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Bolsonaro desiste de demitir ministro da Saúde

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Bolsonaro ameaça, mas não demite ministro

 

Em meio à crise do coronavírus, o Brasil viveu ontem um dia de tensão política e expectativa.

Na véspera, o presidente Jair Bolsonaro avisou que, a qualquer momento, poderia usar a sua caneta bic para exonerar auxiliar que, segundo ele, o poder lhe subiu à cabeça e se acha estrela.

A declaração do presidente foi vista como um recado curto e grosso ao ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, cujo desempenho no combate ao Covid-19 vem sendo elogiado por muitos, especialmente porque ele se orienta por critérios técnicos.

Rota de colisão

Ao longo dessa crise na saúde, o presidente e o seu ministro já apareceram várias vezes em rota de colisão.

Mandetta orientou e defende o isolamento social, uma medida que vem sendo recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e adotada por todos os países afetados pela pandemia.

Já o presidente é contra. Para ele, deveriam estar isolados os grupos de risco, especialmente os idosos. O mais deveria estar funcionando normalmente.

O presidente não está só na defesa desta tese. Vários especialistas também concordam que ela seria o bastante, pois o isolamento total e prolongado acaba sendo mais danoso que o vírus.

Descompasso

O fato é que o próprio governo não se entende. O Ministério da Saúde caminha para um lado e o presidente para o outro, na questão do enfrentamento do Covid-19.

Não é de hoje também que o debate sobre a questão está politizado. E de uma forma muito radical.

O presidente estaria sendo criticado da mesma forma se estivesse apoiando as medidas do seu ministro da Saúde. Ou se tivesse cruzado os braços.

Em uma situação dessas, porém, sendo sempre desautorizado pelo chefe e até levado ao constrangimento público, qualquer ministro com o mínimo de simacol já teria pedido exoneração.

É a regra básica de qualquer atividade, pública ou privada: não dá para trabalhar com quem desautoriza a sua ação ou não confia em seu serviço.

Queda anunciada

Durante toda a tarde, a gritaria foi grande nas redes sociais, com uma reação violenta à eventual demissão do ministro da Saúde, que chegou a ser noticiada por grandes veículos de comunicação, em seus portais de notícia. Chegou a ser escalado até o nome do substituto.

Os principais críticos da exoneração foram, naturalmente, os adversários do presidente.

O caso, porém, é que houve uma reunião de Bolsonaro com o seu ministério, no final da tarde, e a exoneração do ministro da Saúde não se confirmou. Ele continua na linha de frente do combate ao coronavírus.  

A cabeça do presidente

Mais uma vez, o Brasil não perde a oportunidade de reafirmar a sua condição de país surrealista.

O presidente da República não pode demitir um ministro de Estado, qualquer que seja ele, por qualquer que seja o motivo.

No entanto, todos os que se revoltam contra o seu poder constitucional de nomear e exonerar ocupantes de cargo de confiança em seu governo se acharam com poder e no direito de pedir a cabeça do presidente.