Cidadeverde.com
Blog da Clara

Golaço

Eu não gosto de futebol.

Eu sei, eu sei. Como assim? Brasil país do futebol, Pelé, Neymar, maracanã...O futebol voltou para casa, é taça na raça...Brasil?!

Eu sei, eu sei que é difícil de entender. E também é difícil de explicar, mas estou aqui, humildemente, me valendo de minhas antigas amigas, palavras escritas, para tentar contar um pouquinho como é do lado de cá: de fora da torcida.

Eu não sei dizer por que eu não gosto de futebol, eu não tenho raiva, nem nada contra, mas simplesmente não mexe com meu coração. “Mas como assim? Quando você vê um gol, a galera gritando, aquilo não te comove?”

E eu preciso responder sincera, “não”.

Mas não pense que eu não me sinto culpada com isso, porque eu realmente me sinto. Ver todo mundo animado, aquela torcida gritando, todo mundo comentando, sofrendo, comemorando, e eu lá... Intacta, imóvel, sem sentir nem um arrepiozinho para contar história.

Começo a me sentir insensível, me sinto péssima. Mas realmente não sou insensível, pelo contrário, sou dessas pessoas que choram até com jornal nacional, não posso ver uma notícia triste nem alegre demais, não posso ver ninguém chorando, não posso ver um casal apaixonando ou terminando, sem oferecer minhas lágrimas.

Mas com o gol do Neymar... Eu ensaio um “uhul”, um “éééé”, um “gooool”, mas vem sem força, e a culpa só aumenta...

Todo mundo tem um time, uma história de família, o pai levando no estádio, aquela primeira camisa, o primeiro campeonato, e euzinha, nada. Nem time eu tenho! Até tentei, mas não adianta, não consigo.

O fato é esse: Eu não gosto de futebol! E tem época pior para quem sofre desse mal?

Copa do mundo! Todo mundo animado. “eeeeeu sou brasileeeeiro, com muito orgulho, com muuuuito amooor...”, mas não pela bola. Ai, que carma!

Todo mundo começa a te olhar feio, a comentar, a dar aquela conferida para saber cadê o verde e amarelo na sua roupa e no seu coração? E eu sem nada para oferecer além de um sorriso amarelo...Será que vale?

Eu compreendo a indignação alheia. Quando alguém me diz que não gosta de samba, ou não gosta de carnaval, ou de alguma coisa autenticamente brasileira, eu penso: “Meu deus, mas como?!”, e eu entendo que diante de toda a minha brasilidade, porque sim, sou brasileira em todos os meus gostos e hábitos, seja de se espantar a falta de tesão pela “paixão nacional”.

Mas como explicar que não é minha culpa?

Por falar em culpa...Ela só aumenta quando encontro uma mulher entendedora de futebol, essas são as piores no quesito me deixar arrasada. Vez ou outra ainda tenho a desculpa de que quem entende mais de futebol são os meninos, mas quando chega uma moça, toda produzida e entendida, que começa a falar das taças, dos campeonatos, da escalação de 60, de 98, de 2002, aí é tristeza total. Nem no gênero posso botar a tal da culpa! Sobra pra mim...

Eu não me importo se o Brasil vai ganhar ou perder. Se a Argentina ganhasse a copa, estava tudo bem para mim, se fosse eliminada, tudo igual também. E, não, por favor, não me olha com essa cara feia, assim você acaba comigo!

Eu confesso, tenho simpatia pelo Neymar, rapaz sorridente, competente, pelo que me consta, sei também quem é o Fred, e gosto daquele do cabelo cacheadinho, acho carismático. Sei também que é o Messi, e o Cristiano Ronaldo, que é aquele do cabelo penteado, e se eu não me engano, o Felipão tem alguma coisa a ver com isso.

Aprendi nos últimos jogos que no segundo tempo troca o campo, e que gol impedido, é quando tem alguém esperando na “banheira”, mas tudo isso foi pela convenção social. Chegou um momento em que eu estava sendo realmente desagradável por não saber o básico, e sequer ter dúvidas. E o jeito foi tentar me adequar, porque de socialização eu bem que gosto!

Além de tudo, nessa copa tive minhas questões políticas, nas quais não quero me alongar porque a discussão é grande, e não foi para falar disso que eu iniciei esse dedo de prosa, mas a questão é que tudo o que eu senti em relação aos gastos excessivos e violência policial, dentre outros casos, que como eu disse, não quero me demorar, só somou para a minha indiferença, e nesse caso, até implicância.

Mas não, eu não julgo você porque fez o álbum da copa, ou porque está feliz com a recepção no Brasil, de verdade. E tudo que eu peço é um pouquinho de compaixão com essas pessoas que como eu, não aceleram o coração com um placar.

Mas tudo tem um lado bom! É assim que penso, no meu jeito Pollyana de levar a vida. Não entendo de futebol, mas entendo de amor. Não gosto de jogos, mas gosto de você! Não ligo para o placar, mas ligo para o que te faz feliz. E não é que a tal pelada me serviu de inspiração?

Eu quero fazer as pazes com a copa.

E isso não significa deixar minhas indignações de lado, nem minha luta, minha militância, minha opinião, isso fica no lugar que tem que estar. Mas eu quero aceitar o futebol, e ser aceita por ele, na minha inocente ignorância.

Eu não gosto de futebol! Ufa! Posso dizer essa frase sem tanta culpa agora.

O que me comove é a sua comoção, o que me alegra é ver você feliz. Você está feliz?!

Golaço!