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Top 5 dos artistas: O maior sucesso de todos os erros da TV

Televisão: "A máquina de fazer doido", provoca Sérgio Porto. Imagem: International Network

Tentarei ser breve, pois apesar da importância e do interesse no assunto, pelo que conheço, depois de amanhã nada mais se falará ou se fará em relação ao estado dessas coisas.

(Quem ainda fala das taponas que um músico levou num mercado popular?)

Vamos falar de um movimento de retroalimentação entre artistas e meios de comunicação que em algum momento começou a funcionar de forma inversa.

Pois bem. Semana que passou, o músico Lucas Rollim sentiu-se ultrajado pelo atraso de uma equipe de TV (50 minutos de espera) para depois de muito trabalho, receber em troca poucos segundos de exibição na tela numa transmissão ao vivo, dele e de seus companheiros músicos.

Lucas Rollim: Desabafo nas redes sobre o tratamento dispensado aos artistas pelas TVs. Imagem: Instagram

Do seu ponto de vista ele fez um desabafo legítimo nas redes e sua indignação levanta pequenas e sérias questões sobre como se dá a relação dos artistas locais e o jornalismo local.

Ele foi duro em suas críticas ao conteúdo jornalístico das TV locais. Vendo o que ele falou, até achei precipitado, mas entendo que no calor da hora, a revolta pode como diria Rita, ‘arrombar a festa’.

Pergunto. Sou a pessoa indicada pra falar disso? Nem sei e nem quero ser. Só quero falar.

O cartum do Jaguar representando o desabafo do músico Lucas Rollim. Cartum: Jaguar

Pro começo, o que posso afirmar é que estou dos dois lados do balcão como um The Flash, não de Central City, mas do centro da cidade.

Sou músico e jornalista. (Mas que fique registrado que continuo tendo pavor do tal ‘argumento de autoridade’)

Num golpe de autodefesa já aplico essa: Como artista, de há muito já abandonei participar de transmissões ao vivo exatamente por aquilo que frustrou o músico Lucas.

Você tem despesa, gasto de tempo, esforço artístico (figurino, instrumentos, etc), entre outros, e o seu “ao vivo” demora menos que uma inesperada morte súbita.

(Fizemos até uma música com a duração de um minuto e quarenta e dois segundos pra essas ocasiões, mas nem ela dava tempo de tocar)

Sábado Show: Houve um tempo qua a televisão piauiense até premiava os artistas. 1996 e prêmio para o Capitão Guapo. Foto: Acervo

Primeiro proponho as questões: Temos jornalismo cultural? Respondido isso de forma positiva, vem a seguinte questão: Funciona bem, mal ou de que maneira?

Na minha modesta opinião, temos um movimento de jornalismo cultural, mas pra mim se coincide muito mais com o que chamavam de “House Organ” - periódico publicado somente para clientes, membros de uma confraria, colaboradores ou compadres.

Colegas falando pra colegas, portanto, bolhas que promovem unicamente um pertencimento, mas nunca um ajuntamento.

Voltando ao caso, no campo da especulação, o atraso da equipe pode ter uma justificativa compreensível. No campo da certeza, a TV deveria ter tido o profissionalismo (bastava bom senso mesmo, né?) de compensar com uma boa entrevista e uma transmissão respeitosa.

Mas a verdade é que ninguém liga muito pra isso. Só os artistas.

Taiguara Bruno: Músico e jornalista. Tem documentáro dele sobre jornalismo cultural no Youtube. Quantos comentário lá? ZERO! Foto: Facebook

Então que retroalimentação é essa?

Entra aí uma discussão que não terei espaço pra complementar aqui: valor de imagem versus valor de mercado. São esses valores que primordialmente constroem essa retroalimentação.

A TV precisa de um formato que só o artista pode dar e o artista precisa da imagem que só a publicidade pode dar.

Além de tudo, ainda temos a velha generalização que define o ‘dia de artista na TV’ somente nos fins da semana, como se nos outros dias tivéssemos urticária, dor de cabeça ou enjoos se Ostiga, o Validuaté, o Obtus ou a Nayra Lima aparecessem na telinha.

O único lugar que vejo artistas em "ajuntamento" é só no famoso painel do Tinindo e Trincando. Foto: Facebook

Mas para a salvação dos artistas, a realidade favorece e a verdade é que os artistas já não precisam mais desses desgastes com o jornalismo. A internet dessa vez salva.

Um equipamento modesto, home studio improvisado, criatividade (matéria prima do artista) e uma postagem patrocinada, gera facilmente um bom engajamento nas redes. E certamente atinge o público alvo com mais eficácia.

E isso não passa nem perto de ter desarranjos com a imprensa.

A partir daí, se não houver respeito entre imprensa e artistas não há jogo. E quem perde? Isso mesmo... A imprensa.

(Nem vou falar que um “ao vivo” pode ser quase como trabalhar de graça mesmo)

Trabalhando de graça e você nem se dá conta: O jornalista Eugênio Bucci alerta que estão ganhando com a lei do mínimo esforço. Foto: Acervo

Pra terminar veja só o que dizem dois grandes artistas (em declarações separadas por 25 anos) sobre participações em entrevistas ou em programas de televisão.

Millôr Fernandes pergunta secamente: “Por que quê que todo mundo que trabalha na televisão ganha e eu não hei de ganhar?”.

Sua tática: recebia o telefonema com o convite e cobrava um cachê. O produtor logo recuava e transmitia uma negativa. Millôr ainda dizia: “Qualquer coisa estou aqui”.

Uma Noite em 67: A TV já foi bem atenciosa com os artistas. Antigo Festival da Record. Imagem: Globo

João Ubaldo Ribeiro na cadeira do Roda Viva disse: “Nem vocês aqui (TV Cultura) nem nenhuma outra emissora paga ninguém pra vir fazer programa. O que não acontece mais na Europa porque já se compreendeu que isso é trabalho intelectual”.

Ubaldo ainda relata que o resultado disso é que passaram a existir empresas que se encarregam disso, gerenciando artistas e intelectuais.

Isso até demonstra que não são “relaxados” somente os jornalistas da acusação de Lucas Rollim.

E também afirmo que não se trata por a culpa na vítima, mas de pôr responsabilidade nos dois lados.

Síndrome de Warhol: Não há fama sem publicidade ou exibição. Imagem: O Pensador 

Ainda que possam pensar que fiz comparações equivocadas e que a estatura de artistas como Millôr e Ubaldo, medidas com nossos artistas sejam desproporcionais, saibam que para chegar até onde eles, além de capacidade e talento, nossos artistas precisam de 15 minutos de fama e não de 50 minutos de atraso. (HD)