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1000 listas pra fazer e nenhuma delas vale 1000 coisas

Mais uma lista imprecisa: Seria mesmo o melhor disco brasileiro de todos os tempos? CLARO QUE NÃO, NÉ?. Imagem: Divulgação

Esses dias tem sido dias de listas ou pra citar a banda paulistana Ira, poderiam ser “dias de luta” por listas, já que listas causam muita ira e muitos lutam para validá-las.

Antes de mais nada, listas são padrões que seguem regras bem distintas e de todo modo temos nossas próprias regras (e muitos têm a mesma), mas desobedecê-las é mister. Não se sinta obrigado a concordar (Comigo e com as listas). Sempre!

Claro que listas tem seus predicados positivos, por exemplo, encaminhar algo que alguém mais experiente ou escolado sugere e que você não conhecia, propõe boas discussões acerca de um tema e reaviva a memória em torno de belas obras esquecidas. (No caso das artes)

Blá-blá-blá, ti-ti-ti ou tá tá tá? Lista intermináveis e incontornáveis. Foto: Acervo

As novas listas que aqui chamo atenção são: 200 livros para conhecer o Brasil e outra que elegeu o maior disco brasileiro de todos os tempos. 

(Listas possuem essa característica egocêntrica e autoritária, hein?)

E estou aqui para afinar coro dos descontentes.

A longa lista de livros - proponho que você busque na internet - foi produzida pelo jornal ‘Folha de São Paulo’.

Listas pra quê mesmo? Alguém lembrou do aniversário do escritor LIma Barreto no último dia 13 de Maio? Foto: Acervo

Já dos discos - reconheço a competência de quem esteve envolvido, mas ainda assim discordo frontalmente e com alguma brutalidade - foi produzida por 162 especialistas bem capacitados por suas longas ‘listas’ de contribuição para análise e crítica cultural: Ricardo Alexandre, Nelson Motta, Jotabê Medeiros, só pra citar algumas feras.

Na escolha, também estiveram presentes o produtor musical Kassim e músicos como Leoni e André Abujamra.

Confiaria muito mais nas listas individuais desses indivíduos do que nessa lista coletiva!

Listas de mehores discos sem um disco dos Mutantes entre os 10 primeiros é falsa por falta de lógica criativa e emocional. Fonte: Estadão

Ressalto, no entanto, que a lista de livros (parece que) seria, digamos, mais confiável, tendo em vista sua escolha sem a tentativa de medir um grau de importância ou influência da obra, em outras palavras, que essa ou aquela obra é a mais importante de todos os tempos.

Inclusive isso dá uma sensação de falso equilíbrio que faz bem, porque pra começo (ou fim) de conversa, quem diz que possui livro preferido ou nunca passa do terceiro capítulo ou lê pouco mesmo! (Nesse caso, o leve discurso falso faz um papel importante e sem ameaça)

Mas você deve estar se perguntando o que essas duas listas têm em comum. Eu digo: Nas duas, a música falha!

A abrangência de um título: A qualidade da música brasileira dá tristeza? Foto: Acervo  

A lista dos discos já nasce audaciosamente petulante e elitizada no seu pior sentido sociológico-divertido-dançante-criativo-popular e do outro lado, ainda que a lista de livros tenha um gabarito histórico, sociológico e cultural que deixa quase nada para críticas, no que se refere a música, também erra bastante.

Fui dar uma volta na estante e digo sem arroubos de cretinice, iconoclastia ou arrogância que uma lista de livros sobre música sem a presença de “Eu Não Sou Cachorro, Não” de Paulo César de Araújo não deveria ser digna. (Repito, me refiro ao recorte musical da lista)

A pesquisa (irretocável) feita para produzir o livro de Paulo César quebra tantos mitos de “verdades absolutas” da MPB confrontada pela esnobada ‘música cafona’ que a leitura é tão divertida quanto esclarecedora.

Fora da lista de 200 livros primordias no Brasil: Ofuscado pela briga judicial entre o autor Paulo César e Roberto Carlos. Foto: Acervo

E quando hoje me deparei com o artigo do crítico Gustavo Alonso na mesma ‘Folha’, reforçando minha intolerância, decidi escrever essa peça. Seu texto cita a lista literária.

Então pra que não me ponham numa 'lista' de plagiadores, decidi usar a massa cinzenta destacada por Poirot e fiz a comparação e a provocação que aqui vos deixo.

A intenção não é, de nenhuma maneira, desqualificar as listas as quais me referi.

Mas de uma coisa tenho certeza. A única lista à prova de falhas é a lista de “listas cheia de falhas”.

E isso é o que realmente lista no final da conta... ou conta no final da lista. (HD)