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Vai-se o homem, fica o exemplo

Foto: Reprodução Cidadeverde.com

Ex-governador Bona Medeiros: exemplos que ficam

Governador, ele ia para a sua cidade, nos fins de semana, guiando o próprio carro. Quando deixou o Palácio de Karnak, foi para casa também dirigindo o seu automóvel particular. Este um dos traços que o tornaram um político singular no Piauí. Entre os que o conheceram, há os que lhe realçam a lealdade, a amizade e a dignidade como marcas de sua personalidade. De fato, eram atributos muito acentuados em seu espírito. Porém, eu, particularmente, lembro o político austero, coerente e firme, especialmente nesta época conturbada e de pouco zelo pela coisa pública.

Contei que ele, como governador, dirigia o seu próprio automóvel para visitar sua terra, mas sei de outros gestos que assinalavam a sua simplicidade e o desapego ao poder. Uma vez, por exemplo, estava com viagem marcada a Recife, para reunião dos governadores nordestinos no Conselho Deliberativo da Sudene. De lá iria a um compromisso social particular, acho que a um casamento. Sua mulher, professora Helena Conde Medeiros, o acompanharia. Quando sua assessoria entregou-lhe os bilhetes das passagens aéreas, ele observou que a de sua esposa fora comprada pelo governo. Imediatamente, mandou devolver a passagem e comprou uma nova para a primeira-dama, paga do próprio bolso. E não deu qualquer publicidade a isso. Soube do episódio porque, desde cedo aprendi, a cultivar boas fontes no governo e fora dele. Outros saberão relatar muitos outros episódios como esse.

O personagem de quem falo é, naturalmente, José Raimundo Bona Medeiros – Zé Raimundo para os mais próximos e Bona Medeiros para nós, da imprensa. O Piauí se despediu dele ontem. O ex-governador faleceu no início da noite de quinta-feira, aos 86 anos, em casa, vítima de infarto, e o seu corpo foi sepultado ontem em União, a sua terra natal, depois de ser velado no Salão Nobre da Assembleia Legislativa.

Vitórias e derrotas

Nascido em União, em 24 de dezembro de 1930, José Raimundo Bona Medeiros era filho do ex-prefeito Antônio Medeiros, próspero comerciante da cidade. Advogado, não era muito expansivo no trato pessoal. Mesmo com o seu jeito contido, angariou votos para exercer seis mandatos de deputado estadual. Em um deles, presidiu a Assembleia Legislativa. Iniciou a sua militância na velha UDN, depois passou para a Arena, o PDS e o PFL.

Foi prefeito de Teresina duas vezes – no final dos anos 60, e depois entre 1979 e 1982, governando com critérios de seriedade e honradez. Deixou a Prefeitura para efeito de desincompatibilização e concorreu ao cargo de vice-governador, na chapa encabeçada pelo deputado federal Hugo Napoleão. Com a renúncia de Hugo para concorrer ao Senado, em 1986, ele assumiu o governo.

Depois da posse, trocou um coquetel pela primeira reunião de trabalho com o seu secretariado. Justificava que tinha pressa em iniciar rapidamente o trabalho para poder realizar alguma coisa durante seu período administrativo, de apenas dez meses. Também queria que a equipe se conhecesse e começasse logo a se entrosar.

Por último, queria a fixação imediata de normas de trabalho, planos e metas de governo. No Palácio de Karnak, era o primeiro a chegar ao expediente e o último a sair.

Depois de concluir o mandato de governador, cumpriu uma quarentena política e elegeu-se novamente deputado estadual, em 1990. Candidato a prefeito de União, em 2000, não se elegeu. Viu o sonho de governar a sua terra ser realizado através de seu filho Gustavo Medeiros, que se elegeu prefeito em 2004 e em 2012.

Eleição sem máquina

Os gestos que caracterizavam a austeridade e a simplicidade de Bona Medeiros, aqui relatados, eram do conhecimento apenas dos que acompanham mais de perto e há mais tempo o cotidiano da política e da administração pública estadual.

Nos meios políticos, o mais conhecido de todos é o da eleição de 1986. Foi uma campanha acirrada entre o PFL e o PMDB. O candidato do governo, deputado federal Freitas Neto, perdeu a eleição para o senador peemedebista Alberto Silva por uma diferença de apenas 1 por cento dos votos. E muitos políticos governistas quiseram crucificar o governador Bona Medeiros por ele não ter usado a máquina governamental na campanha eleitoral a favor de seu candidato.

Esqueceram-se completamente do que ele dissera no discurso de posse como governador, na Assembleia Legislativa, em maio de 1986: “Fiel a mim mesmo, governarei com simplicidade, austeridade, economia e total dedicação ao bem público, que é o bem de todos nós”.

Isso não significava, entretanto, qualquer prevenção contra os políticos, como ele próprio esclareceria, naquela ocasião: “Quero dizer que a administração que ora se inicia tem compromissos políticos. Sou político e, portanto, não posso ver com maus olhos os políticos e a política.”

E, para que não houvesse dúvida quanto ao seu estilo de governar, advertia, ainda: “Mas a política que praticamos não se baseia na troca de favores escusos, nem acoberta a corrupção. Quando o interesse público se chocar com o de um particular, não tenham dúvidas de que prevalecerá o primeiro.”

Os correligionários de Bona Medeiros ou não se lembraram disso, depois das eleições, ou por certo avaliaram que, em seu discurso de posse, o governador estava apenas jogando palavras ao vento, como tantos outros políticos. 

Sem poder e sem voz

Como é de praxe, o novo governo que assumiu em março de 1987 carregou nas críticas à administração passada. No Brasil, só um governador não falou mal do antecessor: foi Tomé de Souza, o primeiro governador-geral, como lembrava, em tom de brincadeira, o veterano deputado Humberto Reis da Silveira, de saudosa memória.

A imprensa local, de um modo geral e com raras exceções, dava ampla repercussão aos ataques à administração Bona Medeiros, mas não dava voz ao ex-governador para se defender.

Por essa época, eu apresentava com o jornalista Arimateia Azevedo um programa de grande audiência na Difusora, o ‘Cidade Livre’, fundado pelo jornalista Carlos Augusto. E fazíamos muitas críticas ao governo, tanto ao dele, Bona Medeiros, como ao que o sucedera, o de Alberto Silva.

Um dia, liguei para o ex-governador Bona Medeiros, combinei uma entrevista com ele por telefone e, antes de iniciá-la, pedi-lhe: “Pode sentar, porque vai demorar”. Ai ele respondeu a todas as perguntas formuladas por nós e também às críticas e aos ataques feitos ao seu governo. Naquele dia, nossa audiência foi estrondosa. Depois, ele comentou com um ex-assessor:

- Pra você ver: com tanta gente na imprensa que eu tinha como amigo, é esse aí que me dá espaço e me deixa à vontade para me defender.

Isso certamente porque eu e Arimatéia Azevedo tínhamos, àquela época, a fama de albertistas.

Se em 1986 um político com as características de Bona Medeiros já incomodava os carreiristas e fisiologistas, imagine nos dias de hoje. É desses, porém, que a atividade pública precisa, cada vez mais, até para se fazer respeitada.

Que o seu exemplo inspire muitos outros políticos que abraçam a vida pública como uma missão, a de servir.