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Brasileiro cordial, uma ova!

Imagem: Reprodução

Operários, de Tarsila do Amaral (1933), ilustrou a capa de várias edições do livro

 

Em seu livro “Raízes do Brasil”, publicado em 1936, com dezenas de reedições até aqui e transformado em clássico, o historiador Sérgio Buarque de Holanda apresentou a figura do “brasileiro cordial”.

De acordo com esse conceito, virtudes nacionais tão elogiadas por estrangeiros, como hospitalidade e generosidade, representam “um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece viva e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano”.

O “homem cordial” é, segundo sua definição, “a forma natural e viva que se converteu em fórmula”. 

Com tal conceito, ele procura, pois, definir a personalidade alegre, agregadora e tolerante que se atribui ao brasileiro. Mas tal definição deixa muita gente com o pé atrás e de orelha em pé.

Há quem interprete que, no caráter etimológico defendido pelo autor, não é exatamente “cortês” ou “bondoso” o que definiria o brasileiro. “Cordial” viria de coração. Ou seja, é o tipo de pessoa que se orienta de forma passional – portanto, emocional – muito mais do que pela racionalidade.

A vida como ela é

Na vida real, não faltam exemplos para confirmar essa visão. Eles se propagam de forma assustadora e escandalosa nos últimos tempos.

“A relação conflituosa entre o amor e o ódio tem levado às ruas atitudes que desconhecem os limites do bom senso. Perdemos a vergonha da nossa vergonha e agora gritamos ao mundo a revolta generalizada contra tudo e contra todos”, analisa na Revista Fórum a jornalista Maíra Streit, especializada na cobertura de temas voltados para os direitos humanos.

Ela sustenta que, no debate político, “importamos do futebol a rivalidade e os palavrões; das novelas, vieram os arquétipos de “mocinhos” e “vilões” e seu consequente maniqueísmo simplificador”.

Guerra virtual

A jornalista chama a atenção para o fato de que, aquele que se diz “do lado do bem” é o mesmo que pede cadeia para adolescentes, pena de morte, justiçamento, repressão a homossexuais. “É o mesmo que objetifica as mulheres, faz piadas racistas, fura a fila e, se possível, “molha a mão” do guarda para se livrar de uma multa.”

Esse mesmo tipo não se envergonha de berrar em defesa de políticos condenados por crimes de corrupção ou abraçar tipos populistas, demagogos e salafrários que vendem promessas fáceis para problemas complexos.

Esse mesmo tipo é, ainda, o que usa anonimamente as redes sociais para destilar sua ideologia raivosa contra potenciais inimigos, mas, claro, colocando-se como exemplo pronto e acabado da mais absoluta e fina retidão moral e ética.

Na verdade, o espírito de beligerância do “brasileiro cordial” se acentuou de forma brutal nos últimos anos, especialmente nas mídias sociais, que se tornaram uma praça de guerra virtual. Do pescoço para baixo, tudo é canela.

Ulysses no Piauí

Na campanha presidencial de 1989, a primeira depois do golpe militar de 1964, o candidato do PMDB, deputado Ulysses Guimarães, foi chamado de velho pelo candidato do PMN, Fernando Collor, então líder disparado nas pesquisas de intenção de voto.

O deputado deu sua resposta no Piauí, em comício realizado em Oeiras. Eu estava lá, fazendo a cobertura da visita de Ulysses ao Estado para o jornal Correio Braziliense e para a TV Clube (a reportagem saiu também no Jornal Nacional).  

A visita de Ulysses ao Piaui, em campanha eleitoral, foi organizada pelo então prefeito de Teresina, Heráclito Fortes, amigo do candidato. Na época, o PMDB piauiense, puxado pelo cabresto pelo governador Alberto Silva, estava no palanque de Collor. Mas aí já é outra história.

O fato é que a caravana peemedebista foi a Oeiras e, antes, fez uma escala em Floriano, para um ato político organizado pelo ex-deputado Filadelfo Freire de Castro.

Lá em Oeiras, no comício montado pelo ex-prefeito B. Sá, registrei para todo o Brasil a resposta do Dr. Ulysses a Collor: “É preciso saber, primeiro, o que cada um fez de sua idade. Sou velho, uma ova!”

Nestes tempos de coronavírus, repito então o velho e sábio Uysses: brasileiro cordial, uma ova!