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CARNAVAL & CINZAS

            Não lembro com  exatidão quando a palavra carnal incorporou-se ao meu magro universo vocabular.Lembro apenas que,por muito tempo,para mim, carnaval não passava de sinônimo de pecado, pecado mortal,para ser mais preciso. É que os padres espanhóis (alguns franquistas) que me catequizaram  eram extremamente severos.”Uma festa que celebra os prazeres da carne só pode ser a entrada para o reino das trevas”,bradavam em intermináveis sermões,antes do chamado “tríduo momesco”. Um deles – baixinho, gordinho –   descrevi o reino das trevas com uma riqueza de detalhes capaz de matar o velho Dante de inveja.Sempre suspeitei que o tal padreco conhecia bem o lugar. O certo é que, um pouco por temor e um bocado por timidez, procurei manter prudente distância do “portal do inferno”.

            Eis que, no início da década de 1960, apareceram  na terrinha ( São Raimundo Nonato) três rapazes que estudavam na capital. Alegres, extrovertidos, em pouco tempo, conquistaram a cidade inteira, notadamente as menininhas da aldeia. Foram eles que me convenceram a participar de uma matinê  numa terça-feira de carnaval. Por falta de coisa melhor,lancei mão de um lenço vermelho, lambuzei a cara de carvão e, fantasiado de otário (fantasia que sempre me cai bem),caí na gandaia.À época (não sei se é prudente revelar) eu já andava perdidamente apaixonado (encegueirado,segundo dona Purcina)por uma fulaninha que borboleteava pelos céus de minha vida. Com um pouco de sorte, eu poderia aproximar-me dela, sem o olhar atento do pai severo. Tiro e queda.

            Embalado pelo  ritmo das marchinhas, esqueci a advertência dos padres  e comecei a acreditar que valia a pena entrar no reino das trevas por porta tão prazerosa. Lá pelas tantas, um dos novos amigos me passou um lenço embebido de lança-perfume, droga de que eu jamais ouvira falar. Aspirei com força e,literalmente, apaguei. Quando voltei à tona, todos riam de mim, e a  zinha tinha escafedido (é este o verbo) com um garoto sarará, que brincava  fantasiado de Zorro. Um mês depois, o sararazinho apareceu morto num beco escuro, mas posso provar que não tive nada a ver com aquilo.

            Pierrô desconsolado, declarei guerra ao carnaval, aos entorpecentes e aos mascarados em geral. A partir daquele dia, todos às vezes que alguém me fala de folia, saco dos escaninhos da memória os versos de Guilherme de Brito e Nelson Cavaquinho: “Tire o seu sorriso do caminho/que eu quero passar com minha dor” e desapareço. Assim tem sido e assim será.