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Blog da Clara

Disse a cigana

Quando eu era adolescente, uns 14, 15 anos, alguém cochichou para mim, que o rapaz no canto da mesa do restaurante sabia ler as mãos das pessoas. Curiosa como sempre fui, pedi que ele lesse a minha. E estiquei os pulsos em sua direção.

O diagnóstico de minha vida foi claro e preciso : Não viveria nem muito, nem pouco tempo, vida tranquila, de muito trabalho e algum reconhecimento. Nem o sucesso estrondoso, e nem o anonimato, tudo pacato. Foi preciso em dizer, que a causa de minha morte seria a própria vida. Que eu não morreria por nenhuma agonia aguda, nem por nenhuma causa. E que eu teria um, só um grande amor.

Na época, fiquei desnorteada, achei tudo um grande absurdo, que triste era minha vida então!

Eu queria viver pouco e intensamente, eu queria morrer por uma causa, que fosse uma bandeira, ou uma dor de cabeça, qualquer coisa que não fosse a má sorte de morrer apenas por estar viva.

Eu queria alguma coisa mais doída, algo que me tirasse desse mormaço, que fosse uma vida célebre, ou mesmo amargurada. Nada dessa coisa ajustada, dessa coisa tranquila.

E sem falar no amor! Eu queria ser Vinícius sempre apaixonada, de muitas paixões, eterna namorada da constante possibilidade de amar.

Um amor só. Me soou um assalto da vida, como é que ela pode me tirar as pessoas, as possibilidades, as palpitações?! Ah, não.

Achei melhor dar margem à criatividade, e acreditar na tal margem de erro que tem toda magia. No mais, além do que, eu posso modificar o meu caminho, foi o que pensei. Eu posso sim, a vida minha! E da minha mão sei eu, que eu mesma vou conduzir as minhas linhas. E ficou acertado assim.

Deixei de lado essa história, esqueci. Até que ontem, num sobressalto, a mesma situação. Uma amiga disse, em tom de confissão, que a moça do nosso lado sabia ler mão. Pensei “É a hora de tirar a prova”, saber se eu venci essa batalha, saber se aquele cara me enganava, saber se eu tinha a chance de traçar um novo rumo.

Ela hesitou no trabalho, disse que já tinha prometido a si mesma não ver o destino alheio, e não pela chance do erro, porque garantiu ela, sua cigana é das boas. Gosta de vinho tinto, e sabe ler as pessoas,  e que o crédito pelos acertos é só da cigana, e não dela.

Insisti, ela aceitou, disse que ia dar só uma olhadinha. E eu aceitei, porque minha vida não é mesmo grande coisa, e uma olhadinha já serviria para sanar a minha curiosidade.

Depois de algumas voltas, parei no mesmo caminho. Será que a gente não tem mesmo esse direito de mudar o destino? Ela era certeira, disse das coisas escondidas, essas que estão guardadas dentro da gente. Dá para ver nos olhos, se for mais atento, e no sorriso, se for o caso de alegria. E nas mãos, como viu a cigana.

Era verdade, minha vida tinha bons caminhos para a minha profissão. De ficção, alertou ela, e não sei se compreendi. Mas eu terei sempre uma jornada dupla, que as contas continuarão a chegar, e a literatura não há de dar conta delas. Tudo bem, tudo bem. Já é generosidade da vida me ceder os bons caminhos, e as outras atividades, também são minha verdade. Isso não é problema!

Também era fato, que meu fardo é morrer por viver, assim, sem nada de grave. Melhor, pensei comigo mesma. A vida se retira, e isso parece justo.

E no mais, o mais bonito de minha vida. Entre tantas pessoas, um amor. Um só amor importante, que vai me acompanhar por muito tempo até onde deve. E resta para mim esse mistério, e respeitar o impropério de me apaixonar perdidamente uma vez só.

Coisa tão linda! Saber que a vida me reserva uma só chance de entrega, e tanta coisa dentro dela.

Dei um sorriso e pedi a saideira, a minha vida afinal, não era assim tão mesquinha.

E não fui quem eu mudei as minhas linhas, mas elas que trataram de me alinhar.

Ainda não entendi se estou sem escolha, ou se escolhi estar no meu lugar.

Acho que isso fica sem resposta.

Não importa! Os caminhos das minhas mãos serão traçados pelos pés, e coração. Qualquer surpresa, é mera coincidência.

Eu vou seguir os rumos, os certos e incertos, que a mão esquerda ainda não foi desenhada, disse a cigana.