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ENFIM, ALGUMA UTILIDADE

 

Ao longo da errática trajetória sobre a Terra, não aprendemos a conviver cordialmente com a nossa mais constante e fiel companheira: a morte. A cada instante,  ela se manifesta ou se insinua como que a nos lembrar que caberá a ela  a tarefa de nos conduzir ao desconhecido, ao reino do vai não torna, como dizem os poetas populares. A consciência da finitude, às vezes, nos exaspera e  apavora. Na vã tentativa de minimizar os estragos que essa incômoda certeza nos causa, inventamos a “imortalidade”, engendrando religiões ou produzindo arte. A esperança de uma vida eterna anima os crentes.

Quanto à arte,  nós a produzimos porque a vida não basta,segundo Ferreira Gullar. O certo é que a busca da imortalidade sempre figurou entre os sonhos mais caros a visionários de todas as latitudes. Dois exemplos: o poderoso Qin Shi Huang (260 a. C. – 210 a. C.), imperador que unificou a China, ingeria mercúrio por acreditar que o metal líquido e altamente tóxico seria capaz de torná-lo imortal. Bem mais próximo de nós, o artista pop Michael  Jackson valia-se de  uma câmara de oxigênio onde dormia,certo que viveria para sempre. O primeiro morreu envenenado aos 52 anos de idade; o segundo, aos 51, intoxicado com medicamentos prescritos por seu médico particular.

Mas o que me motivou a escrever esta arenga não foi  tratar da imortalidade e sim da destinação dada aos corpos humanos quando destituídos do sopro da vida. Cada povo inventou um jeito de tratá-los: faraós, reis e mandarins mandavam construir pirâmides, mausoléus ou catedrais para depositar seus “preciosos” e inúteis corpos. Aos despossuídos, em qualquer lugar do mundo,  sempre se reservou  a cova rasa. Nem todos os povos cultivam o costume de enterrar seus mortos. Na Índia, por exemplo, os integrantes das castas superiores são cremados em fogueiras alimentadas com toros de sândalo; já os miseráveis têm seus corpos sapecados e atirados ao rio Ganges para repasto dos animais. Entre nós, os yanomamis têm um ritual insólito, para dizer o mínimo.  Trituram os ossos dos entes queridos até que se convertam em pó, que é comido com pasta de banana verde. “Trata-se de um incomparável gesto de amor”, garante  um antropólogo famoso. Eu diria: garante aos vivos um suplemento adicional de cálcio. Nada além. 
  

Na semana passado, li uma reportagem que me deixou feliz e animado: dois artistas italianos ( Ana Citelli e Raoul Bretzel)  conceberam  cápsulas  biodegradáveis ( “capsula mundi”) destinadas a acomodar os corpos dos mortos. Nelas, serão colocadas  sementes  ou mudas de árvores que se alimentarão do adubo humano. Assim,  cada corpo poderá alimentar uma árvore escolhida pelo indivíduo antes de morrer ou por sua família. Magnífica ideia: em vez de túmulos solenes e tristes, árvores vivas e preservadas. A Natureza agradece. Por oportuno, vale lembrar: as palavras homem e húmus provêm da mesma raiz. Sem pensar duas vezes, já escolhi a minha árvore: um ipê branco que, quando florido, servirá de cenário para os selfies das moçoilas vaidosas. Prometo tornar-me  adubo fecundo para que ao meu ipê nunca faltem flores. Assim seja!