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Zé de Castro: missão cumprida

Quando comecei a fazer a cobertura da Assembleia Legislativa, em meados da década de 80, já na atual sede, o Palácio Petrônio Portella, ele não exercia mais mandato. Havia pendurado as chuteiras e passado o bastão para um de seus filhos. Mas eu sabia que ele era um dos expoentes políticos de sua geração. Uma geração nascida nos sertões ermos do Piauí, curtida na adversidade da terra árida e na dura luta de sua brava gente. Uma geração que deu políticos de sabedoria incomum. Por isso mesmo, ganhou na Assembleia o título de “Universidade de São Raimundo Nonato”, na qual ele pontificou como reitor honorário, ao lado de outros como Waldemar Macedo, Newton Macedo, Gaspar Ferreira e Batista Dias.

O personagem de quem falo é Zé de Castro, que se despediu esta semana de nosso convívio, aos 92 anos, depois de cumprir a sua missão terrestre, durante a qual exerceu os mandatos de vereador e prefeito de São Raimundo Nonato e também o de deputado estadual, por três legislaturas, de 1966 a 1978 .

Foi casado com Clotildes Costa e Castro, com quem teve sete filhos. Foi para um deles, Marcelo Castro, que entregou em 1982 o bastão político, carregado com sucesso, brilhantismo e zelo pelo filho, no exercício dos mandatos eletivos e de cargos públicos, entre os quais o de ministro da Saúde.

Mesmo sem cadeira na Assembleia, Zé de Castro era presença constante no plenário. Acompanhava com vivo interesse as sessões, batia papo no cafezinho e dava pitacos sobre a política. Sempre atencioso, conversador, irreverente e bem-humorado. Ultimamente, batia ponto no Senadinho do Teresina Shopping, onde animava a roda com suas conversas e suas tiradas filosóficas.

Quem não tem dinheiro para fazer campanha eleitoral é inelegível”; “O carro mais econômico é o oficial”. Estas e outras estão entre suas máximas.

Acorda, compadre!

Uma vez, Zé de Castro fazia campanha em São Raimundo Nonato. Chegou à noitinha na casa de um compadre que estava querendo pular para o lado adversário. Ele parou o carro no terreiro, bateu na porta do compadre, mas este não respondeu. Zé de Castro então jogou o laço, falando alto para seu motorista:

- É, vamos embora! Trouxe aqui esse pacote de dinheiro para o compadre, mas parece que ele não tá em casa.

Imediatamente, o compadre pigarreou de dentro de casa e acendeu o lampião.

Sinal vermelho

Outra vez, Zé de Castro deu ordem ao motorista que invadisse o sinal vermelho, em Teresina, pois tinha pressa de chegar a um compromisso. O guarda apareceu do nada e apitou mandando parar o carro. E se aproximou, já com o bloco de multa na mão e a bronca na boca:

- Vocês não viram o sinal fechado, não?

Zé de Castro: - O sinal nós vimos, seu guarda. Nós não vimos foi o senhor!

 

É desse Zé de Castro e suas tiradas fabulosas que vou lembrar sempre, com saudade.