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UM CIDADÃO DE RECONHECIDA DESIMPORTÂNCIA

Certeiro como um tiro de lazarina, seu Liberato me queria João. Um João raso em aspirações, capaz de contentar-se com a frugal colheita de cada ano, dependendo sempre da boa vontade dos céus. Um João fincado nos cafundós do Caracol, regando a terra com o suor do próprio corpo, campeando nuvens magras na vastidão do azul  e cuidando de bodes e jegues,seres pouco exigentes. Dona Purcina, “que enxergava longe”, queria-me distante dos limites estreitos da gleba acanhada do velho. Sacrificou-se para ver os filhos “encaminhados na vida”, ou seja, letrados. Estivesse viva, constataria desapontada que, pelo menos no meu caso, falhou redondamente. É certo que aprendi a ler, não enveredei pelos atalhos da marginalidade e ganho o pão com o suor do meu rosto. Mas as colheitas têm sido tão magras quando às do árido sertão onde nasci. Nunca passei de um Sísifo sertanejo, condenado a retornar sempre à estaca zero, num recomeçar sem termo...

Estas reflexões amargas começaram a verrumar-me a mente quando tomei conhecimento da chamada “bolsa ditadura”,instituída no país para reparar os danos causados aos que foram perseguidos, presos e deportados nos “anos de chumbo”. Segundo consta, mais de dez mil patrícios já foram beneficiados, sem contar os que estão agasalhados sob as asas do poder. Alguns foram aquinhoados com cifras significativas que lhes permitirão viver razoavelmente bem até o final da vida. Os que recusaram tais benefícios contam-se nos dedos de uma mão. Ferreira Gullar, um cidadão decente, figura entre eles. Nada contra os que, bravamente, combateram a ditadura, pondo em risco a própria existência, em nome dos ideais mais nobres. A questão é que, mesmo sem ter integrado nenhuma sigla revolucionária, muitos, com as armas de que dispunham, também combateram o bom combate e nem sequer são lembrados. Incluo-me entre estes. Se não, vejamos: em 1969, juntei um punhado de amigos e fundamos um grupo de teatro – Teatro Popular do Piauí -  que mambembou pelo interior do Piauí e Maranhão,encenando uma xaropada escrita por mim,pasticho de “Dois Perdidos numa noite suja” e “Morte e vida Severina”, com o sugestivo título de  “Uma noite entre miseráveis”.À época, a censura  proibia ou mutilava peças em todo o país. Fizemos nossa estreia em Bacabal (MA). Ninguém nos censurou, ninguém nos proibiu, ninguém tomou conhecimento de nossa existência.

Na velha  Faculdade de direito do Piauí (1970), eu e uns colegas mais acesos fundamos o jornalzinho “O Cartucho”,pretensioso e inofensivo como uma bombinha junina. O máximo que me aconteceu foi ouvir uma descompostura em regra do diretor da FADI por causa de um artigo – “De como evitar o verbo existir na universidade” – escrito por mim. Em 1976,  na companhia de uns jovens imberbes, fundei o jornal alternativo “Chapada do Corisco”, de vida efêmera e inconsequente. A cada edição, a PF me convocava para fazer as mesmas perguntas: “Quem financia o jornal?”. “Quem são os colaboradores?”. Nada além.

Como produtor cultural, trouxe a Teresina as figuras mais visadas pela ditadura: Plínio Marcos, Henfil, João Antônio, Fortuna e Coentro,entre outros. Não fui importunado. Em sala de aula, falei o que quis ( e como falei!) sem que nenhum diretor me censurasse ou me demitisse. Resumo da ópera: ninguém me propiciou um pretexto para que eu possa reivindicar junto ao governo federal reparação pecuniária por perdas e danos ou lucros cessantes. Hoje, no limiar da senescência,falido e mal pago, nem posso responsabilizar ninguém por meus fracassos...