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A fogueira está queimando

As apostas sobre o destino do ex-presidente Lula ardem na fogueira de São João, santo celebrado hoje com alegria e devoção pelo Brasil afora. Preso pela Operação Lava-Jato em abril do ano passado, o ex-presidente vem tentando, desde então, a suspeição do juiz Sérgio Moro, agora ministro da Justiça e Segurança Pública. O julgamento do pedido de habeas corpus que será retomado amanhã iniciou em dezembro do ano passado, mas foi suspenso a pedido do ministro Gilmar Mendes.

Agora, com as revelações de diálogos entre o então juiz Moro e o procurador Deltan Dallagnol, o pedido de habeas corpus ganhou fôlego e volta a julgamento. Os ministros Edson Fachin e Carmem Lúcia já votaram contra o pedido de liberdade de Lula. Faltam ainda os votos dos ministros Gilmar Mendes, Ricardo Lewandovski e Celso de Mello. Tanto Gilmar quanto Lewandovski são, de certa forma, previsíveis. A definição deve vir, portanto, do voto de Celso de Mello.

O país inteiro acompanha esse julgamento que será decisivo para a Operação Lava Jato, responsável pela devolução de R$ 13 bilhões ao Erário e pela prisão de dezenas de políticos de alto calibre que desviaram dinheiro público. Há questionamentos de toda ordem sobre esse julgamento, mas a questão que fica é a continuidade da Lava Jato e o fortalecimento do ministro Sérgio Moro. A julgar pelas manifestações populares, Moro permanece com grande respaldo para tocar seu trabalho. Do outro lado, os demais condenados pela Operação esperam a libertação de Lula para usarem o mesmo argumento e também tornarem-se livres. Pelo menos, até a próxima condenação.

Como votaram os senadores piauienses no decreto das armas

O presidente Jair Bolsonaro sofreu ontem uma das suas maiores derrotas no parlamento, se levarmos em conta a simbologia da votação. Ainda candidato, o capitão Bolsonaro sustentou sua campanha com a promessa de flexibilizar a posse de armas de fogo para que a população pudesse, ela própria, se defender, como se isso não fosse obrigação do Estado. Já presidente, armou-se até os dentes para que os parlamentares aprovassem o decreto que alarga o direito à posse de armas a várias categorias.

O decreto das armas foi derrotado no Senado por 47 votos a 28, a despeito de todas as pressões exercidas sobre os senadores que pensavam contrário à ideia armamentista. Do Piauí, votaram a favor do decreto do presidente os senadores Ciro Nogueira (PP) e Elmano Férrer (Podemos). O senador Marcelo Castro (MDB) votou contra.

A obstinação do presidente Bolsonaro em armar a população lembra a birra de Donald Trump, nos Estados Unidos, com a construção do muro na fronteira com o México. Ambos se elegeram levantando essas duas bandeiras polêmicas que dividem a opinião pública. Tanto lá como cá, pelo menos até agora, os projetos presidenciais não vingaram. Na América do Norte, a queda de braço entre o presidente e o Congresso chegou a parar o país por vários dias até que fosse votado o orçamento, sem os recursos pretendidos para a construção do muro da discórdia. Aqui no Brasil, Bolsonaro já pensa em um plano B para levar adiante o seu decreto: ele pretende questionar no Supremo Tribunal Federal a decisão do Congresso que impôs a derrota de ontem.

Enquanto o presidente e sua “enoturage” brigam por mais armas na sociedade, o país continua à deriva quanto a um projeto de educação consistente que ponha fim ao analfabetismo, promova o desenvolvimento e combata a desigualdade social. Esta, sim, a melhor proteção a que o Brasil pode aspirar.

A mala e o preço da passagem

A emenda parlamentar que garantia a volta da franquia de um volume de bagagem de até 23 kg nos voos domésticos e internacionais foi vetada ontem pelo presidente Jair Bolsonaro, para desgosto dos passageiros que, até hoje, não se conformam em ter de pagar um valor adicional para despachar a bagagem. Desde que essa medida entrou em vigor, a disputa pelos espaços a bordo é grande. Às vezes, gera até discussões dentro das aeronaves.

Quando foi autorizada a cobrança, a justificativa é que o preço da passagem iria baixar, o que não aconteceu. Ao contrário, agora, além de pagar pela mala despachada, o passageiro ainda tem de pagar pela marcação do assento. E a passagem continua cara, caríssima, a despeito de a qualidade do serviço ter caído consideravelmente.

Mas a verdade é que a situação financeira das companhias aéreas não é nada boa. E isso acontece em todos os países, basta ver que, só no ano passado, 22 empresas de aviação faliram no mundo. Entre as razões para essa decadência estão os altos custos operacionais do setor e os grandes riscos a que estão submetidas.

Aqui no Brasil, a Latam já anunciou a devolução de cerca de 20 aviões; a Gol acumula uma dívida de R$ 16 bilhões e a Avianca  já entrou com pedido de recuperação judicial.Por isso, a medida provisória, editada ainda no governo Temer, permite a participação de até 100% de capital estrangeiro nas aéreas. É uma tentativa de recuperar a saúde financeira dessas companhias.

De qualquer forma, o passageiro segue voando sem qualquer conforto ou comodidade, amargando uma conta alta por uma prestação de serviço cada vez pior. Não demora e chegará o dia em que o cliente terá que pagar um adicional pelo simples fato de ter direito a voar sentado.

 

Menos espetáculo, por favor!

Hoje de manhã, mais um jovem tentou se jogar de uma das pontes de Teresina, desta vez a da Primavera, repetindo um comportamento que tem se tornado assustadoramente frequente na cidade. A alta incidência desse tipo de atitude leva a uma reflexão séria sobre um fenômeno que ficou conhecido como efeito Werther. O escritor alemão Wolfgang Von Goethe publicou um romance "Os sofrimentos do jovem Werther" no qual narra o suicídio de um jovem que sofria as dores do (des)amor.

Efeito contínuo, logo em seguida, 40 jovens puseram fim à própria vida de maneira semelhante à do protagonista do romance alemão, o que levou o sociólogo David Phillips a denominar de efeito Werther o comportamento imitativo de suicídios que se tornavam notáveis por meio da sua divulgação.

Só este mês, em Teresina, já foram registrados quatro casos semelhantes. Por isso mesmo, é preciso ter cuidado para não cair na tentação de curtir ou compartilhar imagens de quem atenta contra a própria vida, porque isso pode ser visto como a alternativa possível para quem se encontra na mesma situação de desespero. E não deve ser assim.

O comportamento suicida, muitas vezes consequência de uma doença grave, chamada depressão, deve ser tratado por especialistas em psiquiatria. No ambulatório Lineu Araújo existe um núcleo próprio ( Provida) só para cuidar desse problema. Há ainda entidades como o CVV – Centro de Valorização da Vida - que ajudam pessoas com esse tipo de ideação. Muitas vezes, essas pessoas só precisam de atenção, de serem ouvidas sem julgamento.

A filmagem e exibição de cenas dessa natureza é extremamente danosa para a sociedade, que está mais necessitada de escuta do que de espetacularização. O assunto não precisa, e nem pode, ser omitido do debate público, mas tratado com seriedade e profissionalismo, nunca ostentado como algo pitoresco.

O cargo e a sua liturgia

O pedido de desligamento do BNDES, encaminhado ainda ontem, por Joaquim Levy ao ministro da Economia, foi o mínimo que se poderia esperar de um técnico com a sua qualificação, depois da humilhação pública a que foi submetido pelo presidente Jair Bolsonaro. Em entrevista, o presidente disse que  Levy estava com a cabeça a prêmio, e que se não demitisse até hoje o diretor de Mercado de Capitais, Marcos Barbosa Pinto, o próprio Levy seria demitido.

Foi o que bastou para que o presidente do banco entregasse sua carta de demissão. O descontentamento com o ex-presidente do banco já vinha se arrastando há algum tempo. O presidente Jair Bolsonaro queria ver, logo nos primeiros meses da sua administração, uma devassa no que ele chama de “caixa preta” do banco, referente aos empréstimos concedidos a ditadores de esquerda durante os governos petistas, dos quais o próprio Levy fez parte. A tal devassa nunca foi feita.

Independente dos motivos da impaciência do presidente com o seu auxiliar, o que chama atenção nesse episódio é a forma descortês com que Bolsonoaro descartou um técnico respeitado pelo mercado. E justamente no momento da aprovação da reforma da Previdência, crucial para o país.

O recado transmitido aos investidores é o pior possível:  o de que não há estabilidade sequer na própria equipe do governo. Se o comportamento de Joaquim Levy não estava agradando ao presidente, que ele o chamasse em seu gabinete e conversasse em reservado, ainda que fosse para demiti-lo, mas com o mínimo de compostura que se espera de um gestor. Essas reações impetuosas não contribuem em nada para melhorar o cenário econômico cada vez mais frágil do país. Passados seis meses de governo, o presidente Jair Bolsonaro ainda não aprendeu a liturgia do cargo.

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