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Friboi quis fazer um churrasco de presidente

Foto: José Cruz/Agência Brasil

O presidente Michel Temer faz novo pronunciamento

O presidente Michel Temer precisará de fôlego de sete gatos para sobreviver ao tsunami que invadiu o Palácio do Planalto desde quarta-feira à noite.

A sua renúncia era dada como certa para quinta-feira, depois que a Rede Globo divulgou, no plantão do Jornal Nacional, a notícia de que o presidente fora grampeado em uma conversa comprometedora com o empresário Joesley Batista, dono da JBS, proprietária do frigorífico Friboi.

Divulgada a gravação do diálogo, na noite de quinta, não confirmou-se o presidente dando aval para comprar o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha para obstruir a Lava-Jato, como havia sido noticiado na véspera. Nem se confirmaram outras acusações feitas e repetidas contra ele na imprensa durante 24 horas.

Sobrevida

Isso deu uma sobrevida ao presidente, como outros fatos que se sucederam nas horas seguintes. Um deles deu conta de que o delator que tocou fogo no país, quis fazer um churrasco do presidente da República e se mandou para os Estados Unidos, lucrou fábulas com a crise política gerada por ele mesmo.

Antes de entregar a gravação ao Ministério Público, o grupo JBS comprou 1 bilhão de dólares porque sabia que o escândalo provocaria o caos no câmbio. Sabendo também que a divulgação da gravação reduziria o valor das ações da empresa,tratou de vendê-las antes da queda da Bolsa, conforme denunciou ontem o presidente, em novo pronunciamento.

Outro ponto a favor de Temer: uma perícia encomendada pelo jornal Folha de S. Paulo descobriu que a gravação de sua conversa com o empresário recebeu mais de 50 edições. Portanto, um material adulterado supostamente para incriminá-lo.

Também favorece a defesa do presidente o fato de a gravação ter sido feita antes da delação, portanto, sem valor legal. Algo semelhante ao que aconteceu naquele diálogo da presidente Dilma com o ex-presidente Lula, gravado fora do horário coberto pela autorização da Justiça e sem o aval do Supremo.

Delação premiada

Também foi novidade para os brasileiros, nesse episódio envolvendo o dono da Friboi, a homologação da delação com benefícios jamais vistos durante todo processo da Lava-Jato. Um deles é que a delação foi feita sem que os delatores tenham sido presos. O outro foi a permissão para eles deixarem o país.

Ainda não se sabe qual é a estratégia do Ministério Público Federal para o caso, mas ela terá que valer a pena.

Bombardeio não para

Ontem, em seu novo pronunciamento, que pouco acrescentou ao primeiro, de quinta-feira à noite, o presidente reafirmou que não renuncia. De novo mesmo foi o anúncio de que pediria a suspensão do inquérito aberto contra ele pelo Supremo.

Como tem convicção de sua inocência, Michel Temer teria se saído melhor se tivesse reiterado que a investigação deve ser realizada o quanto antes, com o máximo rigor, para elucidar os fatos.

As provas concretas contra o presidente, se existem, ainda não apareceram, mas muitas dúvidas pairam em torno do episódio. Ele ainda não explicou, por exemplo, por que recebeu na calada da noite, na residência oficial, um empresário bichado na Lava-Jato.Nem porque se sujeitou a ouvir tudo o que ele disse.

É certo que o bombardeio contra Temer não cessará. O Planalto passa o fim de semana com uma força-tarefa para tentar recompor a base parlamentar do presidente, que, por enquanto, se sustenta em sua teimosia e no fato de que pela via legal sua queda não se faz num piscar de olhos.

Diferente, porém, da presidente Dilma, ele é um político matreiro, que conhece o Congresso e as leis como a palma da mão. Aí está a sua chance.