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Opinião: PRESENTE-SE

Desde o final do ano passado observo as movimentações políticas após a eleição do atual Presidente do Brasil. Político com pouca ou nenhuma expressão, sem uma definição ideológica real, como a grande maioria dos políticos brasileiros, eleito em uma conjuntura totalmente favorável para os menos preparados e metidos a salvadores da Pátria, o Presidente começou a bravatar muito antes de tomar posse.

Fez uma escolha que não considero ruim para o Ministério da Ciência e Tecnologia, o que inclusive escrevi sobre o tema aqui. Para o cenário prometido de terra arrasada, escolher alguém que sabe sobre a importância do desenvolvimento científico, aos meus olhos soaram com certo otimismo.

O Presidente foi escolhendo os membros do seu Ministério, ao mesmo tempo soltando “pérolas” que, na minha opinião, somente confirmam sua incompetência para o cargo que ocupa num espetáculo de fanfarronice. Fez uma péssima escolha para o Ministério da Educação, que caiu por mera incompetência. E as bravatas com cortes anunciados seguiram pelos primeiros dias de gestão. Tira um bilhão daqui, corta outro bilhão dali...

O MEC ganhou um novo ministro: pior do que o primeiro e que pode ser “traduzido” por uma única frase de Galileu Galilei: “Quanto menos alguém entende, mais quer discordar”. Enquanto isso mais cortes sendo anunciados e atingindo segmentos da educação superior e da educação básica. Reitores das universidades correndo para seus púlpitos para anunciar medidas de austeridade para suportar os futuros tempos de escassez.

Bravata após bravata do Presidente e dos seus assemelhados, ocupando a mídia e tirando a atenção do grande público que em 2013 por causa de 20 centavos nas passagens de ônibus, soube criar um estardalhaço em nível nacional, comparável à primavera árabe, mas que agora permanece bovinamente imóvel. Ataques planejados contra a ciência: Ministro das Relações Exteriores atribui aumento do aquecimento global a existência de estacionamentos próximos às estações meteorológicas (pasmem!). Ministro do Meio Ambiente, depois o próprio Presidente, censurando o dirigente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) sobre os avanços incontestáveis do desmatamento na Amazônia. Um descalabro!

Agora o efeito das cascatas de cortes: CNPq anunciando que não tem recursos para bolsas! Para desespero de pesquisadores e estudantes que recebem estas bolsas para produção de conhecimento científico. As redes sociais nas quais me relaciono com cientistas de todo o Brasil só se veem lamentos: “meu projeto parou!” “Meus bolsistas não tem condição de continuar!” “Até hoje não recebi nenhum tostão do [projeto] Universal!” Semana passada ouvi de uma estudante bolsista no corredor da Universidade em que trabalho: “Professor o senhor já tinha visto isto acontecer?” Não.

Desde a década de 1990, quando fui bolsista do CNPq, nunca tinha visto e nem ouvido falar nisso. Não estou espantado porque vi crescer o movimento que levou este político ao poder. Porque vi pessoas brigando entre si: metade para defender este lado ogro e metade para defender o outro lado.

Registro hoje aqui minha indignação. Não contra o Presidente, mas contra quem de boca cheia o chama de Mito. De fato é um Mito quem ousa de uma só tacada cortar 84 mil bolsas de Iniciação Científica que custam míseros 400 reais. Interrompendo mais de 84 mil sonhos, porque muitos destes bolsistas ajudam em pesquisas e descobertas importantes. O pior: ainda vou me deparar com estúpidos encontrando um meio de dizer que, ainda assim, o Mito “mitou”.

O MEC anunciou há poucos dias um programa chamado FUTURE-SE para as Universidades. Ainda não olhei ao certo o que programa diz. Os reclames na TV anunciam a oitava maravilha da natureza. Já vi alguns dizendo que é uma forma de cassar a autonomia das universidades. Em outro momento vi IES anunciando que não aderirão e que ao mesmo tempo terão verbas reduzidas. Mas não li isso em nenhum documento, apenas vi reverberarem nas redes sociais.

A ideia de financiamento privado na pesquisa nunca foi totalmente estranha para mim. Em 2013 estive quase integrando uma missão internacional da Associação Brasileira de Reitores das Universidades Estaduais e Municipais (ABRUEM) para a Coreia do Sul. Tive que ler muito sobre o assunto. Sobre o que as multinacionais coreanas com LG, Hyundai, Kia, Samsung e outras fizeram e revolucionaram universidades coreanas na parte de tecnologia, principalmente. Do pouco que li sobre o FUTURE-SE algumas coisas se assemelham. Mas o pior dos contratos sempre está nas letrinhas miúdas, as quais infelizmente não pude lê-las, por isso é temeroso fazer algum juízo de valor, na condição de cientista. Todavia, mesmo sem conhecer os detalhes da proposta, sórdidos ou não, já posso emitir uma opinião: ao cortar as bolsas de pesquisa agora, o FUTURE-SE não existirá.

Não existe futuro, sem presente. O projeto da vez é PRESENTE-SE. Salvem o CNPq. Salvem a pesquisa científica no Brasil.