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Da "Revolta da Vacina" ao Coronavírus

Fotos: Domínio Público/Wikipédia

Protestos no Rio, em 1904, na "Revolta da Vacina"

 

No início do século, o Rio de Janeiro possuía acentuados problemas de saúde pública e também graves doenças que atingiam em cheio a população, como a varíola, a febre amarela e a peste bubônica.

Não era apenas o Rio que amargava essa brutal realidade. Outras grandes cidades viviam o mesmo drama da falta de saneamento básico. Só que o Rio era a capital da República e o centro econômico e cultural do país.

Ao assumir a Diretoria Geral de Saúde Pública, em 1903, com apenas 31 anos, o médico sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917) promoveu uma ampla campanha de saneamento básico da cidade.

Com isso, ele pretendia erradicar as doenças que proliferavam por todo canto.

O presidente Rodrigues Alves (1848-1919) apoiou as reformas urbanas e sanitárias planejadas pelo prefeito Pereira Passos (1836-1913) para controlar as epidemias e modernizar o então Distrito Federal.

Eram medidas como alargamento de ruas, destruição de cortiços e remoção da população pobre de suas moradias, entre outras mudanças arquitetônicas.

O fato é que elas acabaram modificando a geografia natural da cidade e a vida cotidiana das pessoas, que se revoltaram contra as medidas.

 

Cientista Oswaldo Cruz

 

A revolta nas ruas

A revolta aumentou quando, em junho de 1904, o governo tornou obrigatória a vacinação da população, depois de enfrentar uma dura e irracional campanha de seus opositores.

Quando começou efetivamente a campanha de vacinação em massa da população, no final do ano, a revolta foi geral.

Assim, entre os dias 10 e 16 de novembro de 1904, o então Distrito Federal viveu dias de cão. O povo protestou nas ruas contra a Lei da Vacinação Obrigatória.

Isso porque os funcionários da saúde pública invadiam as casas com a proteção da polícia, utilizando a força para vacinar os moradores.

A população, por sua vez, enfrentou as forças policiais e resistiu à bala com a frase de ordem que dizia ser direito do cidadão a opção de recusar o líquido desconhecido para preservar seu próprio corpo. Houve quebra-quebra para todo lado.

As camadas populares cariocas e os agentes de saúde e a polícia se enfrentaram diariamente. O centro da cidade se transformou em uma praça de guerra, com bondinhos derrubados e edifícios depredados.

Mortes e prisões

O governo atacou duramente a revolta popular e prendeu muitas pessoas suspeitas ou não do tumulto. O saldo total desse episódio foi de 30 mortos, 110 feridos, 461 deportados para o estado do Acre e 945 pessoas presas na Ilha das Cobras.

Foi decretado Estado de Sítio e o cancelamento da vacinação obrigatória no dia 16 de novembro. Depois disso, a Lei da Vacina Obrigatória foi modificada e a utilização da vacina tornou-se opcional.

Faltou informação

Além de ser insuflada pelos políticos oportunistas, a população foi levada a protestar contra a campanha de vacinação porque não teve acesso à informação de alerta e esclarecimento sobre a vacina, nem sobre formas de higiene e até mesmo sobre as maneiras de se prevenir.

Então, diante de sua própria ignorância e da truculência do governo, ficou indignada e, por conta disso, houve a insatisfação generalizada contra a vacinação, o que fomentou a Revolta da Vacina.

O Brasil de hoje é bem diferente daquele do início do século 20, de população analfabeta ou semianalfabeta, sem acesso à informação.

Atualmente, o país vive em condições infinitamente melhores, com quase toda a sua população instruída e com acesso instantâneo à informação.

Não faz sentido, pois, a reação de desdém que ainda se vê em relação ao Coronavírus, especialmente quando ela parte de autoridades como o presidente da República, que deveria ser o primeiro a dar o bom exemplo.