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O Olavo tem razão? (Parte 1)

Olavo de Carvalho: Por sua morte, as redes foram invadidas por mensagens e memes de agudo desprezo. Imagem: The Intercept 

Eu nunca tinha testemunhado uma campanha de desprezo tão forte nas redes. O caso em tela: Olavo de Carvalho. E no momento da sua morte, o fenômeno nota-se espantoso.

Prefiro não discutir as razões que levaram a isso pois tomaríamos o tempo de elevar uma ponte entre o Brasil e a Austrália (vai lá conferir no planisfério).

Mas e aí? O “Olavo tem razão”?

Entre tantas postagens, essa é uma das mais leves: Ironizaram as afirmações de Olavo sobre o Coronavirus. Imagem: O Sensacionalista

Sendo bem franco, acho que levando em conta suas ativas participações nas redes desprezando a Covid 19 (inclusive duvidando da sua existência) e certamente ‘influenciando’ comportamentos nocivos à saúde pública diante desse morticínio, não dá pra ter razão.

Falando brevemente sobre sua biografia, depois de uma atuação na esquerda brasileira, fortes fletes com o islamismo sedimentando sua estrada entre o obscuro e o folclórico, os anos 90 marcaram o início dos seus textos políticos e de propaganda contra o “marxismo cultural”.

Negação: Uma dentre tantas outras afirmações de Olavo que negavam a pandemia. Imagem: International Network

Entre suas ações recentes, aparelhou ideologicamente o governo Bolsonaro (Eduardo e Carlos Bolsonaro, indicou ministros e plantou uma espécie de preposto, seu aluno Felipe Martins), misturou impeachment com intervenção militar, incentivou a comunicação direta entre o poder e o povo (sublevação), a possibilidade de golpe militar, também brigou com líderes militares, sedimentou a teoria do “marxismo cultural” criada pela direita norte-americana e intensificou o pensamento conspiracionista, entre outros.

Peço licença pra ser mais pessoal ainda, mas duas de suas piores contribuições para o governo foram Ernesto Araújo e Abraham Weintraub, dois poços caudalosos de incompetência e ignorância. Tanto que não resistiram em seus respectivos cargos.

Despedida destrambelhada: O ministro da educação que escreveu paralisação com Z, entre outras. Reprodução: Youtube

Sobre os relatos de pessoas que conviveram e o conheciam: dos seus alunos só aceitava submissão absoluta, incentivava a destruição de reputações, se comportava como líder de seita e era uma pessoa muito cruel. (Todas as minhas fontes estão devidamente documentadas)

Hoje, se vemos influenciadores de direita postando fotos de armas nas redes como se estivessem compartilhando uma foto fofa de um gatinho ou um prato delicioso de um novo restaurante, isso certamente foi embalado pelo fetiche armamentista propagado por Carvalho.

Influenciadores da base de Olavo: O comentarista Rodrigo Constantino reza na cartilha de Olavo e sua defesa das armas. Fonte: Instagram 

Os ‘dogmas olavistas’ eram (são) encarados num grau elevado de idolatria. Eu mesmo senti a força da sedução semelhante ao de uma seita. Conto...

Bem no começo dessa radicalização retórica, certa vez estava num final da tarde em estabelecimento bastante conhecido no centro. À época, estava lendo um livro chamado “Maquiavel Pedagogo”, um dos primeiros livros que virou febre entre os protoradicais olavistas.

Minha condição de pesquisador e jornalista não se segura (ainda bem!) e quando você quer propor uma invasão tem que conhecer o território, concorda?

Percebi um cidadão olhando de outra mesa e em seguida, ele foi se aproximando de mim.

Não digo sorrateiro, mas posso afirmar que passamos a parecer dois espiões de uma polícia política qualquer a falar sobre segredos de Estado. (E ele era realmente da polícia)

Um dos primeiros livros que se transformou em "auto de fé" imposto aos seguidores por Olavo de Carvalho. Foto: Acervo

Sem sequer saber quem eu era foi logo me chamando de “inteligente” por estar lendo aquela obra. Entrei na jogada e trocamos ideias com requintes de ‘teoria da conspiração’.

Ali eu percebi que algo errado não estava certo!

Seguidores de Olavo não queriam discutir ideias. Eles estavam se radicalizando e formavam um grupo de militantes e não de livres pensadores. (HD) Fim da parte1. Continua...