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Os sons da cidade

Foto: Reprodução/Internet

Vista aérea de Água Branca, em registro recente

 

Em tempos de coronavírus e de reclusão compulsória, divago para outros temas mais amenos. O noticiário já vem dando conta de tudo, em overdose. Pouco ou nada tenho a acrescentar. Então, como ponto fora da curva, busco esta crônica que escrevi em março de 2016:

“Outro dia, fui passar um final de semana em minha cidade, Água Branca, o que faço com certa frequência. Acompanhava-me um amigo que, como eu, também é de uma pequena aldeia, mais distante de Teresina, perdida no sertão nordestino. E, como um Júlio César romano, veio, viu e venceu!

Muito bem! Era um fim de semana, como já informei, mas ele admirou-se da pujança do comércio e do movimento das ruas, especialmente da quantidade de motocicletas que roncavam para cima e para baixo, umas quase peitando nas outras, como naqueles ‘globos da morte’ de circo. Este é um fato que o visitante mais atento sempre observa ao chegar à cidade. Não é para menos. Água Branca já entrou para as estatísticas como o município com a terceira maior frota de motos do Brasil, proporcionalmente à sua população. 49% dos moradores da cidade têm esse tipo de transporte. 

Recolhido, depois, em minhas lembranças, rodei no vídeotape da memória quais eram os sons de minha cidade quando vivi a minha infância por lá.

Bem, “quando havia galos, noites e quintais”, como na canção do Belchior, o canto do galo trazia a aurora. Logo, logo, começava o tum-tum-tum dos pilões. E os rádios eram ligados. Não demorava, e o sino da igreja começa a bater para a missa das 6 horas.

Durante a manhã, os bem-te-vis davam um concerto soberbo na quinta do “Vovô Zezito”, perto de nossa escola, invadindo um baixão em torno do qual a cidade se deita e se levanta.

Durante o dia, o rádio tomava conta das casas, com seus programas de notícia e entretenimento, o imperdível horóscopo de Omar Cardoso e tantos outros ao gosto popular, até a chegada da televisão, que, com o seu fascínio, foi aos poucos desbancando a audiência radiofônica.

Um escândalo de hora certa

Meio-dia, um jumento dava a hora certa com um relincho tão escandaloso que parecia propagada de governo. Ou candidato xingando o adversário ou implorando voto em cima de palanque.

No fim da tarde, era certa a buzina do expresso na Curva da Bueira, voltando de Teresina para pernoitar na cidade. De tardezinha, também entrava no ar A Voz Cristal de Água Branca, serviço de alto-falante que irradiava para os ouvidos da cidade os últimos sucessos musicais, com canções especialmente dedicadas pelas iniciais dos nomes dos destinatários. Seus principais locutores eram os jovens Francisco Leal e Paulo Henrique. O primeiro projetou-se logo depois no jornalismo do Piauí, tendo sido editor dos principais veículos de comunicação do Estado. Foi pelas suas mãos que ingressei na imprensa, em agosto de 1980.

Na época do inverno, era comum ouvir-se o soprano das rãs adivinhando chuvas e, à noite, o desafio dos cururus pelos quintais e pelos monturos da rua.

Também é desse tempo o ronco da velha usina elétrica que se desligava às 10 horas da noite. Só zoava a noite inteira quando morria um figurão.

Pelas noites da cidade havia também jovens enamorados com vitrolas de mão, rodando na calçada da mulher amada os últimos sucessos da Jovem Guarda. Outros preferiam afagar os ouvidos de suas beldades com violão, que gemia paixão pelos seus bordões.

Nas noites mortas, por muitas vezes, ouvia-se também o latido distante de um cão sem dono ou de outro que uivava fazendo sua solitária serenata para a lua cheia. Ou também o canto triste de uma louca barrida da cidade que saía a cantarolar pelas ruas as desilusões do coração e as amarguras de sua alma... Ou ainda os bilros das rendeiras.

Nos fins de semana, eram comuns também as pelejas dos violeiros nas cantorias de pé de parede, bem como o resfolegar de uma sanfona choradeira em algum arrasta-pé.

Grande era o burburinho da feira, no domingo, belo como uma sinfonia.

Tudo foi substituído pelo barulho das motos e outros mais.

Quais eram os sons da cidade de sua infância?”