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Nelito Marques fez da vida uma festa

Foto: Arquivo

Martha Rocha, eterna Miss Brasil

 

No início dos anos 70, a primeira Miss Brasil, Marta Rocha, veio a Teresina para compromissos profissionais. Ela visitava o Piauí nas asas da fama depois de se tornar a primeira mulher brasileira a conquistar o prêmio máximo da beleza, em 1954.

Esse título a levou naquele mesmo ano aos Estados Unidos para concorrer ao concurso de Miss Universo. As pesquisas já a consideravam eleita, porém, pela vontade expressa do júri, Martha ficou em 2º lugar.

Desde então, correu a lenda que a perda do título de Miss Universo para a norte-americana Miriam Stevenson se deu a duas polegadas a mais nos quadris.

No entanto, o segundo lugar deu à brasileira fama absoluta. Ela foi a eleita do público.

Depois do concurso, Martha Rocha tornou-se referência nacional de beleza, sempre requisitada a viajar por todo o país para participar de eventos.

Foi nesta condição que ela veio a Teresina. Após algum tempo no Luxor Hotel, Martha decidiu sair e passear sozinha pelo centro da cidade. Uma senhora deu de cara com ela na rua, casualmente. Admirada com tanta beleza, abordou gentilmente a visitante:

- Minha filha, se eu estivesse no Rio de Janeiro, diria que você é a Martha Rocha!

A ex-miss Brasil agradeceu, com um sorriso:

- Será que eu sou tão bonita assim?

História do jet set

Esta me foi contada pelo cronista social Nelito Marques, que ouviu a história da boca da própria Martha Rocha, anos depois do fato.

Durante os 16 anos que trabalhamos juntos, no Diário do Povo, ele contava muitas e muitas outras histórias como esta, envolvendo personalidades do Piauí e de projeção nacional, com as quais tinha ligações, sem atentar para o devido valor que elas tinham.

Eu o estimulei a escrever um livro com uma seleção dessas histórias que ele conhecia tão bem, relacionadas principalmente com o velho Clube dos Diários, o Jockey Club e toda fina flor da sociedade local.

Ele gostou da ideia, mas ela não foi para a frente, dado o corre-corre da profissão.

Além da coluna diária que publicava na imprensa local, Nelito Marques apresentava programa de rádio, promovia shows e organizava eventos. Por muitos anos, foi o coordenador do Concurso Miss Piauí. Ou seja, exercia intensamente a crônica social.

E, por um tempo, foi empresário também – dono de uma ótica. Exerceu ainda os cargos de chefe do Cerimonial do Palácio do Governo (1994) e de assessor especial do senador Mão Santa. 

O primeiro cargo foi uma deferência de seu amigo governador Guilherme Melo. O segundo, de seu amigo Mão Santa, de quem a princípio se colocava como adversário.

Paixão pelo seus

Sim, o Nelito se apaixonava pelas suas causas. Na eleição passada, por exemplo, andava entusiasmado com Bolsonaro. Quando me viu fazer uma crítica ao candidato do PSL à presidência, ele rapidamente me mandou uma mensagem lembrando – e certamente cobrando – que Bolsonaro estivera no lançamento de um livro meu, em Brasília, em 2009.

Então, na campanha eleitoral de 1994, Nelito jogava contra Mão Santa, candidato da oposição. Depois que ganhou a improvável eleição, o novo governador não quis saber de intriga com o jornalista. Ao encontrar-se com ele, casualmente, no início do mandato, Mão Santa puxou conversa, ao seu estilo:

- Olha, Nelito, só não ganhei a eleição no primeiro turno porque você estava do outro lado. Agora quero você comigo.

Foi o bastante para ele ganhar o cronista, que passou a vestir a sua camisa..

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Jornalista Nelito Marques

A despedida

No sábado à noite, Nelito Marques saiu de cena, aos 74 anos, encerrando uma luta de mais de quatro décadas na imprensa, onde pontificou como cronista social.

Ele morreu em casa, vencido por grave doença contra a qual lutou bravamente. Seu corpo foi sepultado ontem, no final da tarde, no Cemitério São Judas Tadeu, no bairro São Cristóvão.

Misses que ele viu coroadas estiveram entre os muitos amigos que se despediram dele, num domingo de emoção e saudade.

O jornalista Miro Silva, seu discípulo, contou que, nas viagens de carro, Nelito gostava de cantar a “Ave Maria”, de Schubert, executada após a missa de corpo presente pelo saxofonista Wilker Marques, seu sobrinho.

O músico cantou, a seguir, acompanhado de violão, a canção “Lábios de mel”, de Ângela Maria, a cantora preferida de Nelito, que, assim, se despediu da vida terrena com oração e música.

Em seu sermão, o padre Alves observava que, para Nelito, a vida foi uma festa, pois seu espírito era alegre e ele gostava de fazer eventos sem a preocupação de aparecer. Sua realização pessoal estava em ver a alegria dos outros.

A Hildete, seus quatro filhos, netos e bisnetos a solidariedade de quem conviveu profissionalmente por mais de 30 anos com Nelito, desde a velha Difusora, e pode sentir que ele fundamentalmente era fascinado pelo belo, prezava as amizades e tinha a família no centro de tudo o que mais amava na vida.

Que sua alma descanse em paz!