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Uma viagem a Marte

Imagem: Reprodução/NASA

 

Uma nova crônica da quarentena, agora escrita pelo professor Jônathas Nunes e publicada por ele no grupo de WhatsApp da Academia Piauiense de Letras, e que compartilho com nossos leitores:

 

“Se eu tivesse bem menos idade, certamente iria me inscrever na NASA  para o processo de escolha dos primeiros astronautas a caminho de Marte. Por que digo isso?

Antes que 2030 desponte na linha do horizonte, os primeiros astronautas com destino a Marte estarão levando a tiracolo a parafernália de recursos do mundo virtual e da inteligência artificial. 

Há fortes conjecturas de que a solidão cósmica poderá desenvolver na tripulação a sensação aterradora de perturbação do psiquismo humano, de esmagamento das potencialidades do cérebro com alteração do ciclo de atividade elétrica e ausência prolongada do regime circadiano.

É certo que esses aprendizes de astronauta passarão por rigorosíssimo processo seletivo. Não somente isso. Submetidos a treinamento intensivo, a provas e testes duríssimos de resistência mental, psíquica e emocional,  e passagem por períodos de quarentena de dois a três meses.

É óbvio que muitos poderão se interessar por empreitada original e inédita como esta, embora seja certo que todo o arsenal de armas da neuropsiquiatria será utilizado na filtragem dos primeiros candidatos a astronauta.

Quarentena

De minha parte, como sabido de todos, estou submetido presentemente a rigorosa quarentena provavelmente de mais de mês. Vejo que minhas condições psíquicas, do meu ponto de vista, parecem se conformar às exigências dos padrões da NASA. 

Por que me animo a fazer esta afirmação? Tendo já vivido ao menos duas quarentenas, observo ao fim e ao cabo, que, além desse fato, ainda bem jovem, assim quis o destino, passei por uma espécie de semi-isolamento  de dois anos e meio, em circunstâncias tais que evidenciam a resiliência  do ser humano em situação de risco de natureza variada.

Explico. Jovem tenente do exército, meus primeiros dois anos e meio na tropa foram no Quartel de Amaralina, em  Salvador. Tendo que morar em pensão no centro da cidade, bem distante do Quartel, a alternativa aos quatro jovens oficiais chegados foi irmos morar numa casa velha do Exército, virtualmente caindo aos pedaços, abandonada, distante uns duzentos metros do Quartel.

Isolamento

Após umas poucas semanas, no entanto, nos foi oferecido um quarto bem equipado, dentro do Quartel. Os três colegas aceitaram. Eu declinei. Minhas atividades intelectuais estavam a exigir um quarto exclusivo, ainda que em péssimas condições de habitabilidade, mas onde poderia espalhar os livros, revistas e jornais e ficar até tarde da noite lendo. Optei por continuar morando nessa casa velha ou pardieiro, sem calçada em volta, só mato no entorno, a rigor um tanto mal-assombrada, isolada, sem casa nenhuma por perto.

E assim fiquei dois anos e meio, morando sozinho nessa casa, sem conforto algum, sem rádio, sem televisão, sem geladeira, sem fogão, sem água, sem a mínima segurança, praticamente incomunicável.

Nos dois anos e meio ali vividos nunca recebi a visita de colega algum, nem mesmo do Quartel. Meu comandante, Major Germano Seidl Vidal, foi uma única vez lá dar uma espiada e me lembro de ter ficado horrorizado como eu me dispunha a ficar morando num lugar tão insalubre e naquelas condições, até sem água encanada.

Segurança precária, sem ter para quem apelar numa emergência, toda noite dormia com a pistola Colt 45 debaixo do travesseiro e o carregador cheio de bala.

Uma vaga no espaço

Hoje, no retrovisor do tempo, vejo que ao longo da vida tenho mostrado certa capacidade física e mental de me adaptar a condições as mais adversas.

Assim sendo, não fosse pela idade, estaria eu hoje, talvez, me credenciando a disputar uma vaga na primeira espaçonave que aí por volta de 2028/29 estará decolando de Cabo Canaveral, na Flórida, com destino ao Planeta Vermelho.

Estava eu divagando nesses planos de viagem ao espaço, quando o celular toca. Era o netinho Tutu, de cinco anos, dizendo: “Daddy você é meu”.

Os planos desabaram como castelo em areia movediça."