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Ativistas temem aumento de vendas de "Dory" após filme

O filme Procurando Dory — sequência de Procurando Nemo (2003), da Disney e da Pixar — acabou de estrear no Brasil. Mas o que deveria ser motivo de empolgação para todos tem preocupado biólogos e ativistas ambientais. Quando a primeira animação foi lançada, há 13 anos, resultou em duas reações. Uma foi o aumento das vendas de peixe-palhaço, a espécie do Nemo. O carisma e a beleza do personagem que, mesmo com uma barbatana curta, superou tantas adversidades, fez com que todo mundo quisesse um para tomar conta e para enfeitar a casa. Outra foi a libertação de alguns peixes de aquário. Comovidos com a tristeza de Nemo e de seus amigos na ficção, as pessoas começaram a jogar seus peixes no mar.

Aparentemente mais altruísta, a atitude de libertar o peixinho se mostrou problemática.

“Um animal em cativeiro pode eventualmente contrair doenças que, depois, levará para o ambiente natural, contaminando outros exemplares. Além disso, acaba-se soltando um animal em um local que não é o de sua origem — espécimes domesticados, em geral, não saberão mais se alimentar sozinhos e morrerão após a soltura”, explica a bióloga marinha Suzana Ramineli, mestra em ciência ambiental, coordenadora da Naturaulas Cursos Ambientais e presidente da Comissão Organizadora do Congresso de Conservação Marinha.

Teoricamente, a compra e a venda de peixes-palhaços não gera resultados tão ruins ao meio ambiente, porque são peixes que se reproduzem facilmente em cativeiro. Com os blue tangs (Paracanthurus hepatus), espécie da Dory, é diferente. O aumento nas compras é pernicioso por si só. Tais peixes, de coloração azul-royal, não se reproduzem em cativeiro de forma alguma. Isso significa que cada peixinho à venda foi tirado diretamente de seu hábitat, o mar, o que tem preocupado ativistas ambientais. A Care2, comunidade que colhe petições on-line, está divulgando um vídeo pedindo aos pais que não comprem Dorys para os filhos. Até o momento, a iniciativa conta com 113.918 apoiadores.

O veterinário Renato Leite Leonardo, especializado em animais silvestres exóticos e responsável pela empresa Dr. Fish, acredita que as vendas devem ser limitadas por causa do preço. 

“Acho que muitas pessoas virão olhar, curiosas, mas não comprarão. Enquanto um peixe-palhaço pequeno custa cerca de R$ 60, um blue tang do mesmo tamanho vale, em média, R$ 400”, revela. Segundo ele, não há blue tangs nos mares do Brasil. Os peixes vendidos aqui são capturados na região que vai dos Estados Unidos até o Caribe. Renato diz que, lá, as capturas e as importações são feitas de forma correta e bem controlada, o que também reduz os danos.

De acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), os blue tangs não sofrem ameaça iminente de desaparição — na classificação do órgão, o risco é “pouco preocupante”. “Dentro da IUCN, essa é uma categoria de ameaça. Significa que P. hepatus não é das espécies mais ameaçadas, mas que, sim, já demonstra algum grau de risco de extinção”, esclarece a bióloga Suzana Raminelli.

Independentemente da polêmica, o fato é que, em aquário, Dory é bem mais sensível a doenças, se comparada a outras espécies. Para viver, ela precisa de parâmetros de água (nitrito, amônia, pH e temperatura) sempre estáveis. Um exemplo de peixe mais resistente é o beta, que prefere aquários menores (portanto, de limpeza mais simples) e não precisa de companhia. São fatores óbvios a se considerar na hora de adquirir um animal de estimação. Mas há outros aspectos éticos igualmente importantes, como saber de onde eles vêm. 

 

ONG pede que fãs de ‘Dory’ protejam peixes da espécie de capturas ilegais

 

A ONG Saving Nemo, da Austrália, lançou uma campanha pela proteção dos peixes da espécie. Os ativistas preveem um aumento da captura ilegal do animal devido à estreia da continuação do filme nos cinemas.

De acordo com a ONG, mais de 90% de todas as espécies dos aquários marinhos são retiradas do meio natural - até 30 milhões de peixes são fornecidos a partir de 45 países do mundo e cerca de 65% deles são capturados na Indonésia e nas Filipinas. 

Os Estados Unidos são o maior importador de espécies ornamentais marinhas, representando 80% do mercado, seguido da Europa e do Japão.

O cirugião-patela (Royal Blue Tang, em inglês) não é criado em cativeiro no momento. Por isso, caso seja visto para venda, terá sido capturado da vida marinha, alerta a ONG. Estima-se que 400.000 unidades sejam retiradas do meio natural todos os anos para virar peixes de estimação.

De acordo com o jornal “Vancouver Sun”, as técnicas para captura desses peixes também fazem mal aos recifes. Os exemplares da “Dory” vivem em águas costeiras, perto dos recifes de coral. 

A espécie se alimenta de algas, usando dentes afiados para rasgá-las das rochas e corais. A dieta é importante não só para o cirugião-patela, mas também para os recifes, que não são afetados por uma superpopulação de algas.


Com informações Correiobrazilense e G1
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