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UM PASSO RUMO AO NADA

 

          Há 73 anos, Drummond escreveu: “Há máquinas terrivelmente complicadas para as necessidades mais simples./Se quer fumar, aperte um botão./Paletós abotoam-se por eletricidade./O amor se faz pelo sem-fio./Não precisa estômago para a digestão” (“O Sobrevivente” -1930). O poeta viveu o bastante para ver o sem-fio ser substituído pelo internet e o estômago perder sua função específica. Não viveu, contudo, o suficiente para acompanhar a mais ousada de todas as aventuras humanas: o projeto Mars One, que pretende iniciar a “colonização” do planeta Marte em 2023.

            Até onde se sabe, Marte não tem água em estado líquido nem oxigênio, elementos indispensáveis à vida, como a conhecemos. A viagem, se tudo correr bem, terá a duração de sete meses, com um agravante: só tem passagem de ida. Diante de tantos desafios, uma pergunta se impõe: alguém já se habilitou a fazê-la? Segundo a Revista Planeta (Nov.2013), “O projeto Mars One já seduziu 202.586 de todo mundo que, de abril a agosto, se candidataram a integrar a primeira  expedição para colonizar Marte”. Por oportuno, vale lembrar que, entre os “sortudos” figuram alguns brasileiros.

            Concebido por Bas Lansdorp, engenheiro mecânico holandês, o projeto custará a bagatela de seis bilhões de dólares e não será financiado por nenhum país especificamente. Para levantar a grana capaz de garantir a execução do  Mars One, o engenheiro pretende transformá-lo num imenso reality show a ser exibido por televisões de todo mundo. Não por acaso, o “embaixador” do projeto é o criador do  Big Brother, que se tornou um dos homens mais ricos do mundo, alimentando a curiosidade malsã da humanidade. A dupla acredita que  “a missão  a Marte pode ser o maior evento midiático do mundo”. Curiosamente, nenhum dos dois pretende ir ao planeta gelado: preferem comandar a aventura da velha e sofrida Terra. Quanto aos colonizadores pioneiros, além de pagaram a inscrição, não há previsão de nenhum ganho material, a não ser  a “fama”. Se, porventura, encontrarem alguma coisa “preciosa” em Marte, não terão direito a nada. Negócio de urso.

            Como tudo parece peça de ficção científica, vamos imaginar uma situação absurda: dois terráqueos, abandonados em Marte, vagueiam famintos pela vastidão do planeta gelado. De repente, encontram uma patrulha de marcianos. O comandante  os interpela:

            - Quem são vocês e de onde vieram?

            - Severino e Slanowa, lá da Terra.

             - Da Terra? Vocês  acham pouco os estragos que já fizeram por lá? O que querem aqui? – Severino adianta-se:

              - Pra mim, basta um taco de rapadura e uma mancheinha de farinha. Pra ela, uma talagadinha  de vodka, a bichinha é viciada...

            O comandante dirige-se ao subcomandante  e dispara:

             - KPTA, eu não te disse que aquela ideia maluca de colonizar a Terra ia dar em merda!