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A crise não é para todos

O Brasil é um país contraditório, para usar um termo suave. Ou um país no qual perdeu-se completamente o bom senso, para adotar um tom mais realista. Logo depois de encaminhar ao Congresso uma meta de déficit fiscal, ou rombo  nas contas públicas, se preferirem, no valor de R$170,5 bilhões, o governo encaminha, e o mesmo Congresso aprova, um aumento de salário a 38 carreiras de privilegiados do serviço público.

Ainda ontem, o presidente interino Michel Temer fez um discurso falando que era hora de sacrifício. E deveria mesmo ser, se pensássemos nos 11,4 milhões de brasileiros que perderam o emprego por conta de uma das piores crises econômicas que o Brasil já enfrentou. Outros tantos estão recebendo o salário com atraso, como aconteceu com os aposentados do Estado do Rio de Janeiro. Muitas empresas estão fechando e os brasileiros que ainda estão com a carteira assinada morrem de medo de perder o emprego na manhã seguinte.

O momento realmente é grave e a sociedade inteira está apertando o cinto até não poder mais. Menos uma casta do serviço público, encabeçada pela Procuradoria Geral da República e pelo Supremo Tribunal Federal. Aliás, este último parece ser quem está dando as cartas no país. O impacto financeiro do aumento concedido ontem à noite para este ano está estimado em R$ 4,2 bilhões. Até 2019, sobe para R$ 58 bilhões. E aí mora a contradição. Não estamos tentando cobrir um rombo de R$ 170,5 bilhões? E o discurso do novo governo não era o de cortar despesas e enxugar os gastos públicos?

Não se questiona o mérito ou a necessidade dos servidores que vão receber o generoso aumento, mas o tempo em que ele está sendo concedido, quando milhões de brasileiros estão sendo despejados porque não têm mais sequer como pagar o aluguel. Então, é assim: eles recebem aumento e nós outros vamos para o sacrifício no país onde a desigualdade social cresce tanto quanto a ânsia de uma pequena casta por mais dinheiro e mais mordomias.