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Blog da Clara

Mágica

Quando eu era criança, gostava de assistir minha mãe se arrumar. Para cantar ou passear, era sempre um espetáculo.

Lembro dos detalhes, ela abria as gavetas e bolsas de maquiagem, tirava várias e várias opções da arara, até encontrar a vestimenta especial para a ocasião.

Às vezes ela me mandava dormir, porque já estava tarde, ou porque queria ficar sozinha. Mas algumas vezes, ela me deixava ficar ali na porta do banheiro, ia conversando, e me ensinando como ela fazia aquela magia da pintura facial.

O cheiro da maquiagem era tão bom, parecia um perfume para mim. E todas as roupas que ela ia provando, e descartando, eu também ia vestindo e desfilando. Ela achava graça, tirava foto. Quando eu exagerava, ela mandava, toda materna “Chega, Clara, agora vai pro quarto”.

À medida que ela ia se arrumando, pintando olho, bochecha, boca, soltando o cabelo, botando a bolsa, eu ia me despedindo da minha mãe. Frente a frente com uma mulher, um mulherão.

O ritual era fascinante e amedrontador, quando ela entrava no banheiro era minha mamãe, quem sabia curar os machucados com beijo, quem via filme e novela comigo, quem buscava no colégio, quem fazia comida, um pouco santa, um pouco fada, como são as mães.

Quando saía, eu já mal a conhecia, era uma outra pessoa.

Não sei dizer quem era a mais bonita, as duas conseguiam me colocar hipnotizada, mas o que eu gostava mesmo era de estar presente na hora do truque, coisa de mágico profissional.

Não sei dizer por que, às vezes depois que ela saia, e já não parecia minha mãe, eu chorava. Outras vezes, eu sorria, vestia suas roupas, tentava imitar o processo, e ia dormir me sentindo também modificada.

Quando era dia de aniversário, ou de festa junina, era a minha vez de ser arrumada por ela. Mas por mais que eu me maquiasse, arrumasse, deixasse ela brincar comigo como tela em branco. Eu olhava no espelho, me achava bonita, mas ainda era a mesma. Não era aquela mulher que eu via sair da minha casa.

Será que a mágica só funcionava com ela? Era o que eu me perguntava.

O que eu não sabia, era que o ingrediente que faltava nesse ritual era o tempo. E a despeito da minha pressa ou paciência, ele chegou.

Nunca mais vi minha mãe se transformar.

Quando olho para ela agora, arrumada, caseira, cantora ou dona de casa, não vejo mais uma ou outra, enxergo as duas, ou mais. Minha mãe era aquela outra mulher, e agora mais que nunca, elas estão juntas.

Mas, o que eu esperava nas quadrilhas, aniversários e outras datas, agora me surpreende. Quando é chegada a minha vez de me arrumar, usando aqueles truques que aprendi com a minha mãe, vejo uma outra pessoa aparecendo em mim. Tão, tão parecida com aquela mulher que saía da minha casa!

Será que minha mãe, quando me pinta ou me assiste, também se despede da filha? Será que ela espera, na porta do banheiro, como eu menina, a chegada da mulher?

Não sei.

Me olho no espelho, percebendo os detalhes, narcisista ou crítica, e vejo cada vez mais as duas facetas da minha mãe, como vieram parar em mim? Não sou nem uma nem outra, mas o momento da mágica.