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O consumidor é o novo mordomo

Certas coisas, de tão surreais, assustariam até mesmo Salvador Dali – artista plástico espanhol que se notabilizou por suas obras surreais. O fornecimento de energia elétrica no estado do Piauí é precário. As oscilações de energia são tão frequentes quanto a total ausência dela.  Basta perguntar a qualquer consumidor, residencial ou industrial. No entanto, como nos enredos de filme pastelão, em que o mordomo é sempre o culpado, aqui o culpado é o consumidor.

O secretário municipal de Educação, Kléber Montezuma, está sendo processado pela Eletrobrás Piauí por criticar os serviços prestados pela empresa em uma entrevista à imprensa local. O Secretário reclamava dos prejuízos causados à rede municipal por conta da baixa qualidade da energia fornecida.

Em um país onde o consumidor é respeitado e levado a sério, a empresa teria procurado melhorar o seu serviço e saber que tipo de prejuízo teria causado. Talvez até pedisse desculpas publicamente à população por afetar o ensino público. Aqui, não. A Eletrobrás entende que pode cobrar o que quer pelo serviço que presta, e que, de fato, é ruim, e ainda processar o consumidor e transferir para ele o ônus do prejuízo.

Na peça encaminhada à justiça, a Eletrobrás pede uma indenização de 40 salários mínimos ( R$ 38.160), por entender que Montezuma praticou “ato abominável” e “desrespeitoso”. Vejam só a inversão de papeis! A empresa é que deve aos milhões de consumidores afetados pelas constantes faltas de energia. Quanto de prejuízo o comércio e a indústria acumulam por não contarem com um serviço de qualidade em área tão essencial? Quanto se gasta com aluguel de geradores para garantir que o serviço não pare? Mas, se você é uma dessas vítimas, permaneça calado, pois além de pagar caro pela conta, seu prejuízo pode ser ainda maior com indenização. Franz Kafka deve estar sorrindo disso tudo.