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O Olavo tem razão? (Parte 2)

Gramsci: A esquerda perdeu a guerra política e querem ganhar a guerra cultural segundo pensadores de direita. Montagem: International Network

Olavo sempre estimulou uma discussão sobre o que ele chamava de “hegemonia cultural”, ou seja, a tática de abandonar o campo político e pavimentar a estrada da cultura.

Veja bem. Por influência dele, até títulos originais de livros que tratavam sobre esse assunto no campo das ideias – e que já tinham sido publicados por aqui - foram trocados ou receberam um tratamento mais chamativo e midiático, digamos assim, para causar impacto.

Sei que é necessário reconhecer que houve um hiato literário no Brasil e muitos pensadores ficaram décadas desconhecidos por aqui, mas digamos que táticas assim não são as mais elogiáveis.

Mesmo livro, títulos diferentes: Tática do mentalista. Fale o que precisam ouvir. Imagem: International Network

Sempre tivemos a disposição uma literatura muito homogenia, buscado afinidade e harmonia, quer você concorde ou não com influenciadores que colocaram na ordem do dia o contraditório em destaque.

E essa diversidade é importante para um livre pensador!

Roberto DaMatta, antropólogo com muitos laços progressistas fala de um “paroquialismo intelectual” aqui no Brasil. E ele sim, pode ter razão.

Por muito tempo houve ausência de leituras contraditórias ou complementares por aqui.

DaMatta: Sempre discutindo o Brasil, o antropólogo observa que também devemos ler o contraditório. Foto: International Network

Mas ainda que hoje as estantes tenham ideias diversificadas, a discussão ainda se encontra fragmentada e bastante radicalizada.

E Olavo sempre se aproveitou desse paroquialismo intelectual de muitos adversários intelectuais. Nunca liam o contraditório. Em outras palavras: Ninguém leu, ninguém conhece, então tenho passe livre pra falar e nunca serei contestado.

Aliás, “refutar” foi o verbo mais usado pela direita depois da intromissão de Olavo.

Ganhar no grito só no BINGO, tá? Leia, aprenda e discuta. Essa é a forma. Imagem: International Network 

O polemista sempre protestou com (e contra) o que ele chamava de máxima leninista: “Acuse-os do que você faz”. Bradou muito e também praticou muito.

Requentava fórmulas, táticas e termos que podem ser vistos ou lidos em livros de outrora, afinal foi um leitor voraz. Isso dá vantagem técnica. Sempre fez garimpos de obras desconhecidas e obscuras.

'Inocente útil' em 1962: Por muitas vezes ao ler a obra acima, pensei estar ouvindo o discurso atual da 'nova direita'. Foto: Acervo

“Inocente útil” já era provocação usada contra a esquerda na década de 1960 por alguns escritores estrangeiros.

Ele modificou a expressão e utilizava nos seus ataques aos adversários o termo “idiota útil”, que de alguma forma se transformou no “imbecil coletivo”.

Os ataques e comemorações pela morte de Olavo encontraram lastro nas redes sociais. Como disse, não me atrevo a fazer análises das razões, mas indiscutivelmente a campanha foi aguda.

"Delirante e deprimente": Ao final, até pensadores conservadores repeliram os pensamentos de Olavo. Reprodução: Instagram

Escrevo sobre isso, porque para além de todos os acontecimentos, também estamos falando de livros e do conhecimento.

E precisamos elevar nosso interesse e fervor de leitura e junto com isso a efervescência das discussões.

Nas fendas dessa discussão, o que proponho é um esplêndido e audacioso ‘não’ para o “argumentum ad hominem” (Ainda que Popper nos ensine o infalível paradoxo da tolerância).

O contraditório: O emblemático título do sucesso literário de Olavo teve sua desapropriação decretada. Foto: Acervo

Se Olavo foi um pensador relevante fica a critério de cada um. Foi estudioso aventureiro, retórica fervorosa, mas de questionáveis virtudes humanas, além de bastante rancoroso, pro bem ou pro mal, deixou algumas marcas.

E uma delas, uma das mais proeminentes, a marca da maldade.

E se Olavo tem razão realmente não posso dizer, mas ele “encontrou-se com o único mal irremediável” e foi coberto pela razão. (HD)