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Revista especializada faz uma bela homenagem ao rock dos anos 80

Desde 1982: Uma edição caprichada (com um péssimo editorial) que comemora 40 anos de rock nacional. Foto: Arquivo

Ouvi dizer que atualmente só se encontra rock no Brasil nas bancas! (Um pouco de exagero, mas é quase isso)

A onda de revival nunca vai parar. A Rolling Stone deixou de existir em sua edição impressa, mas aqui temos essa edição especial de colecionador: Dossiê 40 anos de Rock Nacional.

Apesar de um editorial burocrático, preguiçoso e burro, tenho que dizer que é uma edição caprichada em fatos e fotos.

Verão de 1982, marco zero do rock nacional? Nunca ouviu falar de Celly Campello, os Mutantes e do Roberto. Imagem: Arquivo

Também tenho que dizer que se comemoram 40 anos, estamos falando de um período que começa em 1982, portanto, fica super fácil dizer qual o principal marco temporal: o (meu adorado) disco “As Aventuras da Blitz”.

Na revista temos uma breve história do verão de 1982 e suas clássicas passagens pelo Circo Voador e a Rádio Fluminense (a maldita!), uma atualização de como alguns dos artistas estão hoje em uma sessão de “cliques em ação” e uma matéria especial com o fotografo Marcos Hermes e seus marcantes momentos musicais capturados. 

 "Eu tinha doze anos ainda me lembro do dia...": Melhor disco da década de 1980 sem medo de errar (mesmo errado, tenho razão) Divulgação

Além disso, não poderia faltar uma lista dos discos mais importantes dos anos 80, uma playlist que brinca de jogo da memória e algumas matérias de arquivo da revista.

Alguns que gostam de crítica musical podem perguntar porque achei o editorial da revista “preguiçoso e burro".

Ler a revista com atenção e cuidado já responde. Enumero: 

1. Na revista, a Giannini em sua publicidade faz questão de enfatizar que em 1982 (marco desses 40 anos) já estava com 82 anos. Portanto, esteve presente em discos fundamentais de Renato Barros, Roberto Carlos e Ronnie Von, só pra usar a letra R!

Nem consigo imaginar o tanto de discos fundamentais de rock essa guitarra gravou bem antes de 1982. Foto: Arquivo 

(Nem vou dizer que houve uma marcha contra a guitarra em 1967)

2. Se 1982 foi o “pós-desbunde” como afirma reportagem da revista, imagina o desbunde!

E vamos lá, idealizar o passado porque no caso da música “eu (não) vejo o futuro repetir o passado”.

Você não soube SE amar! (HD)

Katharina Blum: A destruição de uma reputação num clássico que denuncia a "imprensa marrom"

Cartaz espanhol da obra cinemaográfica inspirada no livro de Heinrich Böll. Imagem: International Network

Katharina Blum poderia ser (ou é) outras como Madame Bovary, Anna Karenina, Fanny Hill ou Jane Eyre.

Comparação excessiva? Tranquilo. Para aqueles que sabem ao que me refiro, falo de um amor que desestabiliza . Fugaz (em alguns casos), porém avassalador (em todos).

Desestabiliza feio, não aquele suave passo em falso dado no batente baixo ou acordar de leve espasmo do tropeço dentro do sonho, mas sim um total eclipse do coração.

Estou escrevendo sobre “A Honra Perdida de Katharina Blum” de Heinrich Böll.

O livro tem essa recente e caprichosa edição pela editora Carambaia. Imagem: Divulgação

Temos o livro e o filme. O livro é de 1974 e atualmente possui uma digna reedição da Carambaia. O filme data de 1975.

De madrugada dei uma zapeada na tela e a hora de descanso se transformou em (cansativo) ócio criativo - aquilo que alguns chamam de vagabundagem, mas que diferencia esses "vagabundos" de quem até produzindo, nada faz.

A protagonista tem sua vida virada do avesso em todos seus setores por causa de um amor maldito (bendito pra ela, né?). Estamos em plena guerra fria na Alemanha Ocidental e o homem a quem Katharina ama é procurado por alguns crimes.

Katharina: Uma mulher simples e sua vida arrasada por um Estado policialesco e uma mídia sensacionalista. Imagem: Divulgação

Alguns pontos: aqui a concorrência vilanesca envolve os meios de comunicação (imprensa) que produzem campanhas difamatórias contra uma indefesa Katharina (quem pode contra a máquina?);

Vaias para os professores de comunicação que na sala e na douta ignorância, repetem ad aeternum o filme do Jim Carrey (nem falo o nome pra não ter raiva dessa insistência) e a mesma coisa acontece com as incessantes sessões de “O Enigma de Kaspar Hauser”;

Por último, nossa!, como a Alemanha Ocidental não perdia em nada para o Estado policialesco e torturante da parte Oriental.

Um grande filme, além de muito atual nesses tempos de jornalismo tendencioso e irresponsável (que alguns chamam de “alta performance” hahahaha) distorcendo a realidade. (HD)

Festival de Cannes é uma brisa de fortes e novos ventos que sopram o melhor cinema

2022: Festival de Cannes é sempre um jorro de criatividade, polêmicas e ótimos filmes. Imagem: Divulgação

Temporada de festival em Cannes é sempre prenuncio de bons filmes e boas histórias.

Dei uma rápida pescada no que você pode anotar como os filmes mais comentados, aplaudidos e badalados dessa edição.

Holy Spider – Depois do curioso e espantoso ‘Border’, o diretor Ali Abbasi sai da Dinamarca e trata de um serial killer no Irã. Metáfora (apesar de que parece se tratar de um caso verídico) sobre machismo, fundamentalismo e hipocrisia descrito nesse filme com muitas doses de incomôdo.

Decision to Leave – O grande diretor coreano Park Chan-Wook (Old Boy) aposta em novelão com toques de suspense detetivesco. Morte suspeita de um homem leva um detetive até a viúva e aí sabe-se lá quais serão as consequências.

EO – Um burro é melhor que o homem? Jornada intensa e comovente de um burro perante os homens. Uma bela fábula.

("EO" - TRAILER INDISPONÍVEL)

R.M.N. – O título é o acrônimo para Romênia. Numa cidadezinha do país, a contratação de imigrantes gera debates e confusões trazendo discussões bem presentes na geopolítica atual. Claro que com a destreza, a ironia e o bom humor que o cinema traz. Mas um verdadeiro “show de horrores xenófobo”.

Crimes of the Future – o canadense Cronenberg sendo Cronenberg e quem o conhece sabe do que falo. Filme difícil para corações e olhos mais sensíveis e é uma variação radical de experiências estéticas. Imagina você, criar um exército de pós-humanos??!! (Com o passar do tempo, o ‘body horror’ tem perdido meu interesse, mas abro exceção para esse diretor) (HD)

1000 listas pra fazer e nenhuma delas vale 1000 coisas

Mais uma lista imprecisa: Seria mesmo o melhor disco brasileiro de todos os tempos? CLARO QUE NÃO, NÉ?. Imagem: Divulgação

Esses dias tem sido dias de listas ou pra citar a banda paulistana Ira, poderiam ser “dias de luta” por listas, já que listas causam muita ira e muitos lutam para validá-las.

Antes de mais nada, listas são padrões que seguem regras bem distintas e de todo modo temos nossas próprias regras (e muitos têm a mesma), mas desobedecê-las é mister. Não se sinta obrigado a concordar (Comigo e com as listas). Sempre!

Claro que listas tem seus predicados positivos, por exemplo, encaminhar algo que alguém mais experiente ou escolado sugere e que você não conhecia, propõe boas discussões acerca de um tema e reaviva a memória em torno de belas obras esquecidas. (No caso das artes)

Blá-blá-blá, ti-ti-ti ou tá tá tá? Lista intermináveis e incontornáveis. Foto: Acervo

As novas listas que aqui chamo atenção são: 200 livros para conhecer o Brasil e outra que elegeu o maior disco brasileiro de todos os tempos. 

(Listas possuem essa característica egocêntrica e autoritária, hein?)

E estou aqui para afinar coro dos descontentes.

A longa lista de livros - proponho que você busque na internet - foi produzida pelo jornal ‘Folha de São Paulo’.

Listas pra quê mesmo? Alguém lembrou do aniversário do escritor LIma Barreto no último dia 13 de Maio? Foto: Acervo

Já dos discos - reconheço a competência de quem esteve envolvido, mas ainda assim discordo frontalmente e com alguma brutalidade - foi produzida por 162 especialistas bem capacitados por suas longas ‘listas’ de contribuição para análise e crítica cultural: Ricardo Alexandre, Nelson Motta, Jotabê Medeiros, só pra citar algumas feras.

Na escolha, também estiveram presentes o produtor musical Kassim e músicos como Leoni e André Abujamra.

Confiaria muito mais nas listas individuais desses indivíduos do que nessa lista coletiva!

Listas de mehores discos sem um disco dos Mutantes entre os 10 primeiros é falsa por falta de lógica criativa e emocional. Fonte: Estadão

Ressalto, no entanto, que a lista de livros (parece que) seria, digamos, mais confiável, tendo em vista sua escolha sem a tentativa de medir um grau de importância ou influência da obra, em outras palavras, que essa ou aquela obra é a mais importante de todos os tempos.

Inclusive isso dá uma sensação de falso equilíbrio que faz bem, porque pra começo (ou fim) de conversa, quem diz que possui livro preferido ou nunca passa do terceiro capítulo ou lê pouco mesmo! (Nesse caso, o leve discurso falso faz um papel importante e sem ameaça)

Mas você deve estar se perguntando o que essas duas listas têm em comum. Eu digo: Nas duas, a música falha!

A abrangência de um título: A qualidade da música brasileira dá tristeza? Foto: Acervo  

A lista dos discos já nasce audaciosamente petulante e elitizada no seu pior sentido sociológico-divertido-dançante-criativo-popular e do outro lado, ainda que a lista de livros tenha um gabarito histórico, sociológico e cultural que deixa quase nada para críticas, no que se refere a música, também erra bastante.

Fui dar uma volta na estante e digo sem arroubos de cretinice, iconoclastia ou arrogância que uma lista de livros sobre música sem a presença de “Eu Não Sou Cachorro, Não” de Paulo César de Araújo não deveria ser digna. (Repito, me refiro ao recorte musical da lista)

A pesquisa (irretocável) feita para produzir o livro de Paulo César quebra tantos mitos de “verdades absolutas” da MPB confrontada pela esnobada ‘música cafona’ que a leitura é tão divertida quanto esclarecedora.

Fora da lista de 200 livros primordias no Brasil: Ofuscado pela briga judicial entre o autor Paulo César e Roberto Carlos. Foto: Acervo

E quando hoje me deparei com o artigo do crítico Gustavo Alonso na mesma ‘Folha’, reforçando minha intolerância, decidi escrever essa peça. Seu texto cita a lista literária.

Então pra que não me ponham numa 'lista' de plagiadores, decidi usar a massa cinzenta destacada por Poirot e fiz a comparação e a provocação que aqui vos deixo.

A intenção não é, de nenhuma maneira, desqualificar as listas as quais me referi.

Mas de uma coisa tenho certeza. A única lista à prova de falhas é a lista de “listas cheia de falhas”.

E isso é o que realmente lista no final da conta... ou conta no final da lista. (HD)

Ministério da Liberdade de Imprensa adverte: o autoritarismo sempre tem uma conspiração para chamar de sua

Novo livro do renomado historiador Sir Richard Evans: Todo líder autoritário tem uma conspiração para chamar de sua. Imagem: Divulgação 

Alguns autores são obrigatórios quando se fala, discute ou estuda a história da Alemanha entre os períodos que compreendem as décadas de 1920 até 1940 (nascimento, ascensão e derrocada do nazismo).

Joaquim Fest, Ian Kershaw, Norbert Elias, Primo Levi, Hannah Arendt e Wilhelm Reich são importantes nessa compreensão. Mas hoje compartilho o novo livro de outro autor que também é primordial no estudo do assunto: Sir Richard J. Evans.

Hannah Arendt: Para entender o perigo do nazismo, um tratato sobre a banalidade do mal: Imagem: Divulgação

Desse autor, acaba de ser lançado no Brasil o livro “Conspirações Sobre Hitler – O terceiro reich e a imaginação paranoica” pelo selo Crítica.

Professor Evans: Autor de livros fundamentais sobre a história da Europa dos séculos 19 e 20. Imagem: Divulgação

Sir Evans é especialista nos estudos sobre a Europa com foco na Alemanha dos séculos XIV e XX. É dele a trilogia de livros considerada mais importante sobre o assunto: ‘A Chegada do Terceiro Reich’, ‘O Terceiro Reich no Poder’ e ‘O Terceiro Reich em Guerra’. Incontornáveis.

Em “Conspirações”, o renomado historiador analisa algumas das mais difundidas teorias da conspiração sobre Adolf Hitler e seus acólitos. Entre as teorias, destaco a farsa do famigerado texto “Os Protocolos dos sábios de Sião” (que descobrimos através da pesquisa do autor que obteve bons comentários de Winston Churchill) e a “fuga” de Hitler em 1945 para América do Sul.

Alemanha nazista: Trilogia de Evans para entender a ascenção e derrocada de Hitler. Imagem: Divulgação

Relativamente curto, o livro é de uma qualidade sintética dominada por poucos. A agilidade de informações junta-se a uma técnica de escrita que possibilita um trabalho mais conciso.

Nessa semana que comemoramos o dia mundial da Liberdade de Imprensa, a introdução (6 páginas) do livro é uma aula magna de jornalismo (ainda que o autor tenha formação em história).

O professor de história que dá uma aula de jornalismo. Imagem: ABERT

No livro, o autor ainda estabelece importantes diferenças entre Hitler e Stalin e fala das origens das teorias conspiratórias trazendo suas diferenças e características, afinal, quando se fala em teorias da conspiração, inevitavelmente temos que passar por notícias falsas, ‘fatos alternativos’ e destruição de reputações.

Por fim, impressionante como ao fim da leitura, descobrimos que o domínio do conhecimento histórico pode colaborar com análises políticas e sociais e só não entende esse detalhe quem gosta de viver no fantástico mundo de Bob. (Não o Dylan ou o Kennedy)

“Um livro de história para a era da ‘pós-verdade’ [...] Uma leitura para a atualidade” (HD)

A máxima tese da utopia suprema: Não existem utopias

Sir Tomás More: O cientista da experiência impossível: a utopia. Imagem: International Network

Utopia: sociedade ideal e sem contradições; lugar que não existe. Grosso modo, postas definições.

Lembrou do velho Tomás More?

Ainda que existam pessoas com as melhores intenções, desejosas de liberdade e igualdade de condições, e na plataforma do lado de lá, outros cientes de que podemos nos tornar tudo que imaginamos merecer (a utopia liberal da meritocracia) e que a melhor sociedade é a incansavelmente produtiva, cada um se engana como quer ou no balanço do suingue de sua própria ilusão.

Cinema: O melhor dos mundos? Era um paraíso, mas aos 30 anos todos tinham que ser executados. Cartaz: Divulgação

Lutando pelo bem ou contra o mal, não há preto e branco nesse assunto, pois as zonas cinzentas ocupam a maioria dos espaços. E como diria Gal é preciso estar atento e forte, pois nem tudo é divino maravilhoso.

Hoje então, embarcamos numa reflexão em busca de reconhecer uma utopia que podemos chamar de nossa.

A utopia preferida por aqui sempre foram os momentos autoritários em busca de um “esforço para melhorar esse país” como foi dito pelo presidente Geisel.

Entender os fatos conhecendo a história não significa necessariamente estar desse ou daquele lado. É assumir uma responsabilidade e um compromisso de avaliar e analisar com as ferramentas indispensáveis. Sigo...

Como no mês de abril temos algumas datas alusivas ao golpe de 64 - agora adicionada uma data nesse mês, o dia de infâmia que zomba do suplício da tortura – vamos tomar esse período como exemplo.

Utopia brasileira: Frases e slogans que traduzem a busca pelo paraíso. #sqn. Cartaz: Propaganda

A essência de uma utopia reside exatamente na busca pelo melhor dos mundos. O lugar onde se busca a completa eliminação das contradições.

Dito isso, dou um salto para destacar que a forma como o país atravessou de volta para o campo democrático nos anos 80, houve mais uma vez na nossa história a conciliação e se adiou o sério enfrentamento.

Umas das razões para isso foi que o governo Sarney teve como ministro do exército o general Leônidas Gonçalves, militar que garantiu sua posse diante da opção de Ulysses Guimarães defendida por outros colegas de farda.

Como enfrentar a mão que balança o berço, aquela que controla o mundo?

Lucas Figueiredo: Autor é especiliasta em investigações sobre a ditadura militar de 64. Foto: Acervo

Falando em mão, pra onde quer que eu estenda o braço na minha intrometida biblioteca, não há o que possa indicar que uma utopia, para qualquer lado que seja, leve realmente ao paraíso.

Em busca da ordem e perfeição política no Brasil de 64 tivemos (segue uma lista resumida):

- Frequente e grave instabilidade política;
- Sucessivos fechamentos do congresso;
- Cassação de mandatos sem o devido julgamento;
- Supressão de direito (supostamente garantidos);
- Banimento de partidos;
- Pessoas sendo presas e espancadas por venderem livros;
- Manipulações eleitorais para beneficiar o poder, entre tantas outras. Que paraíso, hã?

Esqueci de dizer que existiam frases como “cacete não é santo, mas faz milagres” pelos corredores do SNI.

Denúncia: O jornalista e deputado Moreira Alves investigou as torturas e provocou o poder. Resultado? AI-5. Foto: Acervo

Mas lembro que somos esse país de contradições, tudo aquilo que põe abaixo qualquer possibilidade utópica.

E ainda que houvesse uma imprensa apoiando o golpe (mas se perceber, não queria ditadura) entre tantas outras representações da sociedade civil, observo que tudo sempre indicou que o Brasil tem talento para democracia.

Senta que lá vem a história... Se você conhecer o fenômeno das eleições para o Senado em 1974 e a vitória consagradora do MDB frente a ARENA, o partido da situação e sustentação dos militares, nos detalhes irá perceber essa aspiração soberana.

O partido governista tentou desidratar essa arrancada democrática com a Lei Falcão e o Pacote de Abril. Episódios que merecem mais conhecimento dos brasileiros.

(Moçada... Todos os governadores do país em 1974 eram da Arena. Quer uma utopia melhor?)

Utopias e seus disfarçes: Indispensável. Importantes análises sobre a América Latina em forma de artigos. Foto: Acervo 

Estar em estado utópico, pra mim, equivale ao que chamamos nos filmes de sci-fi como estar em estado de “animação suspensa” ou hibernação humana: o corpo está vivo, mas sem qualquer controle sobre estar vivo.

Ora, veja só essa declaração retirada de uma publicação que se apresenta como porta voz da versão militar dos fatos do período pós-64: “Inexiste o país onde o comunismo tenha chegado ao poder pelo voto”.

A informação procede, mas declara isso o autor que mora no país onde por sucessivas vezes, se proibiu a eleição direta para cargos da Legislatura. Como diria Dona Bárbara, o "sujo falando do mal lavado".

Permita o contraditório: Para evitar utopias, conheça o que dizem e descubra o que fazem. Foto: Acervo

Cito também a ‘suprema antítese’ usada recentemente por uma autoridade ao proferir a expressão “golpe democrático” para falar de 1964.

Acho bonito, sério mesmo, essas contradições espalhadas por todos os lados que fazem palavras com significados radicalmente opostos habitarem a mesma fala.

Utopia capitalista: Quebra da Bolsa em 29. Prosperidade na propaganda e desespero na fila do pão. Foto: Margaret Bourke-White

Antes da expressão dos mais exaltados, digo que sim, eu também sei que as utopias de países socialistas, nessa altura da história, já tinham se provadas violentas, corruptas e homicidas. (Veja outros artigos da coluna)

Busque nos vastos movimentos históricos, busque na literatura, busque no cinema, busque no seu quarteirão e até se puder, sugiro que busque em outro planeta onde uma utopia funcionou ou funcione.

Utopias não combinam com o Homo Sapiens. E bem... O que eu penso sobre utopias?

Que elas não existem, pois são só a porta de entrada para as distopias, o pequeno e particular inferno.

Portanto, o inferno são os outros, utópicos. (HD)

Lançamentos: adolescentes excluídos e heavy metal, escândalos, assassinato e disque-sexo

Fica a seu critério pra desfrutar no fim de semana ou se programar para o feriado que se aproxima. E a boa notícia é que opções cheias de graça e as inevitáveis desgraças humanas estão cravadas na Netflix. Segue uma pequena lista de novas e surpreendentes produções.

Metal Lords

Apesar de muita graça e criatividade, o filme trata de adolescentes excluídos. Eles encontram na música uma boa maneira de ter propósito e combater o preconceito. A história é baseada em experiências da vida real. Tudo acontece em torno de uma batalha de bandas que acontece no colégio e tudo vira um palco de emoções, confusões, rebeldia e doses de música (o heavy metal), amizade e companheirismo. O filme trata de um assunto delicado usando o talento magistral do elenco e com muitas doses de humor. Classificação indicativa: 12 anos

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DIrty Lines

A Netflix tem investido muito em séries que vem da Europa. E isso é muito bom, porque os temas e as abordagens são sempre distantes do convencional. A história se passa na Holanda em ‘Dirty Lines’ e mostra o surgimento das linhas telefônicas eróticas – o famoso disque-sexo. O elenco também é surpreendente, as situações e piadas possuem um tom mais natural, pois trata-se da liberal Amsterdã, porém a sutileza é engraçadíssima exatamente pela virtude dos bons atores e atrizes. Classificação indicativa: 16 anos

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Senzo – O Assassinato de um Craque

A série investiga o caso do jogador de futebol Senzo Meyiwa na África do Sul. O goleiro foi um herói nacional e sua morte chocou o país. Eu poderia falar de outros aspectos que tornam essa produção um impostante marco identitário, mas hoje não. Dou só a dica. Muito bem produzido e cheio de surpresas no decorrer da investigação e com as clássicas perguntas “quem o matou e por quê?” construindo as bases dessa série documental. Classificação indicativa: 14 anos

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Segredos e Crimes de Jimmy Savile

Essa produção acompanha a história de uma das maiores celebridades britânica, Jimmy Savile. Ele usou de sua forte influência como DJ e apresentador de rádio e TV britânico para sair impune de sérias acusações. Ele também era conhecido e admirado por arrecadar fundos para hospitais e seu sucesso foi fruto de intensa propaganda executada pelos mais importantes meios de comunicação do país. Uma fachada que só beneficiou seus delitos. Uma história de crimes e enganos que chocou o mundo. Um dos maiores escândalos do Reino Unido. Classificação indicativa: 16 anos

A qualidade e a tradição dos seriados: Velhas histórias e novos formatos

Ação, espionagem e política na tradição britânica: A estreia da AppleTV+ acerta em mais um seriado. Imagem: Divulgação

Vi pela primeira vez uma coisa e revi pela décima quarta vez outra.

O que vi: Slow Horses. O que revi: Kolchak – Os Demônios da Noite. Em comum, seriados que refletem suas épocas e muito bem produzidos.

Não precisa ser especialista no assunto para saber que esse formato audiovisual faz sucesso na TV há muito tempo. Basta ter memória.

Rapidamente me lembrei aqui de Jeannie é um gênio, Terra de Gigantes, Shazam, Xerife & CIA, Planeta dos Macacos, O Homem de Seis Milhões de Dólares e A Poderosa Isis.

Almanaque: A evolução dos seriados e uma viagem de informação, memória e nostalgia. Imagem: Acervo

E o movimento foi contínuo. Lembre-se que os anos 80 ofereceram momentos inesquecíveis na TV aberta. Magnum, Profissão: Perigo, Armação Ilimitada e Alf – O Eteimoso, pra falar de alguns.

Decerto houve uma retomada do interesse e da audiência desse formato no começo da década de 90 com o crescimento dos canais pagos, mas fica claro que se engana quem pensa que essa febre é recente.

Nos últimos tempos, essas produções ardorosamente se acasalaram com as novas formas de se ver TV. Primeiro – lá atrás - com os canais fechados e agora com o novo amante, o streaming.

Retomada: O começo dos anos 90 foi marcado pelas aventuras sinistras de Mulder e Scully. Imagem:Divulgação

E exatamente aí é onde temos a chance de ver momentos clássicos do gênero.

Kolchak – Os Demônios da Noite é uma espécie de filho de David Vincent em Os Invasores e avô de Fox Mulder em Arquivo X.

O personagem é um jornalista que se depara com casos estranhos no cotidiano do seu trabalho. São episódios que sempre vão em direção ao sobrenatural e a ficção científica.

Os Invasores e David Vincent: As noites da tv brasileira eram ameaçadas com uma invasão alienígena. Imagem: Divulgação

Compreendo que com a qualidade tecnológica das produções mais recentes, a experiência de assitir uma antiga série, claramente dá a sensação de ver algo ultrapassado, mas para além do saudosismo, a experiência de rever Kolchak demonstra toda a ousadia do seriado.

Uma verdadeira marca da década de 1970. Das roupas, do comportamento até a trilha sonora. A abertura e o encerramento dos episódios são característicos de obras que marcaram época e se tornaram populares.

Kolchak: Investigações sobrenaturais e inspiração para Arquivo X. Em DVD no Brasil. Imagem: Divulgação

Já na recente Slow Horses, a nova série da AppleTV+, temos Gary Oldman liderando uma equipe indesejada do MI5 – serviço de inteligência britânico – destinados a trabalhos irrelevantes num departamento de despejo, consequência de algum erro cometido em suas carreiras.

A série se baseia nos livros de thriller e espionagem do escritor Mick Herron, ainda desconhecido e não publicado no Brasil (fiz uma busca e não encontrei nada em português).

Mick Herron: Ainda desconhecido no Brasil, o mercado editorial deve publicar em breve. Foto: Divulgação

Com ótima ação, reviravoltas e o bom humor e o cinismo característico do gênero de espionagem britânico, além dos bons protagonistas, os dois primeiros episódios já lançados demonstram a qualidade do seriado.

Gary Oldman: Em Slow Horses, um agente ressentido, mal humorado e passado misterioso. Foto: Divulgação  

Para espectadores de forma geral, se existe uma diferença entre as primeiras eras dos seriados e a atual é que hoje não há tempo de espera por um novo título. Quem gosta, chega a acompanhar 6 ou 7 seriados ao mesmo tempo.

Um exemplo que quebra uma regra. A quantidade pode significar qualidade. (HD)

A "Ilha dos Mortos": Para ler os russos, o movimento deve ser constante

"A Ilha dos Mortos": Mais uma trágica história sobre a URSS. Cartaz: Divulgação

Conhecer ou estudar a história da URSS não é uma tarefa fácil, muito menos curta. Nesse momento que acontece um perigoso conflito que envolve Rússia e Ucrânia, muitas pessoas em alguma medida se tornaram especialista em geopolítica.

Claro que entre se achar especialista e ter autoridade sobre o assunto tem uma distância longa. Se anunciar como tal não transforma ninguém em expert.

Oleg V. Khlevniuk, o pesquisador principal no Arquivo do Estado da Federação Russa e autor da biografia ‘Stalin – Nova Biografia de um Ditador’, informa que até eruditos devotados aos estudos do stalinismo admitem abertamente não terem lido a metade do que existe sobre o assunto.

E “olha quem está falando” – parafraseando um título de filme: Alguém que estuda o assunto há mais de 20 anos.

A ilha dos canibais: Livro que deu origem ao documentário. Imagem: Amazon

Outro importante escritor – Alain Besançon em seu “Breve Tratado de Sovietologia” - fala que “o conhecimento da URSS tem necessidade, pare se manter, de uma aplicação constante”.

Aí vem o doidim que nunca nem viu “O Sol da Meia-noite”, desconhece o ‘Aranha Negra”, não sabe onde fica o Cáucaso, acha que tundra é nome de personagem em desenho animado antropomórfico e nunca jogou xadrez com Anatoly Karpov, no máximo assistiu “Rocky IV” e o Drago pegando porrada e quer dissertar sobre a cortina de ferro. Paciência, né?

Chega de carapuças e vamos ao ponto de hoje. (26/03, 11h da manhã. ACABEI DE VER O FALCÃO - humorista - DEITADO NUMA REDE E DISSERTANDO SOBRE A UCRÂNIA! Cara... Tá de brincadeira????) 

Guerra Fria: O cara assistiu o russo pegando porrrada e se acha especialista em URSS. Imagem: Divulgação

“A Ilha dos Canibais” é mais uma daquelas histórias que podem colaborar com análises mais esclarecidas sobre a geopolítica na região. Esse assunto emergiu no final dos anos 1980.

6000 pessoas foram deportadas para uma ilha chamada Nazino. Foram torturadas pela fome e praticaram canibalismo. Passaram a conviver (nem sei se esse termo é adequando tendo em vista sua etimologia) num mesmo ambiente, ladrões, traficantes, assassinos e pessoas inocentes.

Imaginem vocês. Várias vezes saio pela cidade sem documentos de identificação. Sou parado, e no máximo, alguém me traz o documento ou manda um print (não esqueça que temos CNH digital agora) e tranquilamente volto pra casa.

Essa situação descrita – andar sem documentos - em Moscou ou Leningrado em 1933 foi motivo para deportações em direção a algum lugar remoto e com poucas chances de voltar. A ilha de Nazino foi um desses lugares.

Memorial: A ilha abriga um singelo monumento em homenagem aos que morreram no local. Fonte: International Network

Você pode se perguntar onde há laços que liguem a Ucrânia ao caso em tela. Explico:

(E se você pudesse realmente falar sobre o atual conflito com autoridade não precisaria dessa explicação)

A deportação dessas pessoas teve ligação com o processo de coletivização das terras na URSS.

Com a implantação dessa política stalinista, os camponeses tornaram-se famintos e tentaram fugir da fome indo pra cidades grandes.

Gareth Jones: "Não há pão". O jornalista que entrou escondido no país e denunciou a fome na Ucrânia. Imagem: International Network

Temendo desordenamento político e social nessas cidades, a ordem do comando era enviar esse “excesso” de pessoas, muitas delas sem qualquer julgamento prévio, para prisões isoladas.

Sobre a fome, a Ucrânia, o país que mais demonstrou resistência a essa “requisição compulsória”, sofreu o que conhecemos hoje por Holodomor: morte por inanição.

Geopolítica: Para começar a entender os conflitos históricos da região: Imagem: Acervo pessoal

Produzido sem sensacionalismos e com rigor jornalístico, compartilho essa peça que pode auxiliar na longa trajetória que é entender a relação histórica entre Rússia e Ucrânia.

Estude, aluno... E alerto que isso será só o começo. (HD)

(Assista abaixo o documentário completo)

Segue a campanha: Os Radiofônicos lançam novo vídeo clipe musical

Vaquinha virtual: Doe R$ 20,00 e ajude um cabeludo torcar a sua guitarra. Foto: Leonardo Fonseca

Na última sexta (18/03) foi lançado o novo vídeo clipe dos Radiofônicos como parte de seus novos projetos.

A banda tem adiante mais um vídeo de outra música nova, a gravação em vídeo desse novo disco ao vivo e a finalização das músicas em estúdio.

A campanha da ‘vaquinha virtual’ segue com boa adesão, mas os garotos ainda precisam de uma mão. Contribua com R$ 20,00 para chave pix 86 99973 6494 (Henrique Douglas) porque você pode não gostar dos rapazes, mas seus filhos e filhas gostam!

Confira a música “Maldito Pendrive”, o iê iê iê alternativo mais romântico das paradas de sucesso. (HD)

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