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'7 Prisioneiros' - O Brasil e sua herança escravagista

Duas grandes performances: Rodrigo Santoro e Christian Malheiros. Opressor e oprimido. Cartaz: Divulgação

Estreou na Netflix o novo filme de Alexandre Moratto – ‘7 prisioneiros’ – e é uma boa opção para quem gosta, 1) de drama 2) histórias de ficção que se confundem com a nossa (forte) realidade ou 3) filme com todas as qualidades técnicas (atuação, fotografia, direção, etc) que representam nosso melhor cinema.

História forte sobre relações de trabalho análogas à escravidão em pleno século 21. E isso não é papo furado.

Fiquei bastante impressionado (com o detalhamento do processo) e precisei fazer uma pesquisa para checar se aquela realidade no filme correspondia com a realidade de alguns grandes centros econômicos do país. Ajudou bastante ter ao lado alguém que faz estudos decoloniais e que me explicou como funciona essa nova chaga social.

Jovens enganados e retirados de seus lares. Por um lado em busca de melhores dias, por outro a exploraçao irracional. Foto: Divulgação 

No filme, um grupo de jovens trabalhadores do interior em busca de melhores condições na cidade grande, caem em uma armadilha humana praticada por um grupo liderado por um dono de ferro velho. Passam a ter suas liberdades tomadas, identidades suprimidas e condições mínimas de conforto e higiene retiradas.

O mal e os maus-tratos penetram no cotidiano e terminam se normalizando dali a instantes. Os oprimidos passam a socializar com os opressores numa boa. Que tragédia, hã? Não parece ter jeito... Realmente é assim.

Pior vai ficando quando nesse processo, o oprimido passar a sentir vontade de oprimir diante da maquinação da sedução e do desejo. Sedução do poder e desejo de ser.

Um dilema diante da escolha moral e ética. "Me torno amigo do meu inimigo?". Foto: Aline arruda (Divulgação) 

E tudo isso vai sendo muito bem colocado na história, camada por camada, na situação agravada dos jovens abduzidos.

Ainda que escoando toda essas (importantes) questões socioantropológicas, com toda dissociação que o público possa fazer da realidade, a obra é bom cinema que atinge a plateia pela selvageria da história em si.

Sem apelos emocionais simplificados, sem apoio de respostas fáceis e com muito vigor, essa obra deve (ou pelo menos deveria) causar muitas discussões entre especialistas, coloca as discussões da condição do negro na sociedade numa espécie de “zona cinzenta da arbitragem” pela construção dos personagens e suas escolhas ao final.

Como cinema é um uppercut de contragolpe. Como proposta de estudo é nocaute fulminante. (HD)