Cidadeverde.com
Suzane Jales

É obvio!

Nos festejos de São Raimundo Nonato, que acontecem no final do mês de agosto, na cidade de União-PI – terra da minha mãe -, tem procissão, missas, barraquinhas de comidas, bebidas e produtos artesanais, leilões, shows e muitas festas.

 

Minha infância e juventude foram marcadas por esses eventos e eu lembro bem como acontecia: No café da manhã, era hora do caldo de carne no Zé Silva; Depois, banhávamos de piscina no clube Apache ou íamos para a beira do rio Raiz; Mais tarde, vinha a parte da igreja e o papo também rolava solto na praça; E, para finalizar, tinha o imperdível baile no Comercial Esporte Clube onde nós fazíamos fila para dançar com o tio Arias. Ele foi para nós uma espécie de professor dessa maravilhosa arte de percorrer o salão se sentindo levitar... Inesquecível!

 

Num desses festejos eu comecei uma grande amizade com duas primas – Caubyra e Tânia. Passamos a ser um trio inseparável: estudávamos no mesmo colégio, brincávamos, saíamos e nos divertíamos juntas. A ligação era tanta, que, mesmo quando não estávamos lado a lado, muitas vezes bastava o olhar diferente de uma de nós para que as outras duas entendessem do que se tratava: era um “paquera” que acabara de chegar, uma “curica” do nosso abuso que estava passando, uma roupa mais extravagante que “mangávamos”... e outras coisas do gênero.

 

Na verdade, esse tipo de conexão é muito comum e começa bem cedo na nossa vida: é interpretando o choro dos bebês que as mães sabem se é dor, fome, sono ou se ele está apenas querendo colo. Normalmente, para que ela se instale, é preciso uma convivência intensa, mesmo que seja por pouco tempo.

 

Porém, mesmo com uma grande sintonia, não é possível garantir sempre que a mensagem seja captada corretamente. No caso meu e de minhas primas, às vezes era necessário utilizar gestos ou articular exageradamente as palavras sem emitir som.

 

Isso vale também para quando queremos nos expressar usando palavras. A questão é que a gente, vez por outra, esquece que cada um tem seu próprio padrão de comunicação e interpretação da realidade. Além disso, como nosso pensamento é muito mais rápido do que a nossa comunicação verbal, podemos falar algo diferente da ideia formada no nosso cérebro. Eu já me peguei completando frases que eu só iniciei no pensamento. Tipo: “Você não acha?”. E, como eu não havia dito nada antes, a pessoa ficava olhando pra mim sem entender nada...

 

Se já não bastasse essas possibilidades de ruído citadas, mesmo sem notar, nós costumamos omitir informações (deixamos de lado elementos importantes), generalizamos (fazemos uma experiência tornar-se referência para todas as outras) e até distorcemos (mudamos, julgamos ou pressupomos pensamentos e ações dos outros).

 

Um exemplo bem simples do que falei acima: se disser “Ah, estou muito confusa”, há uma omissão, uma vez que não falamos em relação a que estamos confusas. Se for “Eu sempre falo desse jeito”, estamos fazendo uma generalização que detectamos também ao ouvir um jamais, sempre, todos, tudo... E se falar “Ela não me ligou... está chateada comigo”, é uma distorção, pois uma coisa não significa necessariamente a outra.

 

E são tantos os exemplos de frases que não nos deixam receber a mensagem por completo... Senão, vejamos: “Estou com um sentimento ruim”, “Fico deprimido com isso”, “Estou consciente do problema que causei”, “Ela me detesta”, “Eu disse que ia tentar”, “Essa ideia foi a pior”, “Tenho que ir logo”, “Isso não é possível”, “Ele só faz isso só pra me chatear”... Mas esta é a que mais escuto: “É óbvio!”.

 

Quantas vezes ouvimos frases como essas? E quantas vezes também nos pegamos falando assim? Aí, quando surgem os conflitos, não sabemos o motivo... Pode ser falha na comunicação! Por isso, é bom prestarmos atenção à forma de nos comunicar, inclusive com o nosso corpo: o corpo fala e, muitas vezes, desmente o que as palavras dizem... E é sempre bom recordar o velho guerreiro, Chacrinha, que dizia: “Quem não se comunica, se trumbica!”.

 

Por falar em forma de se comunicar, lembrei da piada que terminou gerando um bordão: Certa vez, o Zorro cavalgava por um desfiladeiro ao lado do seu fiel companheiro, o índio Tonto. De repente, muitos comanches surgiram diante deles. “Comanches à frente, Tonto”, disse Zorro. “Vamos pegar o desvio”, completou. E assim os dois fizeram. Cavalgaram mais um pouco e avistaram uma nova fileira de comanches. Diante do inevitável, Zorro comentou: “Problema, Tonto, nós estamos cercados!”. Tonto, sabiamente, perguntou: “Nós quem, cara pálida?”.

 

A piada foi só pra lembrar: A partir de agora, quando alguém disser que algo “É obvio”, reflita: “Obvio para quem, cara pálida?”. Se não for para você, questione e tire suas dúvidas antes de concordar ou discordar.

 


O tempo vale ouro

Minha família sempre foi musical: minha mãe tocava violino, acordeom, bandolim e pandeiro (os dois últimos até hoje) e meus irmãos, Carlos e Elder, fundaram com os amigos a banda “Black White” que tinha como empresário o ex-Ministro dos Transportes João Henrique de Almeida Sousa, mas que foi desativada por ordem de meu pai, Cleanto Jales. Para ele, música era só diversão, não profissão.

 

A banda se desfez, mas o grupo sempre se reunia na nossa casa da Rua da Estrela para tocar. No repertório, muito Fevers, Renato e seus Blue Caps e Beatles. Era também época dos festivais e lembro que eles curtiam muito a música de Geraldo Vandré que só ficou em segundo lugar no III Festival Internacional da Canção, mas se tornou um hino de resistência do movimento civil e estudantil que fazia oposição à ditadura militar: “Pra não dizer que não falei das flores”. E assim, desde pequena, aprendi “Que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer".

 

Cresci reforçando a ideia de que “tempo é ouro” e qualquer possibilidade de deixar as coisas terem um fluxo mais lento me soava como preguiça, falta de vontade, desleixo... E quando fui trabalhar nas emissoras de TV (Timon e Clube), a coisa só piorou: lá eu aprendi que o minuto que deixamos de levar algo ao ar é perdido, sem possibilidade de retorno.

 

Foi sempre assim: numa ânsia de aproveitar bem o meu tempo, minha mente não para, e eu fazia de tudo um pouco... a ponto de parecer que meu dia tinha mais do que 24 horas.

 

O humorista e jornalista João Cláudio Moreno, aproveitando essa deixa, até dizia: “Todo mundo se ressente que o tempo urge, que o tempo está passando mais depressa, que um dia com 24 horas não é suficiente para nossas tarefas mais corriqueiras. Tem gente mesmo que chega a perguntar: Onde a gente compra um dia com 30 horas? Eu digo sempre: Nem adianta procurar. A Suzane Jales já comprou todos!”. E registrou isso num depoimento que foi publicado no meu livro “JOÃO – Um olhar sobre a produção”.

 

Entretanto, eu descobri que, mais do que prudente, muitas vezes é extremamente necessário deixar o rio da nossa existência correr no seu ritmo, sem interferir nesse processo... Aí vi a importância de me desapegar do tempo e viver fazendo as coisas mais lentamente ou apenas me permitindo não fazer absolutamente nada sem sentir culpa. Dá pra imaginar como tem sido isso para mim? Um longo, lento e necessário aprendizado!

 

Nesse processo, deparei-me com uma historinha que divido com vocês... Quem sabe possa ser útil para alguém?

 

Era uma vez um menino e seu avô que viajavam a pé por uma estrada carroçal. A água que eles levavam já havia acabado e o sol estava muito quente. De repente, eles avistaram um riacho um pouco mais adiante. O menino saiu correndo em disparada, mas quando ele estava chegando perto do riacho, uma carruagem passou pela beirinha, mexendo na água e trazendo para a superfície folhas, gravetos e muita sujeira.

O menino olhou decepcionado e voltou dizendo para o avô que não dava para beber, pois a água estava muito suja. O avô então pediu que ele tivesse paciência e aguardasse um pouco mais para ver como ela ficaria. Chateado e com muita sede, o menino não quis esperar muito: correu novamente até o riacho e voltou dizendo que a água estava mesmo turva.

 

O avô disse-lhe, então: “Sabe, meu netinho, em algumas situações, como essa, só nos resta confiar que a sujeira vai baixar para, depois, beber a água. Não há o que possamos fazer... a não ser esperar”.



Vendo nossas sombras

Anos atrás, quando iniciei o primeiro curso de Programação Neurolinguística (PNL), senti-me como se tivesse instalado no meu peito um telescópio com a lente voltada para dentro. À medida que avançava nos cinco módulos do Practitioner, fui aprendendo a usar ferramentas importantíssimas para movimentar, regular e ler o que conseguia ver através desse telescópio.

 

Há poucos dias, comecei a fazer o PNL Master pelo módulo Integração – uma nomenclatura adotada pela Iluminatta Brasil que tem tudo a ver com a visão do todo que se busca. Nesta fase, de forma sistêmica, passamos a observar as conexões e a fazer um ajuste ainda mais preciso nas lentes, como um trabalho de sintonia fina. Com isso, pudemos ver não apenas as partes que a luz nos permite, mas também acessar as sombras.

 

Funciona mais ou menos assim: você aprende a ampliar enormemente a sua percepção e, com isso, começa a perceber melhor o que te rodeia e a encontrar-se com uma parte sua que a consciência havia escondido bem escondidinha.

 

É uma experiência única: não tenho palavras para definir o que se passou. Acho mesmo que só experimentando para ver, ouvir e sentir...

 

Se você tiver o interesse em dar um passo nesse caminho, peço que pare alguns minutos e analise, com muita sinceridade, a forma que você está lidando com coisas importantes da sua vida como carreira, sonhos, projetos e relacionamentos. O que você vem fazendo te aproxima ou afasta deles?

 

Se procurar bem no fundo do fundo do fundo de suas ações, talvez você se surpreenda ao descobrir que, muitas vezes, pode estar jogando milho e ao mesmo tempo dizendo “xô, galinha”...


Dá pra ter paz assim?

Uma amiga desabafou comigo que sua vida estava um caos: o trabalho estava levando-a à exaustão, seu carro estava quebrado, ela tinha problemas com o filho e seu relacionamento não estava lá um céu de brigadeiro. “Assim não dá pra se ter paz!”, disse-me.

 

Eu lembrei, então, uma história que ouvi há algum tempo atrás: Um rei de uma terra muito, muito distante estava enfrentando sérias dificuldades com guerras explodindo por toda a região. Algumas eram lutas pequenas, dentro do próprio reino; outras eram maiores e envolviam nômades e grupos rivais, que atacavam sem dó.

 

O rei estava desolado... Ele sabia que precisava se concentrar para poder tomar as decisões certas, mas ele não conseguia ter um momento de sossego, num local que pudesse buscar o equilíbrio que precisava.

 

O rei foi aconselhado a criar um ambiente propício que lhe remetesse à serenidade que tanto necessitava, e ordenou que o arquiteto real ambientasse esse local, o que foi feito imediatamente. O rei foi conferir e achou que ainda faltava algo. “Um quadro que me remeta à paz.. É isso o que eu preciso aqui!”, disse o rei.

 

Rapidamente, foram convocados os melhores artistas do reino para que pintassem um quadro representativo da paz perfeita. O rei, pessoalmente, escolheria um deles. O alvoroço foi total. Cada um queria a honra de ter uma obra exposta no palácio real.

 

Na hora marcada, o rei entrou no grande salão e começou a ver os trabalhos feitos: um retratava um campo florido; um outro trazia borboletas que bailavam no ar; tinha um com uma belíssima praia com palmeiras ao vento; outro, ainda, mostrava pássaros voando num céu azul de tirar o fôlego; havia um com um lago de águas cristalinas refletindo as montanhas; e o quadro bem do final mostrava um grande rochedo sendo chicoteado com violência pelas ondas do mar em meio a uma tempestade estrondosa, com muitos relâmpagos.

 

O rei parou totalmente abismado na frente desse último e exclamou: “É este o quadro que quero!”.

 

Todos ficaram pasmos. Um dos pintores não se conteve e perguntou: “Desculpe nossa ignorância, mas com tantos quadros belíssimos, por que vossa majestade escolheu exatamente esse, que demonstra tanta brutalidade?

 

Com uma grande sabedoria no olhar, o rei disse-lhes: “Vocês notaram que, apesar das agressões das ondas e da grande tempestade, numa das fendas dessa montanha de rocha existe um arbusto crescendo e que, neste arbusto, encontra-se um ninho onde podemos ver um passarinho com seus filhotes dormindo calmamente?

 

Alguns artistas se aproximaram mais do quadro e viram os pássaros, mas, ainda assim, ficaram com uma cara de quem não estava entendendo nada...

 

Com um sorriso compreensivo, o rei falou: “Senhores, a paz, a verdadeira paz, é um estado de espírito. Paz não é estar num lugar sem problemas, sem trabalho árduo ou sem dor. Paz é, apesar de estar no meio da tormenta, ainda permanecer calmo no nosso coração. Este é o verdadeiro significado da paz: se a nossa consciência está tranquila, tudo à nossa volta pode estar em revolução que conseguiremos manter a nossa serenidade”.



Prazeres simples para mentes simples

Betty caminhava apressada pelo saguão do aeroporto. Faltavam poucos minutos para o encerramento do check in, mas, ainda assim, ela observou o belíssimo colar que uma senhora usava. Parou em frente a ela, virou-se e comentou: “Que belo colar!”. Já ia voltando a caminhar, quando a mulher respondeu, segurando, orgulhosa, o colar: “É mesmo lindo, não é?”. As duas deram, então, uma boa risada. Betty continuou rumo ao balcão da companhia e a mulher ficou ali, feliz. Ambas viveram um momento único e que, provavelmente, jamais ocorrerá entre as duas... mas que elas não deixaram passar em branco!

 

A história acima é verdadeira e a protagonista é Betty Alice Erickson, filha do brilhante Milton Erickson (aquele que desenvolveu uma forma revolucionária de hipnose que ficou conhecida com o seu nome: Hipnose Ericksoniana). Ela é psicoterapeuta com mais de 20 anos de prática e possui décadas de experiência em hipnose – começou servindo de sujeito de demonstração para seu pai, nos anos de 1950.

 

Em sua última estada no Brasil, durante um curso promovido pelo ACT Institute, Betty Erickson contou para um pequeno grupo de pessoas – do qual eu tive a honra de participar – histórias e estratégias criadas por seu pai e que nos levam a uma vida mais eficaz.

 

Uma delas foi demonstrada no fato ocorrido no aeroporto: lembrar à nossa mente inconsciente o que de bom acontece no nosso cotidiano. Para isso, informa, é importante notar, vibrar e/ou comemorar cada pequena alegria que desfrutamos. “Prazeres simples para mentes simples”, diz ela.

 

Assim, ela festejou quando degustou tapioca com queijo no apartamento do Eduardo Trigo (diretor do ACT Institute), vibrou quando passou por 3 sinais verdes seguidos e alegrou-se com um hambúrguer que comeu no jantar em São Paulo: “É um dos melhores que já provei!”.

 

Mesmo sabendo que Betty Erickson é americana (lá, praticamente todos amam hambúrguer), eu fiquei surpresa com a sua simplicidade e pude conferir de perto como essa tática faz mesmo uma grande diferença.

 

Mas, segundo ela, é importante se conectar na hora, quando o sentimento de prazer se instala. Depois, ele já não terá a mesma força ou, pior, podemos perder a oportunidade de nos alegrar. E nos lembrou que “uma avalanche é feita de pequenos flocos de neve”.

 

Além disso, deixou claro que, quando tiver outra pessoa envolvida, essa interação é um risco que corremos. No caso da história do colar, por exemplo, a senhora podia ter falado algo desagradável ou simplesmente ignorado o elogio. Ainda assim, ela (e eu também) acredita que vale a pena nos dar essa chance, já que correr riscos faz parte de nossa evolução.

 

E aí eu lembro de um texto de Sêneca, orador romano:

Rir é correr o risco de parecer tolo.

Chorar é correr o risco de parecer sentimental.

Estender a mão é correr o risco de se envolver.

Expor seus sentimentos é correr o risco de mostrar seu verdadeiro eu.

Defender seus sonhos e ideias diante da multidão é correr o risco de perder as pessoas

Amar é correr o risco de não ser correspondido.

Viver é correr o risco de morrer.

Confiar é correr o risco de se decepcionar.

Tentar é correr o risco de fracassar.

Mas devemos correr os riscos, porque o maior perigo é não arriscar nada.

Há pessoas que não correm nenhum risco, não faz nada, não têm nada e não são nada.

Elas podem até evitar sofrimentos e desilusões, mas não conseguem nada, não sentem nada, não mudam, não crescem, não amam, não vivem .

Acorrentadas por suas atitudes, elas viram escravas, privam-se de sua liberdade.”

Somente a pessoa que corre riscos é livre.”



Stephen Paul Adler, Suzane Jales e Betty Erickson

Uma nova moldura

Uma das lembranças de quando eu era criança e morava na antiga Rua da Estrela, em Teresina, é a imagem de meu pai lendo um livro do FBI e minha mãe, um romance da Barbara Cartland. E como eles nos incentivavam à leitura!

 

Remexendo na memória, lembro que dois dos primeiros livros que eu li marcaram minha vida: O Pequeno Príncipe (de Saint-Exupéry) e Pollyanna (de Eleanor Porter).

 

O primeiro é um clássico sobre amor e amizade. Frases como “Só se vê com o coração. O Essencial é invisível aos olhos”, Tu te tornas eternamente responsável por tudo aquilo que cativas” e Foi o tempo que dedicaste à tua rosa que fez tua rosa tão importante passaram a nortear meus relacionamentos.

 

Mas foi com a pequena Pollyanna Whittier que eu me identifiquei de imediato. O livro conta a história da simpática órfã, de personalidade radiante e alma sincera, que vai viver com sua tia, Paulina. Ela aprendeu com seu pai, um missionário pobre, uma filosofia de vida que procura em tudo que acontece algum motivo para ficar alegre, e que ela chamou de “jogo do contente”.

 

Achei aquilo fantástico. Eu queria ser como a Pollyanna! Procurei, então, incorporar o jogo do contente na minha vida. Algumas vezes dava certo, outras tantas não. Eu não sabia o que estava fazendo de “errado”, já que com a personagem era tão fácil... Como sou persistente, continuei tentando.

 

Tempos depois, ouvi de um amigo a história de um sábio que foi visitar um lugarejo. A comunidade preparou-se para recebê-lo e tudo estava impecável nos locais por onde ele passaria. Só que o convidado decidiu percorrer as vielas da cidadezinha. Isso preocupou os moradores e eles enviaram um homem à frente para ir arrumando o que fosse preciso. Porém, ele retornou logo, apreensivo, informando que, um pouco adiante, havia um cachorro morto, já em estado de putrefação, e era impossível removê-lo e acabar com o mau cheiro a tempo. Os anfitriões, então, resolveram persuadir o visitante para que ele não seguisse pelo caminho escolhido, porém não conseguiram. Ao chegar onde estava o animal morto, o sábio parou e ficou observando-o. Os moradores já se preparavam para ouvir um péssimo comentário, quando o mesmo falou: “Como este cachorro tinha os dentes lindos!”.

 

Fiquei pensando sobre isso e... bingo! Não era preciso necessariamente “ficar contente”, mas apenas se per­mitir ver ou­tros pontos além da­quele que foi escancarado pela si­tu­ação ad­versa. Já que não é possível mudar o que nos afetou, podemos alterar o sentimento vindo daí e que desequilibra nossa energia. Não como Jó Joaquim, personagem de Guimarães Rosa em Desenredo, que toma o passado como plástico e o molda. Não há mudança no passado, apenas passamos a ter novas percepções dele. É como pegar um quadro com uma cercadura que você não gosta e colocar uma nova moldura. O quadro é o mesmo, mas você passa a ter uma visão diferente dele.

 

Através dos cursos de Programação Neurolinguística (PNL) e Hipnose Ericksoniana, aprendi que isso tem nome – ressignificação ou reenquadramento – e técnicas para facilitar o processo, que, de uma forma bem simplificada, é observar a questão “do lado de fora”, como se fôssemos ex­pec­tadores. Assim, longe do “olho do furacão”, é possível que apareça alguma nuance ou um novo ponto que não havíamos visto.

 

Agir dessa forma ajuda a po­ten­ci­a­lizar nossa ca­pa­ci­dade de su­pe­ração em mo­mentos desfavoráveis e a escolher como vamos nos sentir em relação a eles. E isso faz toda a diferença! Até aquela situação sem saída co­meça a mostrar que tem al­gumas frestas que podem se transformar em portas e janelas.

 

Infelizmente, não é sempre fácil agir dessa forma, especialmente no começo. Algumas questões eu levei anos para reenquadrar, mas é um caminho viável, com êxito comprovado.  E lembro o que nos disse o escritor Orison Swett Marden: “O início de um hábito é como um fio invisível, mas a cada vez que o repetimos o ato reforça o fio, acrescenta-lhe outro filamento, até que se torna um enorme cabo e nos prende, de forma irremediável, no pensamento e ação”.



Onde está a minha felicidade?

Começo este artigo fazendo uma confissão: usei no texto anterior o termo “felicidade plena” com a intenção de provocar mesmo. Eu imaginei (e torci para) que pudesse dar bochicho e, claro, um bom tema para um novo artigo. Por isso, parafraseando o talentoso jornalista Francisco Magalhães, quero agradecer aos meus 3 ou 4 leitores que o repercutiram, seja por e-mail, seja no facebook.

 

Diferente do filme de Carlos Alberto Riccelli e Bruna Lombardi (que tem cenas gravadas no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí), no título, eu não perguntei “Onde está a felicidade?”, mas “Onde está a minha felicidade?”, porque este é um conceito abstrato, subjetivo e absolutamente pessoal.

 

Cada um de nós criou – ou idealizou – a felicidade segundo o nosso mapa de mundo e, por isso mesmo, ela é diferente, dependendo de cada pessoa. Em termos gerais, nossos padrões ocidentais nos levam a procurar a felicidade fora de nós, enquanto os orientais a veem no nosso interior. Vamos divagar mais sobre isso...

 

Há pessoas que se consideram felizes sem ter praticamente coisa nenhuma, enquanto outras são infelizes, mesmo possuindo quase tudo. E, mesmo sabendo que é delicado falar sobre momentos difíceis que enfrentamos, já que a dor só é entendida por quem a sente, conheço pessoas que acreditam que doenças, sofrimento e tristeza não signifiquem infelicidade. Elas encaram de forma positiva as experiências pelas quais passam e dizem que tudo serve de estrutura para seu espírito... E isso é uma verdade para elas!

 

Onde está, então, o “X” da questão? Charles Chaplin dá uma pista: "Nosso cérebro é o melhor brinquedo já criado: nele se encontram todos os segredos, inclusive o da felicidade".

 

A grande resposta é que a felicidade está onde nós a colocamos... e que pode ser num local inacessível! Por exemplo: quem achar que só será feliz quando não tiver problemas nem passar por dores e tristezas está fadado a ser infeliz, a condicionar a felicidade a meros momentos ou dizer que ela não existe.

 

Eu prefiro acreditar (e essa minha crença, ao contrário de ser limitadora, é potencializadora) que dores, problemas, sofrimentos, tristezas e alegrias são como as ondas: vêm e vão. Mas o mar continua lá!

 

Isso posto, vamos à questão da “felicidade plena”.

 

Durante um curso que fiz, o professor propôs uma dinâmica: ele dava um comando e todos nós tínhamos que nos movimentar e formar o número solicitado por ele, cada vez num menor tempo possível. E assim ele foi chamando: 2, 9, 8, 5, 7. Íamos diminuindo nosso tempo cada vez mais e melhorando nossa performance até que ele pediu um “8 perfeito”... Foi um desastre: nós simplesmente levamos mais do triplo do tempo que havíamos gasto no primeiro número. Nossa cabeça deu um nó: tivemos primeiro que ficar imaginando o que era um 8 perfeito antes de começar a agir e ficamos “corrigindo”, achando que ainda não tínhamos conseguido, que não estava perfeito...

 

Fazendo um paralelo, eu pergunto: qual a diferença de felicidade para “felicidade plena”? Felicidade pode ser “medida”, como fazemos com a alegria e tristeza (essas, sim, têm grandes, pequenas, passageiras, etc.)? Ou ela é um “estado” como a gravidez, que você tem ou não tem (nunca ouvi alguém dizer que está ligeiramente grávida)?

 

Como cada um de nós é um ser único, não existe uma fórmula que sirva para todos e isso tem som de música para meus ouvidos... Que bom que somos diferentes: é essa diversidade que torna a vida empolgante. É por isso que cada um precisa escolher o seu próprio caminho e o seu jeito de caminhar...

 

E você? Já pensou sobre onde está colocando a sua felicidade e no que tem feito para conquistá-la?

 

P.S.: Se você pensa em perguntar, eu respondo: sim, eu sou uma pessoa feliz!



Em que acreditamos?

Na minha infância, íamos a todos os circos que vinham à cidade e, como costumávamos chegar cedo – meu pai era extremamente pontual –, às vezes dava tempo de ver os animais antes da apresentação. A grande maioria deles era colocada em jaulas, mas os elefantes ficavam ao ar livre com uma corrente prendendo uma de suas patas a uma estaca de ferro ou madeira fincada no chão. Era impressionante ver que aqueles animais imensos, pesados e de força descomunal – com sua tromba podiam arrancar uma grande árvore pelo caule –, não faziam nenhum esforço para se soltar.

 

Anos depois, soube que, se eles usassem a sua força, com certeza arrebentariam a corrente ou, mais fácil, arrancariam a estaca do chão. Mas não o faziam porque, quando filhotes, foram aprisionados daquela forma o que, na época, era mesmo muito forte para eles. É provável que tenham tentado de tudo para se libertar até que, ainda pequenos, cansaram de se esforçar e aceitaram o fato de que não conseguiriam. A partir de então, ficaram com esse registro da sua impotência e nunca mais tentaram colocar a sua força outra vez à prova, mesmo depois de adultos. A prisão não estava mais na pata, mas na cabeça...

 

Pensando sobre isso, vemos que, muitas vezes, nos comportamos como os elefantes de circo e vivemos amarrados a muitas estacas que nos impedem de conseguir o que queremos. Isso acontece porque, quando criança ou no somatório de experiências ao longo da vida, vivemos ou vimos outras pessoas passarem por determinadas situações que possam ter “traumatizado” nossa mente. E esta pode, então, criar uma falsa generalização que, na maioria das vezes, tenta nos “proteger”.

 

Igualzinho aos elefantes, gravamos em nossa memória coisas como “não podemos ter isso”, “não podemos ser aquilo”, “não temos direito a tal coisa”, “não temos capacidade de fazer aquilo”, “não vamos conseguir isso”... Tudo o que vem depois de qualquer uma dessas frases, justificando-a, são crenças limitantes: “porque sou velho para isso”, “porque não sou inteligente o suficiente”, “porque não mereço”... E por aí vai. Como diz Joseph O’Connor, um expert em PNL, as crenças “atuam como regras que nos impedem de conseguir o que é possível, do que nós somos capazes e do que nós merecemos”.

 

Essas crenças funcionam como uma espécie de “filtro da realidade” e têm um peso enorme podendo, realmente, ser extremamente nocivas à nossa vida. E quanto mais carregadas de emoção, mais força elas têm. Invisíveis, nós nem nos damos conta de que elas existem e que nos controlam, fazendo-nos atribuir um significado diferente aos acontecimentos. Vamos nos comportando de acordo com o que acreditamos e fazendo escolhas baseadas numa realidade distorcida, mas que para nós é absolutamente verdadeira.

 

Um exemplo de crença limitante é o da pessoa que acredita que o ato de cometer erro e falhar é muito ruim. É provável que ela evite qualquer experiência de aprendizagem ou crescimento, pois, para isso, precisaria estar disposta a errar. Da mesma forma, quem acha que foi rejeitado(a), provavelmente evitará conhecer ou ter um relacionamento com novas pessoas e quem, quando criança, ao chorar e espernear, conseguia tudo dos pais, poderá se tornar um adulto que quer ganhar tudo “no grito”.

 

Como os elefantes, nos resignamos, nunca mais voltamos a tentar mudar e, muito pior, passamos a buscar notícias, experiências e comentários de outras pessoas que reforcem e confirmem nossas crenças. Assim nós as alimentamos e criamos um círculo vicioso.

 

No filme “Água para Elefantes”, com sede, a elefanta Rosie arranca a estaca que a prende e vai até onde está o balde de água. Depois de beber, volta para o lugar onde era confinada... e prende novamente a estaca no solo. Também é assim mesmo que costumamos fazer: às vezes, por breves momentos, parece que estamos conseguindo sair dessa enrascada que criamos, mas, logo que possível, prendemos a estaca de volta...

 

É que, quando as crenças são muito enraizadas, mesmo que estejam fazendo mal, elas passam a fazer parte de nós e da nossa vida: podemos nos sentir completamente “perdidos” sem elas. Por isso, muita gente opta pela “cegueira”: prefere viver com suas crenças, a questiona-las e, quem sabe, descobrir que elas são falsas... Ah, daria muito trabalho!

 

Se esse não é o seu caso, saiba que, para ficar livre desses grilhões invisíveis, precisamos ter coragem e disponibilidade para decifrar nosso inconsciente e sair dessa nossa aparente zona de conforto. E é exatamente por este ponto que começamos a mudar nosso padrão mental: questionando o nosso confortável modo de pensar.

 

Só por um teste, prestemos atenção nos nossos diálogos internos ou externos, no que escrevemos sobre nós mesmo e a vida, como construímos as frases, que palavras mais usamos... Um sinal de alerta sempre acende quando nos encontramos, por exemplo, numa situação de achar que as coisas são assim mesmo, que a felicidade completa não existe, que nós devemos apenas seguir o fluxo da vida, que não devemos ter grandes expectativas...

 

Destruir crenças que, na maioria das vezes, nem conseguimos ver não é uma tarefa muito fácil. Em alguns casos, precisamos mesmo da ajuda de um profissional (coach, terapeuta, psicólogo, etc) que tem o ouvido treinado para detectá-las e que possua ferramentas e técnicas próprias para cada caso.

 

Finalizo lembrando as palavras de Henry Ford: “Se você acredita que pode, você tem razão. Se você acredita que não pode, também tem razão”.



Nossas escolhas

Lembrei-me hoje de uma história que marcou a minha infância: Na saída do prédio onde fizeram o vestibular, meu irmão Cleanto Filho encontrou-se com um amigo que, por motivos que vão ficar claros, prefiro não citar o nome. Os dois comentavam sobre a prova de português e esse amigo falou que havia gostado de tudo, exceto da redação. Meu irmão surpreendeu-se, pois o tema era o melhor possível – À escolha – e cada um decidia sobre o que queria escrever. O amigo, que não captara muito bem o tema, completou: “Pois eu achei muito difícil falar sobre uma escolha...” Na verdade, ele só tinha conseguido escrever poucas linhas sobre a casca (ou palha) do arroz que, especialmente no interior do Piauí, é popularmente chamada de “escolha”.

 

Mesmo parecendo piada, essa história foi verdadeira e esse amigo virou alvo de gozação da turma por muito tempo. E eu fico imaginando o sufoco que ele passou... Agora, pensando bem, sei que fazer uma escolha – do ato de optar, preferir, eleger – também não é uma tarefa fácil, pois quando escolhemos alguma coisa, quase sempre temos que abrir mão de outras. Sabiamente, o escritor Caio Fernando de Abreu diz: A vida é feita de escolhas. Quando você dá um passo à frente, inevitavelmente alguma coisa fica para trás.

 

Desde o momento do nosso nascimento, já dependemos da escolha de nossos pais sobre qual nome teremos. E quando os dois querem nomes diferente e não conseguem decidir-se por um? Aí muitas vezes resulta naquelas junções esquisitas: Adalgamir, Bronsibel, Creosméria, Francimillyan, Loprefâncio, Soraiadite e Tospericagerja, este em homenagem à seleção do tri: Tostão, Pelé, Rivelino, Carlos Alberto, Gerson e Jairzinho (todos são nomes verdadeiros!).

 

São muitas as escolhas ao longo da nossa vida e em todas as áreas. Algumas são mais simples, outras mais complexas: que time vamos torcer, que profissão pretendemos seguir, onde vamos morar depois de casar, que tipo de alimentação queremos, em que vamos investir nosso dinheiro... e por aí vai.

 

Sabendo que nossas escolhas de hoje terão reflexo amanhã, quando podemos, o melhor é fazê-lo com sabedoria, com um objetivo estipulado, tendo foco e estudando bem cada opção e suas implicações: O que ganho escolhendo isso? O que perco? Quem ou o que será afetado por essa escolha?

 

Nessa questão, chama-me muita atenção algumas pessoas que, querendo passar num concurso, ficam “atirando para todos os lados” e se inscrevem em vários deles. Mas, se cada edital tem matérias específicas e muitas vezes diferentes dos demais, seria essa a melhor solução? Em que oportunidades também estamos agindo assim?

 

Outra coisa importante a ser frisada: é importante ter coragem de assumir os riscos e conseqências de nossas escolhas, uma vez que não podemos determinar, com absoluta exatidão, os seus resultados. Isso é certo: mesmo quem estuda, investiga e analisa a questão e toma todas as precauções, está isento de um resultado que não esperava. Mas, sem dúvida, tem muito mais probabilidade de acertar do que aquele que age apenas por impulso.

 

Finalizo realçando as palavras de Nietzsche (que na internet erroneamente também atribuem a Fernanda Young): Estar bem e feliz é uma questão de escolha e não de sorte ou mero acaso. É estar perto das pessoas que amamos, que nos fazem bem e que nos querem bem. É saber evitar tudo aquilo que nos incomoda ou faz mal, não hesitando em usar o bom senso, a maturidade obtida com experiências passadas ou mesmo nossa sensibilidade para isso. É distanciar-se de falsidade, inveja e mentiras. Evitar sentimentos corrosivos como o rancor, a raiva e as mágoas que nos tiram noites de sono e em nada afetam as pessoas responsáveis por causá-los. É valorizar as palavras verdadeiras e os sentimentos sinceros que a nós são destinados. E saber ignorar, de forma mais fina e elegante possível, aqueles que dizem as coisas da boca para fora ou cujas palavras e caráter nunca valeram um milésimo do tempo que você perdeu ao escutá-las.



A busca do podium

A poucos dias do início das Olimpíadas de Londres, fiquei pensando no trabalho de preparação dos atletas participantes, como a piauiense Sarah Menezes. Estar lá já é uma grande vitória, mas eles sonham mais alto: querem subir ao pódio.



(Sarah Menezes é a segunda à esquerda - Foto da Confederação Brasileira de Judô) 


Para isso tiveram um foco absoluto, dedicaram-se bastante, levaram uma vida de sacrifício e não desistiram acreditando que um dia chegariam lá. Eles demonstram que realmente sabem o que querem e o que são capazes de fazer para conquistar esse objetivo.

 

A gente sabe, entretanto, que não existe garantia de que eles vão conseguir. Nem para quem mais se sacrificou... Ainda assim, eles acreditam que vale à pena.

 

Embora para quem tanto batalha não haja certezas, podemos quase garantir que para aqueles que não se dedicaram, não tiveram foco e não fizeram esforço, o resultado é uma eliminação até bem antes da disputa final...

 

Hoje eu trago um vídeo para vocês que fala da diferença entre desconforto e exaustão. Para os atletas, trabalhar até a exaustão é uma rotina. E nós? O que estamos dispostos a sacrificar em prol dos nossos sonhos? Estamos indo até a exaustão? Qual é o tamanho do nosso apetite por esse objetivo?

 

Como disse o romancista José de Alencar: O sucesso nasce do querer, da determinação e persistência em se chegar a um objetivo. Mesmo não atingindo o alvo, quem busca e vence obstáculos, no mínimo, fará coisas admiráveis.


http://www.youtube.com/watch?v=0MTlohPLIL4&feature=player_embedded



Posts anteriores