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O cargo e a sua liturgia

O pedido de desligamento do BNDES, encaminhado ainda ontem, por Joaquim Levy ao ministro da Economia, foi o mínimo que se poderia esperar de um técnico com a sua qualificação, depois da humilhação pública a que foi submetido pelo presidente Jair Bolsonaro. Em entrevista, o presidente disse que  Levy estava com a cabeça a prêmio, e que se não demitisse até hoje o diretor de Mercado de Capitais, Marcos Barbosa Pinto, o próprio Levy seria demitido.

Foi o que bastou para que o presidente do banco entregasse sua carta de demissão. O descontentamento com o ex-presidente do banco já vinha se arrastando há algum tempo. O presidente Jair Bolsonaro queria ver, logo nos primeiros meses da sua administração, uma devassa no que ele chama de “caixa preta” do banco, referente aos empréstimos concedidos a ditadores de esquerda durante os governos petistas, dos quais o próprio Levy fez parte. A tal devassa nunca foi feita.

Independente dos motivos da impaciência do presidente com o seu auxiliar, o que chama atenção nesse episódio é a forma descortês com que Bolsonoaro descartou um técnico respeitado pelo mercado. E justamente no momento da aprovação da reforma da Previdência, crucial para o país.

O recado transmitido aos investidores é o pior possível:  o de que não há estabilidade sequer na própria equipe do governo. Se o comportamento de Joaquim Levy não estava agradando ao presidente, que ele o chamasse em seu gabinete e conversasse em reservado, ainda que fosse para demiti-lo, mas com o mínimo de compostura que se espera de um gestor. Essas reações impetuosas não contribuem em nada para melhorar o cenário econômico cada vez mais frágil do país. Passados seis meses de governo, o presidente Jair Bolsonaro ainda não aprendeu a liturgia do cargo.