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Morte e respeito - Depois da partida algumas coisas não precisam ser ditas

Homenagem de Maurício de Sousa para Marília Mendoça. Arte: Maurício de Sousa Produções

Na maior parte das culturas, a morte exige momentos solenes.

Etimologicamente, derivado do latim, ‘solemnis’ implica a qualificação de algo que exige acentuado grau de formalismo. Algo que possa definir uma cerimônia repleta de formalidades e algum grau de tradicionalismo.

Respeito acima de tudo.

Através da imprensa, todos fomos testemunhas do trágico acidente aéreo que vitimou uma artista da música sertaneja e todos outros ocupantes do voo: Marília Mendonça (cantora), Henrique Ribeiro (produtor), Abicieli Silveira (tio e assessor), Geraldo Júnior (piloto) e Tarcísio Viana (copiloto).

Foi e é bastante natural, que em tempos de redes sociais, amigos, pessoas próximas, fãs e até pessoas sem maiores vínculos, se expressem diante de arrebatada partida.

A cantora em momento de descontração durante suas gravações. Foto: Luiz Maximiano/VEJA

Temos a imensa dor dos familiares que precisam de muita solidariedade – a morte impõe isso aos que ficam – a incredulidade diante da impotência sobre os fatos e a revolta em saber que todos ali, ainda jovens, tinham muito a viver.

Não conheço a grande maioria das canções de Marília porque não me identifico com o estilo, mas sei que uma música chamada ‘Infiel’ fez bastante sucesso e acompanhei por tabela, um projeto inteligente e ambicioso de tocar em várias cidades para lançar um DVD.

Projeto bem pensado que percorreu todas as capitais do Brasil. Capa: Divulgação 

Como estudioso e observador das mídias em diferentes formatos – e um muito tanto da natureza humana também - pude perceber como temos artistas oportunistas, insensíveis e no mínimo desajeitados diante desse momento que comove bastante as pessoas.

Os desajeitados podem ser aqueles que usam as redes para estampar os imprecisos “sem palavras” ou “foi uma artista sem igual”. Daniela Mercury em seu twitter deu uma lição de respeito e consideração com seu breve texto sobre a tragédia. Síntese e consciência.

Mas outra artista do meio elevou a condição de oportunismo. Não sei se por ingenuidade ou até mesmo falta de traquejo com momentos de tragédia, Simaria foi convocada para homenagear Marília e o que vimos foi uma mostra de egocentrismo.

A situação constrangedora e vexatória foi no programa ‘É de Casa’. A apresentadora também conduziu mal e no mínimo colaborou com o constrangimento na sua atuação ruim.

Participação lamentável e inorportuna. Ego comparado aos óculos. Imagem: International Network

Ela (Simaria) falou de si mesmo bem mais do que seria necessário, seu figurino estava em desacordo com o mínimo de respeito que deveríamos mostrar aos principais envolvidos.

Claro que isso não são regras e acho ser tão somente bom senso. E posso estar sendo impreciso com essas linhas, mas sei que não estou sendo impreciso com a lástima que senti diante do momento.

Em certo momento a frase “mais tarde eu vou até subir um vídeo no meu Instagram mostrando o quanto ela era incrível e tudo isso” dita pela moça, demonstra uma insensibilidade que talvez muitos não percebam.

O "Show do Eu" diante da tragédia: Influencer publicou foto sensual ao lado do caixão do pai. Foto: International Network

Quero dizer que o oportunismo também teve como protagonista a própria imprensa com matérias que foram desde uma suposta mágoa que sua cidade natal poderia guardar da garota artista, coincidências fatais com toques sobrenaturais, promoção de local de peregrinação até discussões sobre o porte físico da cantora, promovido por jornalistas que ficam escrevendo artigos como se fossem troca de ofensas entre si. Cenário lamentável.

Acontecimentos assim sempre causam muito impacto porque um artista popular é como se fosse um amigo, um vizinho, um confidente, um parente ou até mesmo um guia.

E exatamente por essa razão, pessoas que representam tudo isso merecem o mínimo do nosso respeito. (HD)