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PARA SEMPRE ALICE

O período da Semana Santa é um dos favoritos para o teresinense que quer deixar a cidade rumo à fazenda ou à praia. Para os que optaram por ficar aqui, ou não tiveram outra alternativa, recomendo o excelente filme “Para Sempre Alice”, em cartaz na capital. Vencedor do Oscar de melhor atriz pela magistral interpretação de Julianne Moore no papel principal, o filme mostra de maneira delicada e sensível como é a adaptação de uma pessoa diagnosticada com o Mal de Alzheimer. No caso de Alice, a personagem principal, o diagnóstico foi assustadoramente precoce,  aos 50 anos de idade.

Alice fazia tudo o que os médicos costumam recomendar como prevenção à doença. Mantinha a mente em atividade intelectual intensa, como destacada professora de linguística na Universidade de Columbia; praticava exercício físico regularmente, correndo no próprio campus onde lecionava e mantinha um relacionamento afetivo estável com a família. Não obstante, é surpreendida com um diagnóstico no qual ela e o marido custaram a acreditar. Como era possível que alguém tão jovem e ativa como ela desenvolvesse o Alzheimer?

Longe de ser um roteiro piegas, a demonstração de coragem e força de vontade da personagem para superar as perdas cognitivas,  e a maneira como esse sentimento é compartilhado com a família, é uma lição que nos leva a muitas reflexões. Uma delas é sobre a brevidade da nossa existência tal qual a concebemos ou imaginamos. A mesma profissional que hoje  é referência na universidade, proferindo palestras como professora convidada em várias cidades da América, no dia seguinte torna-se alvo de críticas dos alunos por já não poder mais concatenar o raciocínio de maneira lógica. E então, ela própria, que sempre se vira como uma intelectual , perde sua identidade e já não se encontra mais como a pessoa que era. Um diagnóstico médico mudaria para sempre, e de forma substancial, todo o resto da  sua vida.

O mesmo tema, sempre tão difícil de ser abordado, também foi assunto de um livro do professor Cineas Santos, intitulado “Dona Purcina: a Matriarca dos Loucos”. É um terreno difícil para discorrer. A ausência de pessoas queridas é sempre sentida. A ausência em vida não é menos dolorosa, ao contrário, fica até mais complicado entender que a pessoa que está ao nosso lado não é mais a mesma que conhecemos. Restou o corpo, mas as lembranças se foram, deixando os que estão à sua volta ao mesmo tempo assustados e completamente desnorteados. Pela lição extraída do filme, como do livro, independente dos remédios que ainda venham a ser descobertos para conter a doença, o melhor tratamento sempre será o afeto dos parentes e amigos.