Cidadeverde.com

Dia das Mães: mulheres que escolheram ser mãe de bichos

Por Graciane Sousa

Mãe não é apenas quem dá à luz, mas também quem dá amor. Foi pensando nisso, que o Bicharada resolveu homenagear as mães, digamos assim, diferentes; entretanto, igualmente muito especiais. Sabemos que o assunto divide opiniões. Alguns ainda insistem em não nos considerar mães de nossos bichinhos. Digo nós, porque a gente que assina o blog, também é mãezona: Eu, do Niicholas e do Fofuxo e a Maria Romero, do Samurai e Sirius. Já deu para perceber que toda mãe gosta de lamber a cria e é bem babona também [rs].

Assim como nós, a jornalista Lili Batista e a advogada e servidora pública Amanda Nery, também têm filhos de quatro patas. Assumidamente, mãe dos bichinhos, elas têm muita coisa em comum, inclusive os chamam de meninos e os educam como se fossem crianças. Outra característica que em nada difere de outras mamães diz respeito à questão de dar limites, o que é importante para o desenvolvimento de qualquer ser.

      Fotos: Roberta Aline/ Cidadeverde.com

       

A Lili é mãe do Romeu, um cãozinho SRD muito fofo e que foi abandonado por seus antigos tutores. Quem vê a cumplicidade entre os dois, até pensa que eles já se conhecem há muito tempo, mas o cachorrinho de olhos verdes e pelos claros foi adotado há menos de dois meses. Ao falar sobre o amor que tem pelo filhote, a jornalista demonstra brilho no olhar. A tristeza só bate quando ela relembra como encontrou o “bebê champanhe”, como ela carinhosamente o chama.

“Ele foi abandonado e chegou até mim por meio da minha florista, que sabia que eu queria ter um cão. Na verdade, sempre pensei em adotar um vira-lata, mas não resistiu à história dele. Meu primeiro contato foi por meio de foto e quando o vi já disse: traz. Eu achei o Romeo muito fofo”, conta Lili, que conseguiu enxergar a beleza do bichinho, mesmo com a aparência de maus tratos. “Ele estava ferido de tanto carrapato. O Romeu é meio ruivo, tem a pele muito fininha, mas estava parecendo um bicho mesmo. Estava muito peludo”, relembra.

Além da mau aparência, outro triste capítulo da história do cãozinho só foi descoberto com o passar dos dias. Mesmo já tendo um lar, Romeu não se aproximava das pessoas e ficava o tempo todo escondido debaixo da cama.

“Ele passou muitos dias assustado. Tremia dos pés à cabeça quando a gente se aproximava. Chegou a ficar três dias escondido debaixo da cama. Ele só saía para comer e comia desesperado e voltava para debaixo da cama de novo. Eu acho que o Romeu apanhava. Um dia, eu estava limpando a casa e ele subiu no sofá. Então, pedi para ele descer, mas quando eu tirava, ele voltava...estava levando na brincadeira. Decidi apenas mostrar a chinela para ele como forma de repreendê-lo, mas ele saiu desesperado para debaixo da cama e, mais uma vez, deduzi que o bichinho apanhava. A partir daí, parei. Nunca mais fiz isso. Eu não brigo, não grito, tento deixá-lo o mais tranquilo possível. Ele é muito silencioso, muito calmo e é uma delícia. Tem o temperamento ótimo. Ele é carinhosíssimo”, conta a jornalista.

Mas esta parte da história dele ficou no passado. “Hoje o Romeu já acha que é o dono da casa e eu também acho. Ele manda mais que eu se brincar”, conta aos risos Lili, que assim como toda a mãe também dá limites ao pequeno, que tem apenas nove meses. Para auxiliar na difícil missão de cuidar do “bebê champanhe”, ela inclusive comprou livros para entender mais sobre o comportamento animal.

“Eu o ensinei muita coisa, mas acredito que ele é muito educado de nascença. Não entra no quarto do meu filho, no banheiro social ou closet. Nunca fez xixi onde não devia”, conta a jornalista, que também admitiu que Romeu tem seus momentos de birra [o que é normal para a idade dele].

Uma das coisas que tira Romeu do sério é a sensação de imaginar que "ele não é o dono da casa”.

“Tenho dois filhos rapazes e uma moça. Quando meu filho mais novo, que tem 26 anos e mora em Fortaleza, veio passar a Semana Santa comigo, o Romeo não gostou. Meu filho chegou com intimidade, entrava no quarto dele, no closet, no banheiro e o Romeu rosnava, como se estivesse brigando. E aí, o danado começou a querer entrar também porque achava que tinha o mesmo direito, mas reclamei e ele voltou ao normal”, relembra.

Lili conta que sempre gostou de bichos e já criou dois cágados e uma hamster, que morreu durante o parto. Emotiva, a jornalista disse que sofreu muito com a perda precoce do bichinho. “Eu fiquei uma semana chorando. Lembro que tinha um chefe que dizia: você está chorando por rato. Mas foi bem sofrido para mim”, disse.

O que também a deixa emocionada é o sentimento de lealdade que Romeu nutre por ela. A jornalista contou- com os olhos cheio de lágrimas- como ficou quando soube que, quando sai para trabalhar, o cãozinho fica por horas esperando sua chegada.

“Minha irmã me disse uma coisa bem triste. Quando eu saio para trabalhar, ele fica direto na porta me esperando. Me acabei de tristeza com isso. Antes dele, eu tinha toda a liberdade para sair e chegar quando quisesse. Quando eu tinha que trabalhar os dois turnos na TV,  ficava o dia todo na emissora. Agora, eu saio e assim que eu tenho um tempinho, volto só para dar água fresca e comida para ele. Eu não fazia isso antes, pois era muito mais cômodo ficar lá direto. Agora deixo de ir para alguns lugares para não deixá-lo só. Deve ser muito ruim para ele ficar sozinho. Quando eu saio para fazer algo, faço logo tudo de uma vez para deixar ele o mínimo possível de tempo sozinho”, conta.

Sabe aquele ditado? Se conselho fosse bom, ninguém dava. Para Lili Batista, há controvérsias nisso. Ela conta que, antes da chegada do pequeno, aconselhava todo mundo a ter um animal em casa, mesmo sem ter um.

“No casamento do meu filho, eu dei um conselho para ele e sua esposa: tenham plantas, criem um animal e tenham filhos, porque é isso que transforma uma casa em um lar. Só uma casa com móveis e pessoas dentro é muita fria... São eles que aquecem”, disse Lili ao filho, que seguiu direitinho as sábias palavras da mãe. “Hoje ele tem um cachorro enorme, maluquíssimo, uma graça. Depois que o Nero chegou lá é que eu comecei a criar o meu. Eu dei um conselho que eu não seguia, porque achava que era complicado criar cachorro em apartamento, mas pela história do Romeu, arrisquei e não está sendo tão difícil”, disse.

Por outro lado, como a jornalista e Romeu moram em um apartamento, ela conta que foram necessárias algumas adaptações.

“Aqui não tem aquela coisa de casa bagunçada. Eu tenho mania de organização. Minha casa é o tempo todo arrumada... minhas irmãs até brincam e dizem que minha casa é de boneca. Quando o Romeu chegou, eu tive que fazer algumas mudanças. Tirei alguns livros que ficam próximos ao sofá, pois o Romeu os usava como batente. Eu tinha um livro da Édith Piaf e ele passava todo dia por cima da coitada. Eu tive que tirar com medo dele roer. São adaptações que a gente tem que fazer, mas não é algo que incomoda”, destaca a jornalista.

Lili conta ainda que, mesmo sendo Romeo sendo um cãozinho comportado, ele também é cheio de manhas como uma criança.

“Quando  estou perto de sair de casa, não brinco mais com o Romeu, para ele entender que eu vou trabalhar. Então, ele se isola. Um dia eu já estava toda arrumada para sair e não o encontrei. Então, fui procurá-lo e achei debaixo da cama, mas quando eu o tirei de lá, ele pensou que eu ia brincar. Mas eu estava em cima da hora e apenas fechei a porta e saí. Quando cheguei, a casa estava toda revirada. Ele quebrou uma bolinha, desmanchou o papel, fez xixi no chão. Tenho certeza que era vingança e ele fez isso consciente, porque todos os dias, a casa está impecável”, relembra a travessura do filho.

Interrogada sobre sentimento de ser mãe do Romeo...

 “Dizem que mãe é quem cria. Eu crio, sustento. É caro, mas eu nem calculo. Para mim isso não faz diferença. Se for para gastar mais e eu tiver disponibilidade, eu faço.  O bem estar dele em primeiro lugar. Se eu peguei ele,  tenho que fazer o máximo que eu puder para ele estar bem. Na primeira semana eu pensei: meu Deus o que que eu fiz? Eu tinha um vida tão tranquila. De início, pensei isso. Não pelo gasto, mas pela dependência porque ele é extremamente carente. Agora quando eu chego em casa e vejo aquela criatura louca e apaixonada, que lhe acha o centro da vida dele...isso não tem preço. É bom demais. Vale a pena. O Romeu é o dono da casa. Eu até me arrependo de não ter tido cachorro antes, mas também não iria ser o Romeu. Se eu morasse em uma casa, teria muitos cachorros”, conta orgulhosa a jornalista.

 
Overdose, Belzebu, Babilônia, Mel e Bartolomeu


Reclamar de ter muitos cães, isso a advogada Amanda Nery não pode reclamar. Ao lado do marido Marcus Vinicius, ela cria esses cinco cães, sendo dois da raça Pitbull, dois American Bully e um Dogue Alemão, esse último tem mais de 1, 75 de altura quando está sob duas patas.

A funcionária pública lembra que a família foi crescendo paralelamente ao amor entre os dois, que namoraram por sete anos e estão casados há seis meses. Os cães são tão importantes na vida deles, que participaram do pré-wedding e a Overdose levou as alianças no dia do “SIM” dos dois no altar.

“Quando a gente completou duas semanas de namoro a Overdose chegou e os outros meninos foram chegando aos poucos. No início tive um pouco de medo, mas como eu acompanho cada um deles desde pequenos, fui me apaixonando por cada. Eu amo todos. Tenho uma história de carinho imenso com cada um, mas em cada fase, a gente vai se apaixonando mais de um, pelas coisas novas que eles vão aprendendo, pelas características individuais. A Mel é muito companheira. Quando está com os irmãozinhos é bagunceira, mas quando fica dentro de casa, não sai do meu pé. Eu fico o tempo todo fazendo carinho. Ela é muito dengosa. Eu sou louca por ela. Porém, amo todos iguais. Quando o Bartolomeu está obedecendo muito a gente, ficamos com ele mais perto e assim é com todos. É como se fosse uma retribuição para receber mais carinho ainda. O problema é quando eles todos se juntam. Dentro de casa, a Mel tem um comportamento, mas quando se junta com os outros, viram crianças, brinca Amanda.

Durante a conversa, Amanda contou a travessura de um dos cães e como ela faz para discipliná-los. A advogada confessa que o marido também recorre a livros para entender mais sobre o comportamento dos bichos. 

“Outro dia, a Mel comeu o carregador de telefone do Marcos, mas eu só vi depois, então passou batido. Para se educar um animal, temos que repreendê-lo no momento em que faz algo errado, pois se eu brigar depois, o cachorro não vai saber o por quê. Não precisa se abalar. É só corrigir na hora. É como uma criança. Se o menino pula, grita ou faz bagunça, o pai ou a mãe não pode fazer carinho naquele momento. No fundo, o filho sabe que os pais os amam”, ensina.

E só em pensar nesses cães enormes todos juntos, imagina-se que alimentá-los é uma tarefa difícil. Ledo engano. Na hora da refeição, os grandalhões parecem ficar hipnotizados pela mamãe Amanda. Cada um tem seu prato e só comem depois que ela dá o comando. 

Amanda diz que ter filhos está nos planos do casal, mas que isso ainda está em fase de planejamento. A advogada adianta que quando gerar um bebê, ele será bem próximo dos cães.

“Não tivemos filhos ainda por questão de planejamento. Penso em passar em um concurso melhor, mas quando eu gerar um filho, ele vai ser bem próximo dos cães. Os bichos nos enchem de amor, mas a gente pensa em ter outros filhos. Na verdade, filhos humanos. Não tem como ser agora por questões de custos", pensa a servidora pública. 

E os custos de quem é mãe são muitos também para quem escolheu cuidar de filhos de quatro patas. Na casa da Amanda são consumidos 
80 kg de ração por mês, o que corresponde a R$ 600, tudo isso aí, só com comida. Por outro lado, tem recompensa. 

"Chegar em casa e poder receber o carinho e afeto do cachorro...isso não tem preço. Sorrir das brincadeiras que eles fazem. Meu Deus, quantas vezes eu vi a Mel correndo atrás da Babilônia, só brincando, caçando conversa mesmo...isso é muito lindo”, conta a advogada.


Sobre o sentimento de ser mãe da Overdose, Belzebu, Babilônia, Mel e Bartolomeu


"A gente acaba sendo mãe porque temos que disciplinar, dar amor, ensinar as coisas. Não é simplesmente pegar um cachorro na rua, colocar dentro de casa e deixar ele ali a vontade. A gente tem que dar amor, tem que dar carinho, mas também disciplina. Temos que fornecer meios para que eles também relaxem e se divirtam. Eles são como filhos, como pessoas. Eles precisam de limites, precisam de amor e precisam relaxar. As três coisas estão juntas. Vontade de ter mais cão não falta, mas temos consciência que no momento só temos como dar assistência 100% para eles”, disse Amanda Nery.