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A máxima tese da utopia suprema: Não existem utopias

Sir Tomás More: O cientista da experiência impossível: a utopia. Imagem: International Network

Utopia: sociedade ideal e sem contradições; lugar que não existe. Grosso modo, postas definições.

Lembrou do velho Tomás More?

Ainda que existam pessoas com as melhores intenções, desejosas de liberdade e igualdade de condições, e na plataforma do lado de lá, outros cientes de que podemos nos tornar tudo que imaginamos merecer (a utopia liberal da meritocracia) e que a melhor sociedade é a incansavelmente produtiva, cada um se engana como quer ou no balanço do suingue de sua própria ilusão.

Cinema: O melhor dos mundos? Era um paraíso, mas aos 30 anos todos tinham que ser executados. Cartaz: Divulgação

Lutando pelo bem ou contra o mal, não há preto e branco nesse assunto, pois as zonas cinzentas ocupam a maioria dos espaços. E como diria Gal é preciso estar atento e forte, pois nem tudo é divino maravilhoso.

Hoje então, embarcamos numa reflexão em busca de reconhecer uma utopia que podemos chamar de nossa.

A utopia preferida por aqui sempre foram os momentos autoritários em busca de um “esforço para melhorar esse país” como foi dito pelo presidente Geisel.

Entender os fatos conhecendo a história não significa necessariamente estar desse ou daquele lado. É assumir uma responsabilidade e um compromisso de avaliar e analisar com as ferramentas indispensáveis. Sigo...

Como no mês de abril temos algumas datas alusivas ao golpe de 64 - agora adicionada uma data nesse mês, o dia de infâmia que zomba do suplício da tortura – vamos tomar esse período como exemplo.

Utopia brasileira: Frases e slogans que traduzem a busca pelo paraíso. #sqn. Cartaz: Propaganda

A essência de uma utopia reside exatamente na busca pelo melhor dos mundos. O lugar onde se busca a completa eliminação das contradições.

Dito isso, dou um salto para destacar que a forma como o país atravessou de volta para o campo democrático nos anos 80, houve mais uma vez na nossa história a conciliação e se adiou o sério enfrentamento.

Umas das razões para isso foi que o governo Sarney teve como ministro do exército o general Leônidas Gonçalves, militar que garantiu sua posse diante da opção de Ulysses Guimarães defendida por outros colegas de farda.

Como enfrentar a mão que balança o berço, aquela que controla o mundo?

Lucas Figueiredo: Autor é especiliasta em investigações sobre a ditadura militar de 64. Foto: Acervo

Falando em mão, pra onde quer que eu estenda o braço na minha intrometida biblioteca, não há o que possa indicar que uma utopia, para qualquer lado que seja, leve realmente ao paraíso.

Em busca da ordem e perfeição política no Brasil de 64 tivemos (segue uma lista resumida):

- Frequente e grave instabilidade política;
- Sucessivos fechamentos do congresso;
- Cassação de mandatos sem o devido julgamento;
- Supressão de direito (supostamente garantidos);
- Banimento de partidos;
- Pessoas sendo presas e espancadas por venderem livros;
- Manipulações eleitorais para beneficiar o poder, entre tantas outras. Que paraíso, hã?

Esqueci de dizer que existiam frases como “cacete não é santo, mas faz milagres” pelos corredores do SNI.

Denúncia: O jornalista e deputado Moreira Alves investigou as torturas e provocou o poder. Resultado? AI-5. Foto: Acervo

Mas lembro que somos esse país de contradições, tudo aquilo que põe abaixo qualquer possibilidade utópica.

E ainda que houvesse uma imprensa apoiando o golpe (mas se perceber, não queria ditadura) entre tantas outras representações da sociedade civil, observo que tudo sempre indicou que o Brasil tem talento para democracia.

Senta que lá vem a história... Se você conhecer o fenômeno das eleições para o Senado em 1974 e a vitória consagradora do MDB frente a ARENA, o partido da situação e sustentação dos militares, nos detalhes irá perceber essa aspiração soberana.

O partido governista tentou desidratar essa arrancada democrática com a Lei Falcão e o Pacote de Abril. Episódios que merecem mais conhecimento dos brasileiros.

(Moçada... Todos os governadores do país em 1974 eram da Arena. Quer uma utopia melhor?)

Utopias e seus disfarçes: Indispensável. Importantes análises sobre a América Latina em forma de artigos. Foto: Acervo 

Estar em estado utópico, pra mim, equivale ao que chamamos nos filmes de sci-fi como estar em estado de “animação suspensa” ou hibernação humana: o corpo está vivo, mas sem qualquer controle sobre estar vivo.

Ora, veja só essa declaração retirada de uma publicação que se apresenta como porta voz da versão militar dos fatos do período pós-64: “Inexiste o país onde o comunismo tenha chegado ao poder pelo voto”.

A informação procede, mas declara isso o autor que mora no país onde por sucessivas vezes, se proibiu a eleição direta para cargos da Legislatura. Como diria Dona Bárbara, o "sujo falando do mal lavado".

Permita o contraditório: Para evitar utopias, conheça o que dizem e descubra o que fazem. Foto: Acervo

Cito também a ‘suprema antítese’ usada recentemente por uma autoridade ao proferir a expressão “golpe democrático” para falar de 1964.

Acho bonito, sério mesmo, essas contradições espalhadas por todos os lados que fazem palavras com significados radicalmente opostos habitarem a mesma fala.

Utopia capitalista: Quebra da Bolsa em 29. Prosperidade na propaganda e desespero na fila do pão. Foto: Margaret Bourke-White

Antes da expressão dos mais exaltados, digo que sim, eu também sei que as utopias de países socialistas, nessa altura da história, já tinham se provadas violentas, corruptas e homicidas. (Veja outros artigos da coluna)

Busque nos vastos movimentos históricos, busque na literatura, busque no cinema, busque no seu quarteirão e até se puder, sugiro que busque em outro planeta onde uma utopia funcionou ou funcione.

Utopias não combinam com o Homo Sapiens. E bem... O que eu penso sobre utopias?

Que elas não existem, pois são só a porta de entrada para as distopias, o pequeno e particular inferno.

Portanto, o inferno são os outros, utópicos. (HD)