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A Era da Intolerância

Imagem: Reprodução/Folha-Uol

 

Nestes dias de quarentena, que abreviam as atividades cotidianas, tento colocar em dia trabalhos que vinham sendo postergados e também faço leituras e releituras.

Entre estas, destaco Cinquenta anos esta noite, do senador e ex-ministro José Serra, com apresentação do poeta Ferreira Gullar. O livro foi lançado em 2014, na passagem dos 50 anos do golpe militar de 1964, e traz as memórias do senador sobre o movimento e suas consequências.

À época, Serra tinha 22 anos, era estudante de Engenharia e presidia a União Nacional dos Estudantes (UNE). A entidade teve uma participação ativa na vida política do Brasil, sobretudo, naqueles conturbados idos de 64.

Com o golpe, ele teve que sair do Brasil e passou 13 anos no exílio. Voltou formado em Economia, com mestrado e doutorado, depois de comer o pão que o diabo amassou e de ser professor em universidades do Chile e dos Estados Unidos.

Daí para frente, sua história já é mais conhecida: foi deputado federal constituinte, prefeito e governador de São Paulo e ministro da Saúde e do Planejamento, além de candidato a presidente da República, pelo PSDB, em 2002, sendo derrotado por Lula.

Como ministro da Saúde, Serra marcou por sua luta contra o tabagismo, obrigando a poderosa indústria do setor a estampar nas carteiras de cigarro o aviso dos seus malefícios Isso reduziu extraordinariamente o número de fumantes no país.

Outra luta sua foi para fazer valer a lei dos medicamentos genéricos, peitando os interesses da gigantesca indústria farmacêutica.Isso reduziu significaivamente os preços dos remédios.

Debate

Não é disso, porém, que vou falar. É sobre um episódio curioso de seu livro, envolvendo o jornalista e empresário Ruy Mesquita, da família proprietária do jornal ‘O Estado de São Paulo’, o Estadão.

O autor conta que, em 1962, o jornalista se dispôs a participar de um debate com universitários da PUC de São Paulo, em um auditório tomado por jovens estudantes de esquerda.

“Naquela noite, cerca de 90% dos estudantes estavam do nosso lado, com faixas, frases de João XXIII e a imagem de Cristo nas paredes, todos contra Ruy Mesquita”, recorda, assinalando:

“E faziam questão de vocalizar esse fato, embora sem malcriação, com murmúrios substituindo vaias. Ele não se abalava. Apesar de considerá-lo porta-voz da imprensa reacionária, não deixei de admirá-lo pela coragem e pela força de suas convicções, tanto mais porque sozinho e num ambiente hostil”.

Radicalização

O autor conclui que, embora o conflito ideológico na década de 1960 fosse muito mais acentuado do que no Brasil de hoje, havia bem mais interesse e tolerância nos debates das universidades.

“É o contrário do que se vê nos dias que correm, especialmente nas faculdades públicas, entre pessoas que pensam parecido.

Não é raro que dois supostos debatedores disputem apenas o posto de mais radical da mesa, como se o excesso de convicção tornasse certo o que está errado”, avalia.

O senador encerra a história contando que, a propósito dessa passagem com Ruy Mesquita, um amigo seu, de esquerda, observou:

“Esse embate seria impossível hoje em dia. O Ruy não seria convidado. Se fosse, não o deixariam falar. Há uma diferença entre a informação convicta e a ignorância convicta. A primeira é tolerante; a segunda, não”.

E o que dizer dessas discussões, quando transferidas ou ampliadas para o espaço público das chamadas redes sociais, onde são travadas da forma mais febril e num exercício permanente de intolerância?

Elas se tornam, no mínimo, interessantes, ao ponto até de se ver gente que não conhece os poderes medicinais do chá de erva cidreira arriscando-se a dar opinião, com a maior convicção científica do mundo, sobre a hidroxicloroquina, o assunto do momento. E por aí vai! Tudo para marcar uma posição política.