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A renúncia de Jânio: um mistério de 56 anos

Foto: Erno Schneider/JB

A foto de Erno Schneider, no flagrante de Jânio com os pés enviesados, venceu o Prêmio Esso de Jornalismo de 1962.

 

Hoje faz 56 anos de um dos atos mais inesperados e mais controvertidos da história do Brasil: a renúncia do presidente Jânio Quadros. Com seu gesto brusco e radical, a política brasileira virou de ponta-cabeça. Até hoje o episódio ainda não foi devidamente esclarecido.

Jânio Quadros foi o fenômeno político e eleitoral de seu tempo. Em apenas 13 anos, ele foi de vereador a presidente, passando pelo Governo de São Paulo. Uma carreira política meteórica.

Na manhã de 25 de agosto de 1961, depois de presidir as cerimônias cívico-militares alusivas ao Dia do Soldado, ele voltou para o gabinete no Palácio do Planalto e mandou a carta-renúncia ao Congresso Nacional. Em seguida, se mandou de Brasília.

Foto: Reprodução

Jânio em campanha para a presidência

O “Homem da Vassoura”

Jânio concorreu à Presidência com o apoio da incendiária UDN. Conquistou grande parte do eleitorado urbano prometendo combater a corrupção e usando uma expressão por ele criada: varrer toda a sujeira da administração pública.

Seu símbolo de campanha era uma vassoura. Utilizou como mote da campanha o "varre, varre vassourinha, varre a corrupção".

Em 3 de outubro de 1960, foi eleito o 22º presidente do Brasil, para o mandato de 1961 a 1965, com 5,6 milhões de votos, considerada a maior votação obtida no País até então.

Ele venceu por uma diferença de mais de 2 milhões de votos o marechal Henrique Lott, ex-ministro da Guerra. Uma vitória espetacular, pois ele estava derrotando um candidato que gozava de alto conceito na República e que fora apresentado pelo presidente Juscelino Kubitschek, no auge de sua popularidade.

Naquela época, as regras eleitorais estabeleciam chapas independentes para a candidatura a vice-presidente. Por esse motivo, João Goulart, o vice de JK e líder do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), foi reeleito.

Reprodução: CPDOC/FGV

Jânio nos palanques e na homenagem a Che Guevara

Camaleônico

Polêmico, misterioso, revolucionário, culto, imprevisível, autoritário, estadista, populista, direitista, carreirista, pernóstico, reacionário e louco. Estas e outras facetas, mais a de que era também dado a porres homéricos, estão sendo lembradas ao longo deste ano, na passagem do centenário de nascimento de Jânio.

Orador teatral, Jânio Quadros despertava empatia e contagiava as massas. Mestre em português, geografia e história.

A imprensa e as lideranças políticas de seu tempo tentaram pintá-lo com tintas caricaturais. Ele estava pouco se lixando para os que procuram ridicularizá-lo como uma personagem folclórica da política nacional.

Jânio Quadros, pelo contrário, até dava munição aos adversários de mão beijada.

Por trás daquela figura exótica de homem público, estava na verdade um político astuto, austero e arrojado. Um governante que sabia exercer o poder em sua plenitude.

Além disso, o homem culto, poliglota, que escrevia e falava fluentemente em inglês, francês, espanhol e italiano. Viajou o mundo todo.

Uma sucessão de crises

Em seu governo, Jânio Quadros atuou com algumas frentes que causaram muita polêmica e que são lembradas até hoje. Ele deu continuidade à política internacional, restabelecendo relações diplomáticas e comerciais com a União Soviética e a China, algo impensável dentro da geopolítica de então, que dividia o planeta em dois gigantescos polos ideológicos.

Também nomeou o primeiro embaixador negro da história do Brasil e homenageou Che Guevara com a mais alta condecoração do país, a Ordem do Cruzeiro do Sul.

Jânio criou as primeiras reservas indígenas, como o Parque Nacional do Xingu, e os primeiros parques ecológicos nacionais, entre eles o de Sete Cidades, no Piauí.

Ele teve também atitudes prosaicas na presidência. Governava por bilhetinhos e chegou a proibir as rinhas de galo, o uso de biquíni em concursos de miss que fossem televisionados e o lança-perfume em bailes de carnaval. E ainda regulamentou o jogo de carteado.

Foto: Reprodução

Dia do Soldado: último compromisso oficial de Jânio

Um salto para o golpe

Mais rápida que a ascensão, foi a sua queda. Ele fez um governo-relâmpago, em seu curto mandato de presidente, de 31 de janeiro de 1961 a 25 de agosto de 1961, quando renunciou.

Até hoje sua renúncia não foi completamente esclarecida. A resposta para o seu surpreendente gesto desafia os historiadores. Há quem avalie que ele renunciou em busca de mais poder, pois seu plano original seria retornar nos braços do povo.

Há também uma versão, pendendo mais para o humor, de que ele estava de porre.

Sua renúncia, que ele próprio atribuiu a “forças terríveis”, desencadeou uma crise institucional sem precedentes na história republicana do país, porque a posse do vice-presidente João Goulart não era aceita pelos ministros militares nem pelas classes dominantes.


Renúncia foi uma denúncia

Para seguidores de Jânio, como Gastone Righi, deputado federal (já falecido) por quatro legislaturas por São Paulo e ex-presidente nacional do PTB, não houve uma renúncia, mas sim uma denúncia.

A denúncia, segundo ele, era esta: o país era ingovernável. O sistema político, as organizações administrativas e do estado, a Constituição e as instituições eram todos modelos importados, sem qualquer eficácia ou qualquer funcionalidade para o país e o resultado só poderia ser o caos.

Se foi uma denúncia, ela não encontrou eco.

Foto: Reprodução

A renúncia do presidente na imprensa

A renúncia de Jânio por ele mesmo

A especulação mais recorrente sobre a sua renúncia é a de que ela representava mais um dos atos espetaculares característicos do estilo de Jânio.

Com ela, o presidente pretenderia causar uma grande comoção popular e o Congresso seria forçado a pedir seu retorno ao governo, o que lhe daria grandes poderes sobre o Legislativo. Não foi o que aconteceu, porém.

A renúncia foi aceita incontinenti e de muito bom grado pelo parlamento. A população se manteve indiferente.

Muitos anos depois, o próprio ex-presidente declarou, em entrevista, sobre aquele gesto dele que deixou o país perplexo:

- Deodoro da Fonseca renunciou; Ruy Barbosa renunciou; Getúlio renunciou. De modo que estou muito bem acompanhado num país em que não se renuncia a nada.

Este foi o Jânio Quadros que o Brasil conheceu!