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Uma noite que não acabou

Foto:Agência Brasil

Temer faz pronunciamento após denúncias

Era 7 de março de 2017. Depois de mais um dia de intensas atividades, no Palácio do Planalto, o presidente Michel Temer retornava à residência oficial, o Palácio Jaburu. Passava das 22 horas. Antes, dera uma esticada até à festa em que o jornalista Ricardo Noblat, um dos mais influentes de Brasília, comemorava seus 50 anos de jornalismo.

No Jaburu, o empresário Joesley Batista, dono do grupo JBS-Friboi, aguardava o presidente, para uma conversa que, conforme a versão oficial, teria sido agendada pelo deputado federal Rocha Loures (PMDB-PR), ex-assessor especial de Temer. Na última hora, no entanto, o parlamentar não pode comparecer.

Pela garagem

O empresário entrou pela garagem. Conforme ainda a versão oficial, o número da placa de seu carro já havia sido repassado à segurança, com a orientação para trânsito livre. Não era, afinal, um qualquer. Tratava-se do dono do segundo maior conglomerado empresarial do Brasil – atrás apenas da Petrobras.

Um grupo que vendia para mais de 150 países, com um faturamento anual na casa dos R$ 170 bilhões. Um grupo que teve um crescimento de 3.400% em dez anos, com o dinheiro amigo do BNDES. E que, além de tudo, tinha a fama e o costume de abastecer os caixas dos políticos nas campanhas eleitorais.

Delação premiadíssima

Joesley aguardava o presidente dentro do carro, ouvindo a rádio CBN. Mas ele não ligou apenas o rádio do carro. Ligou também um minigravador que conduzia escondido em seu bolso e com o qual, a seguir, gravaria sorrateiramente a sua conversa com o presidente da República.

Com a gravação em mãos, o empresário acertou com o Ministério Público Federal uma delação sem precedentes. De muito bom grado, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, aceitou as condições do delator, que já era investigado em cinco inquéritos na Operação Lava-Jato.

No acordo feito com o MPF, referendado pelo ministro Édson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, graças à gravação, Joesley Batista recebia o perdão pelos mais de 240 crimes que confessou ter praticado e recebia também autorização para se mandar do país na hora que bem entendesse.

O empresário cuidou, então, de organizar seus negócios nos Estados Unidos, para onde transferiu a sede de seu grupo. Teve tempo também para mandar seu iate de luxo para o exterior.

A bomba

Quando, enfim, a bomba estourou, no dia 17 de maio, na Rede Globo, da qual o grupo Friboi era um dos maiores anunciantes, Joesley já estava longe. O empresário aproveitou, porém, para comprar milhões em dólares na véspera e, com isso, ganhar mais dinheiro com a crise que ele mesmo fabricara.

No dia seguinte, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) sofreria seu maior baque, ao ponto de ter que ser fechada para não quebrar. E a economia do país, que começava a dar sinais de recuperação, apresentava uma recaída brutal.

Tratado como herói nacional pela PGR, por ter delatado mais de 1.800 políticos que supostamente receberam dinheiro de seu grupo, Joesley ajustou a mira de sua metralhadora na direção do presidente Michel Temer e do presidente do PSDB, senador Aécio Neves.

Na corda bomba

Desde então, o presidente vive na corda bamba, alvo de um bombardeio diário do Ministério Público, da oposição e da imprensa. Outro já teria jogado a toalha. Mas ele contesta com veemência as acusações e garante que só sai derrubado.

Com a divulgação dos áudios, nota-se que, por cansaço ou por esperteza, o presidente pouco falou durante o encontro. Mas o pouco que disse ou balbuciou foi interpretado pelo Ministério Público Federal como uma tentativa de comprar o silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB), preso pela Lava-Jato, e obstrução da Justiça.

Os peritos não se entenderam sobre o conteúdo da gravação, de qualidade duvidosa. Nem os oficiais nem os particulares. O MPF, entretanto, firmou a sua convicção e fez de Temer o primeiro presidente denunciado no Supremo por crime comum durante o exercício do cargo.

Hoje faz quatro meses do malfadado encontro do presidente com Joesley Batista. Um dia que certamente o presidente gostaria que não tivesse existido, pois aquele 7 de março findou sendo um dia que não acabou.