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As muitas faces de Teresina

Vivendo minha infância e minha adolescência em Água Branca, Teresina era, para mim, uma cidade grande e distante. Não me passava pela cabeça a mínima ideia de um dia morar nela. Minha pequena cidade era meu mundo e me bastava.

Meu pai, porém, tinha outros planos para seu filho mais velho. Então, quando estava concluindo o ginásio, em 1977, ele me disse que eu continuaria os estudos na capital.

Inscrevi-me no teste seletivo da Escola Técnica Federal do Piauí, hoje IFPI, e consegui aprovação. No início de 1978, aos 16 anos incompletos, eu me mudava para Teresina. Minha bagagem era de sonhos e saudade.

Aos poucos fui me adaptando à cidade, aprendendo a conviver com ela, e também passando a entender suas manhas e manias. 

Hoje, Teresina vive em mim como viveu intensamente no coração de seu cronista mais apaixonado, o saudoso professor Arimatéa Tito Filho, também chamado de “cronista da cidade amada”.

Cidade Verde

Coelho Neto, o aclamado escritor maranhense, passou por Teresina em 1899, quase 50 anos depois da fundação da cidade.

Encantou-se com a capital planejada que avultava e crescia na Chapada do Corisco e batizou-a de “Cidade Verde”.

Pode ter sido uma referência à exuberante vegetação que vestia a capital.

Mas talvez o poeta a tenha chamado metaforicamente de “verde” em referência à esperança, como a indicar o futuro radioso da nova capital.   

Outro poeta, este piauiense, fundador de nossa Academia Piauiense de Letras, Lucídio Freitas, viveu pouco, mas andou muito.

Ele é um dos dez biografados em meu livro “Sociedade dos Poetas Trágicos”, lançado em 2004 e relançado em 2006.

Lucídio Freitas morou em Belém do Pará, no Rio e em outras cidades brasileiras.

Fora do Piauí, ele escreveu sua “Canção do Exílio”, intitulada “Teresina”. Eis os versos iniciais de seu magnífico soneto:

 

Teresina apagou-se na distância,

Ficou longe de mim adormecida,

Guardando a alma do sol da minha infância

E o minuto melhor da minha vida.

 

Entre os rios

Ele viveu num tempo em que Teresina cabia entre os braços dos rios Parnaíba e Poti.

Mais outro teresinense ilustre, o jornalista Carlos Castello Branco, que deixou a cidade em 1937 para ser, na segunda metade do século 20, o mais influente jornalista político brasileiro, assim descreveu a cidade de sua infância, em crônica memorável:

“Entre a rua da Estrela e a rua São José, passando pelas ruas da Glória, do Amparo, dos Negros, do Fio, rua Grande, rua Bela e Paissandu – estava a cidade, toda ela, para as pessoas de nossa condição social.

A Avenida Frei Serafim era uma promessa e um abrigo para as famílias mais prósperas”.

Carlos Castello Branco conta ainda, em sua crônica, publicada no Jornal do Brasil, no início dos anos 90:

“Teresina enveredou pela Vermelha, pela Estrada de São Raimundo, antiga Estrada do Gado, pelo Porenquanto, e conquistou o Poti Velho. Já não pode ser vadiada a pé ou de bicicleta, como nos meus tempos de menino”.

As faces da cidade

Teresina é uma cidade presente nas páginas de seus cronistas, romancistas e poetas.

 Ela é retratada sem retoques no romance “Um Manicaca”, no qual Abdias Neves compõe um painel social, político e cultural da Teresina da virada do século 19 para o século 20.

Vamos encontrar uma Teresina em chamas e aterrorizada no romance “Palha de Arroz”, de Fontes Ibiapina, que trata dos criminosos incêndios das casas de palha.

Outra cidade aparece, com todo o seu provincianismo, no livro “Roteiro Sentimental e Pitoresco de Teresina”, que o poeta H. Dobal escreveu no centenário da capital.

E muitos outros escritores e pesquisadores têm se dedicado a estudar e a escrever sobre a cidade.

Entre os mais recentes, citaria o professor Alcides Nascimento, da UFPi, com suas pesquisas sobre a memória da cidade.

Também Deusdeth Nunes, o nosso Garrincha, com sua coleção de livros sobre a graça e as caras de Teresina, e Cineas Santos, o autor do hino da cidade, com suas crônicas sobre as esquinas da Chapada do Corisco.

E, ainda, o escritor e acadêmico Oton Lustosa, com seus romances urbanos “Meia-Vida” e “Vozes da Ribanceira”, que retratam a Teresina de nossos dias.

Uma Teresina que vamos encontrar também na melodia e na poesia de seus músicos, na cena de seus teatrólogos, no riso de seus humoristas, enfim, nas veias e nos sentimentos de todos os seus artistas e, ainda, no sangue e no suor de seus atletas, como nossa campeã olímpica Sarah Menezes. Também na arte e no ofício dos fotógrafos que eternizam seus momentos.

Uma Teresina que vamos encontrar, por fim, no trabalho árduo e continuado de seus gestores, de seus políticos, de seus empresários e de seus trabalhadores. De seus estudantes e professores.

Enfim, de todos os que se esforçam para viver numa cidade melhor!