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Homo Ferox: autor investiga as origens da violência do homem

O jornalista Reinaldo José lança novo livro e investiga as origens da violência humana. Foto: International Network

Reinaldo José Lopes é repórter, colunista e blogueiro da Folha de São Paulo. É Mestre e Doutor na área de literatura inglesa e recentemente pela editora Happer Collins Brasil fez novas traduções de obras da mundialmente aclamada saga de fantasia criada por J. R. R. Tolkien, O Senhor dos Anéis.

Além disso, já publicou livros dedicados à história e ciência.

Outras publicações de Reinaldo José: mitologia, evolução, Brasil e religião. Li e indico todos. Montagem: Henrique Douglas

Ele concedeu uma entrevista exclusiva pro ‘1000 Coisas Pra Fazer’ para falar sobre seu novo livro que se chama “Homo Ferox”.

Nessa nova pesquisa, ele investiga as razões e possibilidades que tornam os homens seres ferozes e cruéis. Em uma reunião que reúne pistas neurobiológicas, evolutivas, arqueológicas, psicológicas e culturais, Reinaldo incentiva os leitores a olhar nossos erros e defeitos.

Tudo isso com uma capacidade literária interessante que torna a leitura, além de reveladora, bastante compreensiva para leigos. (HD)

Se você tem mil coisas pra fazer, ler esse livro deve ser uma delas. Capa: Divulgação

Entrevista:

Henrique Douglas: A violência é um fator indissociável da existência humana?

Reinaldo José: Eu diria que sim -- em algum grau. Não é realista esperar que a gente se torne uma espécie 100% pacífica. Conflitos violentos sempre vão existir. A questão é o GRAU ou FREQUÊNCIA em que esses conflitos ocorrem. O que a gente viu é que transformações sociais, políticas, econômicas e culturais são capazes de diminuir muito essa frequência, sem nenhuma consequência negativa aparente.

HD: Existiu alguma época que o homem foi mais violento?

RJ: Sim, e a resposta é curiosa: todas as épocas anteriores à atual! Em termos da probabilidade média de que qualquer pessoa sofra uma morte violenta hoje, estamos vivendo na melhor época de todas, em termos globais. Lógico que ainda existem bolsões de violência extremamente intensa em vários lugares do mundo, inclusive no Brasil, mas o quadro geral hoje é muito favorável. Mas a razão é que as SOCIEDADES de hoje são menos violentas do que no passado, embora às vezes não haja muita diferença entre INDIVÍDUOS.

HD: Especialista afirmam que crimes podem ser analisados no tripé “biológico, social e psicológico”. No seu entendimento, qual desses aspectos é o que causa aumento da violência na sociedade?

RJ: Eu acho que depende bastante do tipo de crime. Confrontos violentos que levam a assassinatos, por exemplo, me parecem ter a primazia do biológico e do psicológico, enquanto os fatores se invertem, com o social primeiro, nos crimes contra o patrimônio e o crime organizado. É importante destacar que "social" não quer dizer simplesmente que o criminoso comete o crime porque "é pobre", uma visão simplista. A primazia dos elementos sociais está ligada à maneira geral como a sociedade está organizada, o nível de confiança entre pessoas e grupos, níveis de desigualdade e de atuação do Estado em diferentes comunidades etc.

HD: Historicamente o homem tem assumido as funções de protetor e provedor. Em alguma medida pode-se afirmar que isso estimula o comportamento violento dos homens?

RJ: De fato, acho que esse elemento está presente sim. Os membros do sexo masculino quase universalmente são os responsáveis pela defesa das comunidades contra ameaças externas. E também da defesa da unidade familiar. Isso certamente tem um impacto no desenvolvimento de uma mentalidade mais reativa diante de ofensas, na capacidade de criação de coalizões com outros homens pra enfrentar ameaças externas. A questão é que quando essas propensões saem do controle num ambiente muito menos ameaçador como o dos dias de hoje.

HD: Pelas direções que conduzem a geopolítica mundial, o quanto podemos assegurar a afirmativa atribuída a Einstein sobre os “paus e pedras” que seriam as armas de uma IV Guerra Mundial?

RJ: Seria temerário eu fazer qualquer afirmação taxativa sobre geopolítica, algo que eu precisaria estudar muito mais ;-) Mas, em linhas gerais, eu diria que a) um conflagração mundial no nível da Primeira e Segunda Grande Guerra é muito improvável nas próximas décadas ou mesmo um ou dois séculos; b)Mas, se ela acontecer, a tentação de usar arsenais nucleares será muito grande, e aí chegaremos infelizmente ao cenário do Einstein, isso se ainda tivermos a sorte de sobrevivermos enquanto espécie.