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DE COMO SE CONSTRÓI A FAMA DE GROSSO

Meio-dia: sol de cozinhar o quengo. Saído não se sabe de onde, um cidadão, que nunca vi menos gordo, aproximou-se de mim e disparou: “Sou seu fã, professor”. Limitei-me a balbuciar um obrigado  e preparei-me para sair. O moço voltou à carga: “Sabe por que sou seu fã? Não sabe?”. Antes que eu pudesse pensar numa resposta  plausível, disparou: “Porque você é mais feio do que eu”. Com enorme intimidade bateu no meu ombro e gargalhou como se tivesse acabado de inventar a mãe de todas as piadas. Contei até cem e me limitei a dizer: sorte sua, parceiro. O infeliz achou que era pouco e sapecou: “Mais feio e muito mais grosso”. Voltou a sorrir, exibindo os dentes manchados de nicotina. Convenhamos que a coisa estava indo um pouco além do razoável,digamos.

Não tenho maiores dificuldades para desvencilhar-me dos chatos. Geralmente, digo qualquer coisa e me afasto apressadamente. Poderia ter repetido a velha receita que sempre funciona. Mas o sol estava muito quente e o cidadão, muito ancho. Sem levantar a voz, perguntei: além de exercer sua feiura, o que o senhor faz? O desgraçado, que já acendera um cigarro, deu duas tragadas, voltou a sorrir e respondeu: “Porra nenhuma! Já gastei minha cota de tempo carimbando papéis numa repartição fuleira. Sou aposentado ou reserva técnica, como dizem os pedantes”. Com a necessária seriedade, obtemperei: bem, meu xará de feiura, parece que, no tocante  às nossas atividade, nada temos em comum. Vejamos: sou professor há mais de 40 anos, ministrei milhares de aulas, proferi dezenas de conferências, promovi eventos culturais de todas as versidades, escrevi um punhado de livros, editei todos os autores piauienses de expressão, ajudei a criar o Salão do livro do Piauí, integro o Conselho Estadual de cultura do Piauí e, semanalmente, apresento o programa Feito em Casa na TV Cidade Verde. Como se pode ver, continuo no batente. Então, ficamos assim: sou um feio e grosso que produz beleza . Quanto ao senhor, se bem entendi, é apenas um feio inútil e, para dizer o mínimo, um tantinho inconveniente. Passe bem, parceiro de feiura.

É escusado dizer que aquele  cidadão folgado vai sair por aí dizendo que eu o agredi, ao pino do dia, em praça pública. É sempre a mesma coisa: o freguês chega, não mede as palavras, fala o que lhe dá na telha  sem levar em conta o que diz a sabedoria popular: “quem diz o que quer ouve o que não quer”.

Em tempo: não estou me queixando da fama de grosso. Na verdade, até gosto: ela me protege da presença de algumas criaturas que, sob nenhum pretexto, eu gostaria de ter por perto de mim. Bendita grossura!