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Blog da Clara

Espelho

Olho-me no espelho.
Não sei se gosto do que vejo.
De um certo ângulo, 
me estrangulo.
Do outro lado,
me engulo. 
Olho-me no espelho
e vejo olheiras nos olhos
lábios desenhados-e até- bonitos.
Tantos defeitos,
detalhes e marcas
que, feias ou belas,
tinham que estar ali.
No entanto,
por mais que eu procure
não acho
Aquele nó no peito
que sei que tenho,
aquele defeito de alma, que tem
Todo sujeito de bem
Aquela poeira de canto
que se esconde em baixo do tapete
ou do coração.
Não ouço aquela canção
que ouvi na minha infância
Não enxergo as cores 
da minha memória
Nem acho que caiba nessa pequena estatura
todo o meu incômodo
que é do tamanho do mundo.
E todas as coisas
que eu gostaria de ver e mostrar,
metodicamente, personificar
não dá!
Tudo que tenho no peito
posto ao espelho
vira banalidade.
Resposta à pergunta
"feia ou bonita"?
Vira tom de pele,
questão de vaidade
ou outras coisas femininas 
e de sociedade.
O espelho reflete.
Reflete?
O que ele mostra 
o tempo tira depois de dar.
O que há em mim
não se mostra no espelho
Mesmo com todo o meu ímpeto 
De me flagrar.
O jeito é o desespero,
entregar-se por completo à agonia.
Ou, quem sabe, 
conceber-se mistério
e fazer disso
alguma poesia.