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MUDANÇA DE HÁBITO

Por força de uma tradição cultural, iniciada não sei por qual motivo, muita gente, inclusive alguns católicos, festejam erroneamente o dia de hoje como se fosse sábado de aleluia. E fazem churrasco, bebem, tocam, dançam e, ah, malham o Judas. É uma espécie de catarse coletiva na qual cada grupo elege os seus traidores e dá-lhes uma surra tal qual gostaria de fazer com o personagem verdadeiro.

No entanto, não há qualquer motivo para festa ou alegria neste sábado que, na verdade, chama-se sábado da vigília pascal. O Papa e os bispos do mundo inteiro recomendam um dia de recolhimento, silêncio e oração. É o dia em que os fiéis devem ficar em vigília à espera da ressurreição de Cristo, o que só acontece no domingo. Este, sim, um dia de festa. A grande festa cristã, que traz a vitória da vida sobre a morte, por meio da maior lição de amor já vista pela humanidade.

O que temos assistido, no entanto, é que ao longo dos anos os costumes têm mudado e as tradições dos nossos antepassados estão se perdendo no tempo. Quando criança, ouvia minha avó, mulher de grande fé e religiosidade, dizer que os dias grandes, como eram chamados os dias da Semana Santa, deviam ser respeitados com fervor. Para começar, a Semana Santa era realmente composta de sete dias. Começava com o Domingo de Ramos, com a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, e só acabava no Domingo da Ressurreição. Hoje, a Semana Santa está restrita praticamente à Sexta-feira.

O jejum, que marcava o sacrifício dos fieis, também já não é mais observado. Espertamente, os católicos seguem apenas a tradição de suspender o consumo da carne vermelha. Em compensação,  a trocam por banquetes de dar água na boca, com muito bacalhau, camarão , peixe, tortas, bolos e todas as iguarias que fazem a festa de qualquer glutão, mas que não tem nada de cristão, com o perdão da rima pobre.

Na Sexta-feira da Paixão havia um respeito absoluto pela morte de Cristo. Os católicos mais fervorosos não pegavam em dinheiro, nem ligavam o rádio ou a televisão. Guardava-se um silêncio sepulcral em memória à morte do Salvador. Era como se vivessem o luto de um pai.

Atualmente, para tristeza da Igreja Católica, a Semana Santa está se transformando apenas em mais um feriado prolongado, sem os ritos e devoções que a marcaram no passado. E o que é pior, o comércio já se apoderou também desta celebração religiosa que marca o mistério da nossa fé, quando Cristo se transforma em pão e vinho para nosso alimento espiritual. Nas lojas, o alimento divino foi substituído por ovos de chocolate, nos mais diferentes tamanhos, sabores e preços. No lugar do cordeiro imolado, surge o coelhinho, que cativa a simpatia das crianças e, por isso, torna-se mais vendável.

Ainda há os que resistem aos costumes antigos, especialmente nas cidades do interior de maior tradição religiosa, a exemplo de Oeiras. Mas o que se vê é que a mudança de hábito vai substituindo a manifestação religiosa pelo apelo hedonista e capitalista. Sinal dos tempos, diriam alguns. Ou, quem sabe, são os novos Judas do presente que, a exemplo do Iscariotes, negam Jesus e o entregam por menos de trinta moedas aos deuses do capital.