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Febre amarela chega ao último refúgio de micos-leões-dourados

Quando uma família de micos-leões-dourados interrompe sua jornada diária pelas copas de árvores de Silva Jardim em busca de frutas silvestres, dois deles ficam para trás. Um filhote de pouco mais de cem gramas e um mês de vida, que mais parece um pompom, é deixado na segurança de galhos altos. Uma sentinela, oculta nas folhagens, fica a postos para alertar sobre a aproximação de predadores, seja jaguatirica, cobra, gavião ou gente. Mas há um inimigo que ela é incapaz de ver, farejar ou ouvir. O vírus da febre amarela chegou ao coração do santuário dos pequenos primatas.

O atual surto de febre amarela silvestre põe em risco duas das mais ameaçadas espécies de macacos do mundo, símbolos internacionais da luta contra a extinção. Primeiro, em Minas Gerais, a febre se alastrou pelo território dos muriquis-do-norte (Brachyteles hypoxanthus). Este mês, com os casos de humanos infectados confirmados em Córrego da Luz, localidade de Casimiro de Abreu, alcançou o único lugar da Terra onde ainda vive o mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia).

— A febre amarela é uma tragédia humana e ambiental. Jamais vimos algo assim. Entre macacos, não é mais um surto. É uma epidemia, com consequências não apenas para eles, mas para toda a Mata Atlântica — afirma o primatologista Sergio Lucena, da Universidade Federal do Espírito Santo.

A MAIOR MORTANDADE JÁ REGISTRADA

Um dos pioneiros na preservação dos muriquis e envolvido desde o início na investigação da epidemia em macacos, Lucena frisa que a febre amarela já provocou em Minas e no Espírito Santo a maior mortalidade já registrada na Mata Atlântica. Morreram em massa bugios (Alouatta guariba) e sauás (Callicebus personatus). Em menor escala, micos do gênero Callithrix e macacos-pregos (Supajus nigritus).

— Estamos muito preocupados. O mico-leão-dourado só existe no Rio de Janeiro e está restrito a uma pequena área do estado. Pessoas ficaram doentes perto dessa região, uma morreu. Estamos alertas noite e dia. Se os micos-leões-dourados forem sensíveis ao vírus, não terão escapatória. Não terão para onde ir. Será uma devastação — lamenta o secretário executivo da Associação Mico Leão Dourado, Luís Paulo Ferraz.

A associação está há três décadas à frente de projetos de preservação do mico. Antes da chegada da febre amarela, esperava melhorar as chances da espécie com a construção de viadutos para passagem de animais sobre a BR-101, que corta as florestas desses bichos dóceis, que passam a vida comendo frutas e insetos.

— Dois micos-leões-dourados morreram na semana passada. Ainda não sabemos a causa. Achamos que atropelamento é a mais provável, mas tememos a febre amarela. Ela roubou a nossa paz. As reservas de Poço das Antas e União, principais áreas dos micos-leões-dourados, estão fechadas à visitação. Córrego da Luz fica exatamente entre elas, numa região habitada por grupos de primatas. Torcemos para toda a população ser vacinada o mais rapidamente possível, essa é a única forma de proteger os micos — destaca Ferraz.

Ninguém sabe como o vírus chegou à região, que é relativamente distante de áreas nas quais foi confirmada a morte de macacos por febre amarela. Tanto Lucena quanto Ferraz consideram improvável que tenha sido tráfico de animais, uma das hipóteses levantadas.

— Se fosse tráfico, seria o contrário, animais daqui seriam transportados para outros lugares. O mico-leão-dourado é que seria levado, as outras espécies de macacos daqui não são alvos de tráfico. Porém, tememos a transmissão por pessoas não vacinadas. Aqui há muito turismo, muita gente vem de Minas. Pessoas provenientes de área de surto, infectadas e assintomáticas, podem ter trazido o vírus — explica Ferraz.

Lucena lembra que estudos já alertaram para a possibilidade de o vírus ser introduzido por pessoas nas fases virêmica (em que o vírus está em circulação no sangue) e de incubação em áreas onde há mosquitos transmissores.

A febre amarela mudou a rotina de pesquisadores. O trabalho de monitoramento dos saguis — que vivem em grupos familiares com quatro a dez integrantes — é marcado pela tensão.

— O mico-leão-dourado sofreu por séculos com o desmatamento e a caça. Quase desapareceu. Agora, quando a situação começava a melhorar, surge a febre amarela. Vemos as famílias nas árvores atrás de frutos e insetos. Elas formam grupos unidos, todos cuidam dos filhotes. Colorem a mata. Todos podem ser destruídos por uma doença contra a qual não têm proteção — lamenta Andreia Martins, bióloga da associação.

A ALEGRIA DE ENCONTRAR UM GRUPO

Desde 1983, Andreia acompanha os micos-leões-dourados. Na semana passada, ela e o auxiliar de pesquisa Jadir Hilario Ramos percorriam as matas. Contavam com a ajuda de um sistema de localização por rádio para encontrar os animais.

— É uma alegria achá-los agora — diz Ramos ao ver uma família com 13 micos, três deles filhotes.

Os adultos pesam meio quilo; os bebês são bolinhas de pelos dourados. Não param. Escalam e se misturam às flores alaranjadas das bananeiras selvagens, dependuram-se com os longos rabos. A pelagem brilha ao sol e fica avermelhada na sombra.

— Basta um barulho, um movimento brusco, para os micos desaparecerem. Temos que percorrer muitos quilômetros para encontrá-los. Com a febre amarela, não podemos descansar — afirma Ramos.

 

Fonte: O Globo.