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POR QUE ESTOU ONDE ESTOU

 

No final da década de 1970, trouxe a Teresina Ignácio de Loyola Brandão para uma conversa com estudantes de nível médio. Loyola,  na mira da ditadura,  tivera o seu romance Zero proibido em todo o território nacional.Motivo da proibição: “grave atentado ao pudor”. Na verdade, os censores não entenderam nada do livro, mas precisavam mostrar serviço. O romancista ficou impressionado com a receptividade dos jovens teresinenses: auditório lotado e perguntas pertinentes.

Na hora do jantar, Loyola me disse: “Cineas, eu também nasci numa província, Araraquara. Durante muito tempo, fiz coisas por lá, até perceber que a província não tem salvação. Larguei tudo e fui para São Paulo, Rio de Janeiro e, depois, Estados Unidos, onde vivi alguns anos. Voltei ao Brasil e, hoje, trabalho na Editora Três onde edito a coleção Clássicos da Literatura Brasileira”. Fez  uma pausa, elogiou a comida e me fez a seguinte proposta: “ Vou te levar para São Paulo. Você vai me ajudar a organizar a coleção e outras publicações. Fiquei impressionado com o seu trabalho: você  pode ir muito longe”. Sem pensar duas vezes, afirmei: meu irmão, agradeço-lhe o carinho e o convite. Mas veja bem: se você abrir a janela do seu escritório, em São Paulo, seguramente vai perceber passando na rua uns dez “paraíbas”  mais competentes e, com certeza,mais necessitados do que eu. Aproveite um deles que já está por lá. O meu lugar é na minha aldeia onde acredito que possa ser mais útil do que em São Paulo. Loyola não insistiu. Anos depois, convidado do SALIPI, ao me cumprimentar, fez o seguinte comentário: “Você estava certo ao recusar o meu convite. Sem você, talvez esta beleza de salão não existisse”.

No início da final da década de 1990,  José de Nicola Neto, parceiro e amigo, em palestra realizada na Oficina da Palavra, afirmou: “Não sei que grude prende o coroné Cineas  ao Piauí, mais especificamente a Teresina. Ele seria um grande produtor cultural em qualquer lugar do Brasil e com muito mais chances de sucesso”.  Na minha fala, afirmei: meu irmão, nunca incorporei a palavra sucesso ao meu raso universo vocabular. O grude que me prende à minha aldeia são as referências afetivas e o compromisso de contribuir, ainda que minimamente, para tornar a Chapada um pouco melhor ou, pelo menos, um pouco menos  ruim.  Estou inteiro  na minha aldeia.

Na semana passada, José de Nicola esteve em Teresina e voltou a falar do grude que me prende à cidade. Mais uma vez repeti: meu irmão nascer em determinado lugar é contingência e não escolha. Não pedi para nascer no Piauí, não carrego a legenda  no peito: “Orgulho de ser piauiense”. Se eu tivesse nascido em Angirobal dos Crentes, estaria por lá fazendo a minha parte. Só saí do Caracol porque dona Purcina, que me queria “dotõ”, catapultou-me rumo ao desconhecido. Caí em Teresina e, 50 anos depois, continuo acreditando – posso estar enganado – que tenho contribuído para tornar o ar de minha aldeia suportável. Assim, vou ficando, ficando , até  que a “iniludível” me arraste para o nada...