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A "Ilha dos Mortos": Para ler os russos, o movimento deve ser constante

"A Ilha dos Mortos": Mais uma trágica história sobre a URSS. Cartaz: Divulgação

Conhecer ou estudar a história da URSS não é uma tarefa fácil, muito menos curta. Nesse momento que acontece um perigoso conflito que envolve Rússia e Ucrânia, muitas pessoas em alguma medida se tornaram especialista em geopolítica.

Claro que entre se achar especialista e ter autoridade sobre o assunto tem uma distância longa. Se anunciar como tal não transforma ninguém em expert.

Oleg V. Khlevniuk, o pesquisador principal no Arquivo do Estado da Federação Russa e autor da biografia ‘Stalin – Nova Biografia de um Ditador’, informa que até eruditos devotados aos estudos do stalinismo admitem abertamente não terem lido a metade do que existe sobre o assunto.

E “olha quem está falando” – parafraseando um título de filme: Alguém que estuda o assunto há mais de 20 anos.

A ilha dos canibais: Livro que deu origem ao documentário. Imagem: Amazon

Outro importante escritor – Alain Besançon em seu “Breve Tratado de Sovietologia” - fala que “o conhecimento da URSS tem necessidade, pare se manter, de uma aplicação constante”.

Aí vem o doidim que nunca nem viu “O Sol da Meia-noite”, desconhece o ‘Aranha Negra”, não sabe onde fica o Cáucaso, acha que tundra é nome de personagem em desenho animado antropomórfico e nunca jogou xadrez com Anatoly Karpov, no máximo assistiu “Rocky IV” e o Drago pegando porrada e quer dissertar sobre a cortina de ferro. Paciência, né?

Chega de carapuças e vamos ao ponto de hoje. (26/03, 11h da manhã. ACABEI DE VER O FALCÃO - humorista - DEITADO NUMA REDE E DISSERTANDO SOBRE A UCRÂNIA! Cara... Tá de brincadeira????) 

Guerra Fria: O cara assistiu o russo pegando porrrada e se acha especialista em URSS. Imagem: Divulgação

“A Ilha dos Canibais” é mais uma daquelas histórias que podem colaborar com análises mais esclarecidas sobre a geopolítica na região. Esse assunto emergiu no final dos anos 1980.

6000 pessoas foram deportadas para uma ilha chamada Nazino. Foram torturadas pela fome e praticaram canibalismo. Passaram a conviver (nem sei se esse termo é adequando tendo em vista sua etimologia) num mesmo ambiente, ladrões, traficantes, assassinos e pessoas inocentes.

Imaginem vocês. Várias vezes saio pela cidade sem documentos de identificação. Sou parado, e no máximo, alguém me traz o documento ou manda um print (não esqueça que temos CNH digital agora) e tranquilamente volto pra casa.

Essa situação descrita – andar sem documentos - em Moscou ou Leningrado em 1933 foi motivo para deportações em direção a algum lugar remoto e com poucas chances de voltar. A ilha de Nazino foi um desses lugares.

Memorial: A ilha abriga um singelo monumento em homenagem aos que morreram no local. Fonte: International Network

Você pode se perguntar onde há laços que liguem a Ucrânia ao caso em tela. Explico:

(E se você pudesse realmente falar sobre o atual conflito com autoridade não precisaria dessa explicação)

A deportação dessas pessoas teve ligação com o processo de coletivização das terras na URSS.

Com a implantação dessa política stalinista, os camponeses tornaram-se famintos e tentaram fugir da fome indo pra cidades grandes.

Gareth Jones: "Não há pão". O jornalista que entrou escondido no país e denunciou a fome na Ucrânia. Imagem: International Network

Temendo desordenamento político e social nessas cidades, a ordem do comando era enviar esse “excesso” de pessoas, muitas delas sem qualquer julgamento prévio, para prisões isoladas.

Sobre a fome, a Ucrânia, o país que mais demonstrou resistência a essa “requisição compulsória”, sofreu o que conhecemos hoje por Holodomor: morte por inanição.

Geopolítica: Para começar a entender os conflitos históricos da região: Imagem: Acervo pessoal

Produzido sem sensacionalismos e com rigor jornalístico, compartilho essa peça que pode auxiliar na longa trajetória que é entender a relação histórica entre Rússia e Ucrânia.

Estude, aluno... E alerto que isso será só o começo. (HD)

(Assista abaixo o documentário completo)