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Blog da Clara

Se eu morresse amanhã

Se eu morresse amanhã, 
nada mudaria no mundo. Os gerentes continuariam gerenciando, os cozinheiros cozinhando, os pilotos pilotando, e só minha mãe cantaria mais triste, e meu pai perderia a graça. E meus amigos diriam, "coitadinha, tão cedo!".
É sempre cedo.
120 anos ainda é cedo. 
Mas só 20 é muito mais.
Se eu morresse amanhã ficaria faltando a carteira de motorista, a terceira prestação de alguns livros, aprender a andar de bicicleta amar livre de posse. E mais algumas coisas que só eu sei que comecei.
Se eu morresse amanhã, seria uma fatalidade. A essa altura da vida, minha saúde vai muito bem. Fígado, pulmão, hormônios, todos trabalhando. Principalmente os hormônios. E o coração!
O que me mataria amanhã, seria o trajeto do ônibus? Seria um assalto, sequestro, ou coisa pior? O Rio de Janeiro anda tão violento... Ou seria dor da alma? Ou será que isso não mata?
Se eu morresse amanhã teria muito pouco a deixar. Minha sorte, nesse caso, seria não ter herdeiros. E que pena passar a vida sem herdeiros!
Se eu morresse amanhã e descobrisse enfim, o que é que a vida é. Se há qualquer coisa depois, se eu visse Deus, eu não ia voltar para contar. Voto pela criatividade das teorias!
Se eu morresse amanhã, gostaria que doassem desde os meus rins até minha pele, até meus olhos, até minhas unhas, se isso fosse ter qualquer finalidade. Se eu morresse amanhã, que eu pelo menos ainda pudesse ser útil.
Se eu morresse amanhã, que dó! que dó!, ainda não teria comprado a cristaleira, ainda não teria visitado o Japão, e nem Curitiba. 
Se eu morresse amanhã seria uma grande sacanagem! Logo eu, que tenho tantas vontades, logo eu que vivi tão pouco! Logo eu, que me considero tão imune, logo eu que sou tão normal. 
Melhor eu do que alguém que ainda vai inventar o teletransporte, a máquina de fazer tempo, a cura das dores irremediáveis. Se isso fosse aliviar as estatísticas, melhor eu. Não sem dor, e com humildade, pois não espero tanto assim da minha existência.
Se ela me chegasse amanhã, a indesejada da gente, não sei se seria morta contente ou rebelde, tenho em minha vida essas duas potências. Mas em caso de morte...Já não posso garantir.
Se eu morresse amanhã, seria um livro ruim. Sem protagonista, é o fim da história.