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Campanha busca preservação da caatinga

Caatinga piauiense, em foto de André Pessoa

O arcebispo metropolitano de Teresina, dom Jacinto Brito, abre hoje para a comunidade a Campanha da Fraternidade 2017, com missa campal marcada para as 17 horas, no Parque da Cidadania, no Centro. Este ano, o tema da campanha é "Fraternidade: biomas brasileiros e a defesa da vida".

A CF-2017, cujo lema é “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2.15), alerta para o cuidado com o planeta, de modo especial os biomas brasileiros. A proposta é dar ênfase à diversidade de cada bioma e criar relações respeitosas com a vida e a cultura dos povos que neles habitam, especialmente à luz do Evangelho.

Para a Igreja Católica, a depredação dos biomas é a manifestação da crise ecológica que pede uma profunda conversão interior. A CF deseja, antes de tudo, levar à admiração, para que todo o cristão seja um cultivador e guardador da obra criada.

A campanha será difundida pela Igreja Católica durante o período da quaresma.

Bioma estigmatizado

O bioma caatinga encontra-se envolvido pelo clima semiárido, na estreita faixa entre a Mata Atlântica e o Cerrado. O semiárido abrange uma área de 969.589 quilômetros quadrados, predominantemente territórios de oito estados (Alagoas, Bahia, Ceará, Pernanbuco, Paraíba, Piauí, Rio Grande do Norte e Sergipe, mais o Norte de Minas).

Nessa região estão localizados 1.135 municípios, onde vivem cerca de 27 milhões de pessoas. Isto é, aproximadamente 46% da população do Nordeste. O assessor da CF-2017, Roberto Malvezzi, chama a atenção para alguns aspectos desse bioma:

“É importante observar que o semiárido, clima da caatinga, é relativamente mais amplo do que o próprio bioma. Trata-se do bioma brasileiro mais estigmatizado, sobre o qual se tem mais preconceitos”.

Segundo ele, isso se dá por uma compreensão equivocada. “Durante séculos, foi criada no imaginário nacional a idéia de uma região seca, miserável, de gente vivendo à míngua e gado morrendo de fome e sede”, observa.

O assessor da Campanha da Fraternidade assinala, ainda: “Com longas secas, vinham as grandes migrações, além de intensa mortalidade infantil. Essa tragédia social, cantada nas músicas, na literatura, na pintura, ainda hoje predomina no imaginário de amplas parcelas da população brasileira”.

 

Cisterna: solução simples e barata para combater os efeitos da seca no semiárido (Foto: Cáritas do Brasil)

A virada da caatinga

Roberto Malvezzi destaca que o bioma caatinga desenvolveu imensa e inteligente capacidade de reproduzir milhares de espécies de vida vegetal e animal muito bem adaptadas ao ambiente e ao clima. “A caatinga, nos tempos sem chuva, adormece, hiberna , despertando somente nas próximas chuvas”, lembra.

Hoje, “com o paradigma da convivência com o semiárido”, a região recebeu mais de um milhão de cisternas de captação da água da chuva. O programa foi idealizado, lançado e executado pela Cáritas Brasileira. Também foram realizadas mais de 200 mil obras com tecnologias para guardar a água de chuva para a produção, além de ter sido desenvolvida uma agroecologia apropriada para esse ambiente.

Piauí, 3º em devastação

O Ministério do Meio Ambiente divulgou um relatório em 2010 mostrando que o Piauí era o terceiro Estado do Brasil que mais desmatava a área de caatinga. No levantamento, o Piauí aparece com 30,25% de área de caatinga destruída. 

No artigo “Caatinga: um bioma entre a devastação e a conservação”, escrito por Maria Marta Avancini e Glória Tega e publicado no site da Universidade Federal de Pernambuco, as autoras mostram que o avanço da fronteira agrícola significa desmatamento, fragilizando ainda mais o delicado equilíbrio climático da Caatinga. “

No caso do Piauí, afirma o IBGE, boa parte do desmatamento é feito para viabilizar a agricultura familiar, mas o agronegócio também começa a ganhar espaço na região, intensificando os impactos ambientais. Em 2009, por exemplo, foram identificados 3,9 mil focos de calor no Piauí contra 3,5 mil em 2004, de acordo com o IBGE.

As pesquisadoras afirmam também que a exploração de carvão é outro fator que contribui para acelerar o desmatamento. Novamente, o estado do Piauí é o cenário de devastação, exemplificando um processo que se repete em outras partes da Caatinga.

Em 2006, foi implantado na região da Serra Vermelha o projeto Energia Verde, com aprovação do Ministério do Meio Ambiente e da Secretaria Estadual do Meio Ambiente, prevendo o desmatamento de 78 mil hectares de matas nativas para a produção de carvão vegetal.

O projeto acabou envolvido em uma série de irregularidades ambientais e trabalhistas, como o uso comprovado de trabalho escravo. Por isso, foi suspenso pela Justiça, mas não houve a interrupção da exploração de carvão. 

Os fornos que queimavam as matas da caatinga piauiense, em foto de André Pessoa