentação, ele disse que o aikido é também conhecido como a “Arte da paz” e que visa o autodesenvolvimento do ser humano e sua integração com a vida. Aquilo foi, para mim, como sinos badalando no ar... E assim, a curiosidade em mim e a amizade entre nós dois instalaram-se de imediato.

 

Ao longo do curso e depois dele, nós conversamos muito sobre essa prática criada pelo japonês Morihei Ueshiba em meados da década de 40. Foi assim que aprendi, por exemplo, que os três ideogramas que formam o nome dessa arte levam-nos melhor a seu conceito: AI é harmonia, união, integração e foneticamente, em japonês, também pode significar amor; KI, conhecido na China como Chi e na Índia como Prana, é energia, a energia vital, a própria vida; DO, que na China é chamado de Tao, é o caminho, o modo de vida.

 

Em um dos nossos diálogos, emocionado, meu amigo confidenciou: “O aikido salvou a minha vida!”. Na hora, isso já me impressionou, mas entendi mesmo o seu real significado quando li um texto de Paulo Netto: “Os ensinamentos de Morihei foram resumidos na frase ‘Takemusu Aiki’. Take sim­boliza valor e bravura; representa a irreprimível e inabalável coragem de viver. Musu representa nascimento, crescimento, realização, plenitude. É a força criativa do cosmos responsável pela produção de tudo o que sustenta a vida”. Foram palavras como as que soltamos no Morro do Gritador, na cidade piauiense de Pedro II: elas voltaram e ficaram ressonando em mim.

 

Meses depois, ele convidou-me para assistir a um treino na cidade de Itaquá, em São Paulo. Eu estava eufórica: ia ver na prática o que só conhecia na teoria... Seu trabalho era voluntário e o grupo de alunos nos esperava na calçada. “O sensei chegou!”, anunciou um deles, muito animado. Entendi logo que sensei era professor em japonês – uma classe muito respeitada por eles: quando um professor se inclina diante do imperador, este último suaviza o ato de humildade curvando-se, ele próprio, em respeito ao docente. Não é o mesmo gesto feito por um súdito, porém é um movimento perceptível que, partindo de um imperador, é considerado honra extrema.

 

O Dojo (local onde se pratica a arte) era simples: um galpão com um tatame que tomava grande parte do piso de cimento. Mas dava para sentir que o clima daquele ambiente era diferente: tinha uma energia boa no ar.

 

Acomodei-me num banco e fiquei observando tudo o que acontecia. Por ser completamente leiga no assunto, é difícil expressar o que vi: um treino de aikido vai muito além do físico, do movimento, da técnica...

 

De um lado do tatame, em perfeita união, algumas crianças com enormes sorrisos nos lábios pareciam estar aprendendo a cair. Mas, olhando melhor, achei que, na verdade, estavam descobrindo como se levantar depois de uma queda. Recordei os meus tempos de Grupos de Jovens e do padre Luciano, que nos lembrava sempre: “Façam suas orações ajoelhados, mesmo que não acreditem nelas. Pelo menos vão engrossar a pele dos joelhos. Assim, se um dia caírem, não sentirão tanto e vão levantar-se rapidamente”.

 

Do outro lado, um aluno se preparava com o sensei para fazer as provas que poderiam lhe dar a faixa preta (depois soube que ele conquistou). Um outro aluno também o auxiliava. A prática era sempre assim: quem aplicava a técnica demonstrava um profundo respeito pelo outro, que a recebia, pois sabia que precisava do seu colega... E ele estava lá, pronto para ajudá-lo. Havia cumplicidade, parceria... Era fácil vê ali a importância de compartilhar, de não querer fazer tudo sozinho. Lindo, verdadeiro e profundo!

 

E o que dizer dos movimentos? Circulares, eles pareciam completamente sintonizados com o fluxo do universo. Mas o que me chamou mais a atenção foi sentir a presença do princípio da não resistência.

Quando recebia uma tentativa de aprisionamento, o “atacado” apenas acolhia a agressão, buscava seu centro e, ignorando a parte do corpo aprisionada, movimentava-se livremente aplicando uma técnica vigorosa, apesar de suave, e libertava-se daquela “prisão”.  Sem confronto e sem precisar pensar no que fazia. Tudo era harmônico e natural. Impossível descrever! Só posso dizer que pude ver integração e equilíbrio.

 

Os alunos traziam nos olhos admiração e respeito pelo sensei e este estava lá com um grande espírito de cooperação para se entregar por inteiro, sem esperar nada de volta... embora fosse visível que ele também recebia, e muito! Mas o que ele ganhava era igualmente doado pelos alunos. Era a própria materialização das palavras do escritor Fabrício Carpinejar: “A troca é um ato infeliz do amor, indica que não houve doação”. Lá não havia troca, só muito amor no ar...

 

Ao final, fui chamada para me reunir com eles no centro do tatame, onde foi depositado tudo o que eles haviam levado: refrigerante, bolo e biscoitos, que foram repartidos entre os presentes. Qualquer semelhança com a santa ceia não era mera coincidência.

 

Voltei de Itaquá com a alma aos pulos e o coração cheio de ensinamentos... Ainda hoje, quando fecho os olhos, posso reviver cada momento que passei lá.

 

Infelizmente, em Teresina, onde moro, não tem um local para a prática do aikido. Mas passei a exercitar a sua filosofia de vida, que, de alguma forma, já fazia parte da minha essência. Proceder assim foi um aprendizado que me foi repassado por este sensei. Quando ele precisou morar em outra cidade e deixar o mosteiro que frequentava, recebeu de um monge a seguinte mensagem: “Você não precisar se isolar e morar num mosteiro para viver como um monge. Seja-o onde e com quem estiver!”.


Morihei Ueshiba

É obvio!

Nos festejos de São Raimundo Nonato, que acontecem no final do mês de agosto, na cidade de União-PI – terra da minha mãe -, tem procissão, missas, barraquinhas de comidas, bebidas e produtos artesanais, leilões, shows e muitas festas.

 

Minha infância e juventude foram marcadas por esses eventos e eu lembro bem como acontecia: No café da manhã, era hora do caldo de carne no Zé Silva; Depois, banhávamos de piscina no clube Apache ou íamos para a beira do rio Raiz; Mais tarde, vinha a parte da igreja e o papo também rolava solto na praça; E, para finalizar, tinha o imperdível baile no Comercial Esporte Clube onde nós fazíamos fila para dançar com o tio Arias. Ele foi para nós uma espécie de professor dessa maravilhosa arte de percorrer o salão se sentindo levitar... Inesquecível!

 

Num desses festejos eu comecei uma grande amizade com duas primas – Caubyra e Tânia. Passamos a ser um trio inseparável: estudávamos no mesmo colégio, brincávamos, saíamos e nos divertíamos juntas. A ligação era tanta, que, mesmo quando não estávamos lado a lado, muitas vezes bastava o olhar diferente de uma de nós para que as outras duas entendessem do que se tratava: era um “paquera” que acabara de chegar, uma “curica” do nosso abuso que estava passando, uma roupa mais extravagante que “mangávamos”... e outras coisas do gênero.

 

Na verdade, esse tipo de conexão é muito comum e começa bem cedo na nossa vida: é interpretando o choro dos bebês que as mães sabem se é dor, fome, sono ou se ele está apenas querendo colo. Normalmente, para que ela se instale, é preciso uma convivência intensa, mesmo que seja por pouco tempo.

 

Porém, mesmo com uma grande sintonia, não é possível garantir sempre que a mensagem seja captada corretamente. No caso meu e de minhas primas, às vezes era necessário utilizar gestos ou articular exageradamente as palavras sem emitir som.

 

Isso vale também para quando queremos nos expressar usando palavras. A questão é que a gente, vez por outra, esquece que cada um tem seu próprio padrão de comunicação e interpretação da realidade. Além disso, como nosso pensamento é muito mais rápido do que a nossa comunicação verbal, podemos falar algo diferente da ideia formada no nosso cérebro. Eu já me peguei completando frases que eu só iniciei no pensamento. Tipo: “Você não acha?”. E, como eu não havia dito nada antes, a pessoa ficava olhando pra mim sem entender nada...

 

Se já não bastasse essas possibilidades de ruído citadas, mesmo sem notar, nós costumamos omitir informações (deixamos de lado elementos importantes), generalizamos (fazemos uma experiência tornar-se referência para todas as outras) e até distorcemos (mudamos, julgamos ou pressupomos pensamentos e ações dos outros).

 

Um exemplo bem simples do que falei acima: se disser “Ah, estou muito confusa”, há uma omissão, uma vez que não falamos em relação a que estamos confusas. Se for “Eu sempre falo desse jeito”, estamos fazendo uma generalização que detectamos também ao ouvir um jamais, sempre, todos, tudo... E se falar “Ela não me ligou... está chateada comigo”, é uma distorção, pois uma coisa não significa necessariamente a outra.

 

E são tantos os exemplos de frases que não nos deixam receber a mensagem por completo... Senão, vejamos: “Estou com um sentimento ruim”, “Fico deprimido com isso”, “Estou consciente do problema que causei”, “Ela me detesta”, “Eu disse que ia tentar”, “Essa ideia foi a pior”, “Tenho que ir logo”, “Isso não é possível”, “Ele só faz isso só pra me chatear”... Mas esta é a que mais escuto: “É óbvio!”.

 

Quantas vezes ouvimos frases como essas? E quantas vezes também nos pegamos falando assim? Aí, quando surgem os conflitos, não sabemos o motivo... Pode ser falha na comunicação! Por isso, é bom prestarmos atenção à forma de nos comunicar, inclusive com o nosso corpo: o corpo fala e, muitas vezes, desmente o que as palavras dizem... E é sempre bom recordar o velho guerreiro, Chacrinha, que dizia: “Quem não se comunica, se trumbica!”.

 

Por falar em forma de se comunicar, lembrei da piada que terminou gerando um bordão: Certa vez, o Zorro cavalgava por um desfiladeiro ao lado do seu fiel companheiro, o índio Tonto. De repente, muitos comanches surgiram diante deles. “Comanches à frente, Tonto”, disse Zorro. “Vamos pegar o desvio”, completou. E assim os dois fizeram. Cavalgaram mais um pouco e avistaram uma nova fileira de comanches. Diante do inevitável, Zorro comentou: “Problema, Tonto, nós estamos cercados!”. Tonto, sabiamente, perguntou: “Nós quem, cara pálida?”.

 

A piada foi só pra lembrar: A partir de agora, quando alguém disser que algo “É obvio”, reflita: “Obvio para quem, cara pálida?”. Se não for para você, questione e tire suas dúvidas antes de concordar ou discordar.

 


O tempo vale ouro

Minha família sempre foi musical: minha mãe tocava violino, acordeom, bandolim e pandeiro (os dois últimos até hoje) e meus irmãos, Carlos e Elder, fundaram com os amigos a banda “Black White” que tinha como empresário o ex-Ministro dos Transportes João Henrique de Almeida Sousa, mas que foi desativada por ordem de meu pai, Cleanto Jales. Para ele, música era só diversão, não profissão.

 

A banda se desfez, mas o grupo sempre se reunia na nossa casa da Rua da Estrela para tocar. No repertório, muito Fevers, Renato e seus Blue Caps e Beatles. Era também época dos festivais e lembro que eles curtiam muito a música de Geraldo Vandré que só ficou em segundo lugar no III Festival Internacional da Canção, mas se tornou um hino de resistência do movimento civil e estudantil que fazia oposição à ditadura militar: “Pra não dizer que não falei das flores”. E assim, desde pequena, aprendi “Que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer".

 

Cresci reforçando a ideia de que “tempo é ouro” e qualquer possibilidade de deixar as coisas terem um fluxo mais lento me soava como preguiça, falta de vontade, desleixo... E quando fui trabalhar nas emissoras de TV (Timon e Clube), a coisa só piorou: lá eu aprendi que o minuto que deixamos de levar algo ao ar é perdido, sem possibilidade de retorno.

 

Foi sempre assim: numa ânsia de aproveitar bem o meu tempo, minha mente não para, e eu fazia de tudo um pouco... a ponto de parecer que meu dia tinha mais do que 24 horas.

 

O humorista e jornalista João Cláudio Moreno, aproveitando essa deixa, até dizia: “Todo mundo se ressente que o tempo urge, que o tempo está passando mais depressa, que um dia com 24 horas não é suficiente para nossas tarefas mais corriqueiras. Tem gente mesmo que chega a perguntar: Onde a gente compra um dia com 30 horas? Eu digo sempre: Nem adianta procurar. A Suzane Jales já comprou todos!”. E registrou isso num depoimento que foi publicado no meu livro “JOÃO – Um olhar sobre a produção”.

 

Entretanto, eu descobri que, mais do que prudente, muitas vezes é extremamente necessário deixar o rio da nossa existência correr no seu ritmo, sem interferir nesse processo... Aí vi a importância de me desapegar do tempo e viver fazendo as coisas mais lentamente ou apenas me permitindo não fazer absolutamente nada sem sentir culpa. Dá pra imaginar como tem sido isso para mim? Um longo, lento e necessário aprendizado!

 

Nesse processo, deparei-me com uma historinha que divido com vocês... Quem sabe possa ser útil para alguém?

 

Era uma vez um menino e seu avô que viajavam a pé por uma estrada carroçal. A água que eles levavam já havia acabado e o sol estava muito quente. De repente, eles avistaram um riacho um pouco mais adiante. O menino saiu correndo em disparada, mas quando ele estava chegando perto do riacho, uma carruagem passou pela beirinha, mexendo na água e trazendo para a superfície folhas, gravetos e muita sujeira.

O menino olhou decepcionado e voltou dizendo para o avô que não dava para beber, pois a água estava muito suja. O avô então pediu que ele tivesse paciência e aguardasse um pouco mais para ver como ela ficaria. Chateado e com muita sede, o menino não quis esperar muito: correu novamente até o riacho e voltou dizendo que a água estava mesmo turva.

 

O avô disse-lhe, então: “Sabe, meu netinho, em algumas situações, como essa, só nos resta confiar que a sujeira vai baixar para, depois, beber a água. Não há o que possamos fazer... a não ser esperar”.



Vendo nossas sombras

Anos atrás, quando iniciei o primeiro curso de Programação Neurolinguística (PNL), senti-me como se tivesse instalado no meu peito um telescópio com a lente voltada para dentro. À medida que avançava nos cinco módulos do Practitioner, fui aprendendo a usar ferramentas importantíssimas para movimentar, regular e ler o que conseguia ver através desse telescópio.

 

Há poucos dias, comecei a fazer o PNL Master pelo módulo Integração – uma nomenclatura adotada pela Iluminatta Brasil que tem tudo a ver com a visão do todo que se busca. Nesta fase, de forma sistêmica, passamos a observar as conexões e a fazer um ajuste ainda mais preciso nas lentes, como um trabalho de sintonia fina. Com isso, pudemos ver não apenas as partes que a luz nos permite, mas também acessar as sombras.

 

Funciona mais ou menos assim: você aprende a ampliar enormemente a sua percepção e, com isso, começa a perceber melhor o que te rodeia e a encontrar-se com uma parte sua que a consciência havia escondido bem escondidinha.

 

É uma experiência única: não tenho palavras para definir o que se passou. Acho mesmo que só experimentando para ver, ouvir e sentir...

 

Se você tiver o interesse em dar um passo nesse caminho, peço que pare alguns minutos e analise, com muita sinceridade, a forma que você está lidando com coisas importantes da sua vida como carreira, sonhos, projetos e relacionamentos. O que você vem fazendo te aproxima ou afasta deles?

 

Se procurar bem no fundo do fundo do fundo de suas ações, talvez você se surpreenda ao descobrir que, muitas vezes, pode estar jogando milho e ao mesmo tempo dizendo “xô, galinha”...


Dá pra ter paz assim?

Uma amiga desabafou comigo que sua vida estava um caos: o trabalho estava levando-a à exaustão, seu carro estava quebrado, ela tinha problemas com o filho e seu relacionamento não estava lá um céu de brigadeiro. “Assim não dá pra se ter paz!”, disse-me.

 

Eu lembrei, então, uma história que ouvi há algum tempo atrás: Um rei de uma terra muito, muito distante estava enfrentando sérias dificuldades com guerras explodindo por toda a região. Algumas eram lutas pequenas, dentro do próprio reino; outras eram maiores e envolviam nômades e grupos rivais, que atacavam sem dó.

 

O rei estava desolado... Ele sabia que precisava se concentrar para poder tomar as decisões certas, mas ele não conseguia ter um momento de sossego, num local que pudesse buscar o equilíbrio que precisava.

 

O rei foi aconselhado a criar um ambiente propício que lhe remetesse à serenidade que tanto necessitava, e ordenou que o arquiteto real ambientasse esse local, o que foi feito imediatamente. O rei foi conferir e achou que ainda faltava algo. “Um quadro que me remeta à paz.. É isso o que eu preciso aqui!”, disse o rei.

 

Rapidamente, foram convocados os melhores artistas do reino para que pintassem um quadro representativo da paz perfeita. O rei, pessoalmente, escolheria um deles. O alvoroço foi total. Cada um queria a honra de ter uma obra exposta no palácio real.

 

Na hora marcada, o rei entrou no grande salão e começou a ver os trabalhos feitos: um retratava um campo florido; um outro trazia borboletas que bailavam no ar; tinha um com uma belíssima praia com palmeiras ao vento; outro, ainda, mostrava pássaros voando num céu azul de tirar o fôlego; havia um com um lago de águas cristalinas refletindo as montanhas; e o quadro bem do final mostrava um grande rochedo sendo chicoteado com violência pelas ondas do mar em meio a uma tempestade estrondosa, com muitos relâmpagos.

 

O rei parou totalmente abismado na frente desse último e exclamou: “É este o quadro que quero!”.

 

Todos ficaram pasmos. Um dos pintores não se conteve e perguntou: “Desculpe nossa ignorância, mas com tantos quadros belíssimos, por que vossa majestade escolheu exatamente esse, que demonstra tanta brutalidade?

 

Com uma grande sabedoria no olhar, o rei disse-lhes: “Vocês notaram que, apesar das agressões das ondas e da grande tempestade, numa das fendas dessa montanha de rocha existe um arbusto crescendo e que, neste arbusto, encontra-se um ninho onde podemos ver um passarinho com seus filhotes dormindo calmamente?

 

Alguns artistas se aproximaram mais do quadro e viram os pássaros, mas, ainda assim, ficaram com uma cara de quem não estava entendendo nada...

 

Com um sorriso compreensivo, o rei falou: “Senhores, a paz, a verdadeira paz, é um estado de espírito. Paz não é estar num lugar sem problemas, sem trabalho árduo ou sem dor. Paz é, apesar de estar no meio da tormenta, ainda permanecer calmo no nosso coração. Este é o verdadeiro significado da paz: se a nossa consciência está tranquila, tudo à nossa volta pode estar em revolução que conseguiremos manter a nossa serenidade”.



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