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Quando a sabedoria é demais

Foto: José Cruz/Agência Brasil

Janot: novos rumos para delação da JBS

 

O velho e sábio Ulysses Guimarães não se cansava de ensinar: “A sabedoria, quando é demais, vira bicho e come o dono”. A lembrança da citação que o deputado costumava fazer vem a propósito do novo imbróglio em que se meteu o dono da JBS-Friboi, Joesley Batista, o delator-geral da República.

Sua história passou a ser conhecida dos brasileiros depois do escândalo da gravação clandestina que ele fez com o presidente Michel Temer, no Palácio Jaburu, tornada pública em maio passado. Uma gravação que sacudiu as bases do Palácio do Planalto. A muito custo, o presidente conseguiu se equilibrar no cargo.

O salto da JBS

A JBS é um império econômico. O grupo encerrou 2014 com um faturamento de R$ 120 bilhões, um salto espetacular em relação aos R$ 3,5 bilhões registrados em 2003. E, sobretudo, em comparação com o início humilde dos negócios da família: um pequeno frigorífico em Anápolis, no interior de Goiás.

A revista Exame divulgou em seu site que o grupo JBS registrou um crescimento gigantesco, multiplicando seu faturamento por 35 (3.400%) nos últimos dez anos.

Os negócios da JBS ganham volume a partir de 2007, quando a empresa abriu seu capital e deixou de ser Friboi para adotar o nome que leva atualmente.

A mão amiga do BNDES

Nesse período, o que não faltou foi dinheiro amigo do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) em suas contas. Assim, o  seu faturamento pulou da casa dos R$ 4 bi em 2006 para mais de R$ 14 bi já no ano seguinte.

A JBS tem fábricas em mais de 30 países, incluindo os Estados Unidos, e clientes em todos os continentes. O conjunto dessa obra fez com que, ainda em 2015, a JBS se tornasse a maior empresa privada do Brasil em termos de receita.

Doações e propinas

Os irmãos Batista viram que investir em político é um bom negócio, especialmente quando o dinheiro é jogado na mão certa. Dessa forma, a JBS foi a maior doadora para a campanha eleitoral de 2014, com R$ 391 milhões, apoiando a vitória 164 deputados federais, seis governadores e da chapa formada pela ex-presidente Dilma Rousseff e por Temer.

O grupo também doou para a campanha do senador Aécio Neves (PSDB-MG), que ficou em segundo lugar na disputa presidencial e que hoje é um dos principais alvos da operação Patmos, desdobramento da Lava Jato. Ele foi gravado pedindo dinheiro a Joesley.

Em sua delação, os executivos falam também de muito dinheiro derramado nas mãos dos políticos em forma de propina.

Imagem: MPF

Joesley Batista grava o presidente Temer e ganha imunidade penal

Aposta alta

Com tamanho lastro e tamanha esperteza, os donos do grupo JBS foram dominados por uma ganância em que o céu é o limite. Ou inferno. Assim, sonharam em derrubar a República, a partir do presidente, para reinar mais.

Então, armaram uma onda de gravações clandestinas dos figurões da República. Nem tudo deu certo. Muitos, como o atual presidente do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), e o então ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, conseguiram escapar da trama.

Mas o trabalho não ficou perdido de todo. Conseguiram gravar o presidente Michel Temer. E houve quem tivesse a boa-fé de acreditar neles, sem atentar para suas más intenções e também para a crise política e institucional que adviria da delação por eles proposta.

Por conta do serviço, todos os executivos do grupo se livraram da cadeia, tiveram o passaporte carimbado para sair do país e receberam do Ministério Público Federal e do Supremo Tribunal Federal o perdão judicial para mais de 200 crimes. Ninguém em sã consciência no país engoliu essa megapremiação.

"Cavalo de Troia"

Quando, porém, tudo se encaminhava para o desfecho do caso e o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, começava a limpar as gavetas para deixar o cargo, eis que o destino lhes prega uma peça.

Em novos áudios encaminhados como prova suplementar de sua delação, um “cavalo de Tróia”: uma gravação na qual os delatores Joesley Batista e Ricardo Saud admitem que o acordo que lhes rendeu a imunidade penal tem as digitais do procurador Marcelo Miller.

Trata-se de ninguém menos que o braço forte de Janot até poucos dias antes da delação, quando já prestava serviço a um escritório de advocacia contratado pela JBS.

Os novos áudios deixam em maus lençóis os delatores, o procurador-geral e seu ex-assessor, além do ministro Edson Fachin, que homologou a delação. Na melhor das hipóteses, eles sairão dessa como engabelados. As gravações também põem sob suspeita mais três ministros do Supremo.  

A caminho da prisão

O procurador perdeu o sono desde então. E corre contra o tempo para tentar agora salvar a pele e não mais a delação da JBS. Ele sabe que a sucessora Raquel Dodge – que assumirá o posto em dez dias – não hesitará em adotar as correções que ele deixar de fazer.

Como já especulado pelos principais analistas políticos do país, a esta altura não há mais como preservar a imunidade penal concedida aos donos da JBS.

O que se discute é se Joesley e cia. irão para o xilindró agora ou só mais adiante.