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Como delatores rasgaram a boca no arame

Foto: MPF

Joesley armou armadilha para muitos e caiu em uma delas

De fortes emoções, talvez, mas de tédio ninguém morre na política do Brasil. A cada dia, um fato novo e chocante mexe com o cenário nacional. Nesta semana, eles ocorreram em cadeia, cada qual com mais adrenalina. E quase todos num espaço de 24 horas.

O primeiro foi a apreensão de uma bolada de R$ 51 milhões socados em malas e em caixas de papelão, em um apartamento no Centro de Salvador. Geddel Vieira Lima, ministro nos governos Lula, Dilma e Temer, foi apontado como dono ou guardião da dinheirama.

Logo em seguida, um ex-presidente da República, Lula, foi denunciado em nova ação do Ministério Público Federal sob a acusação de ter recebido R$ 230 milhões em propina.

Na mesma ação, a ex-presidente Dilma também foi acusada pelo Ministério Público Federal de ser beneficiária de propina no valor de R$ 170 milhões.

Em depoimento na Lava-Jato, o ex-ministro Antônio Palocci, um dos mais poderosos nos governos Lula e Dilma, acusou o ex-presidente de receber da construtora Odebrecht uma oferta de R$ 300 milhões para fazer política, além de imóveis, incluindo a sede do Instituto Lula.

Mas o fato de maior repercussão na semana foi o revés na delação premiadíssima do dono da JBS, Joesley Batista, vítima de sua própria armadilha – uma gravação.

Boca no arame

Em Água Branca, a minha cidade, quando a pessoa fala demais, incriminando-se, diz que ela rasga a boca no arame. A lembrança desse axioma vem a propósito da situação dos delatores da JBS. Como eles caíram na própria armadilha das gravações ocultas?

Foi assim: eles desencadearam uma operação de gravação às escondidas de altos figurões da República para usos espúrios, entre eles o de fazer chantagens e acusações.

Porém, da mesma forma que o delator-mor não tem familiaridade com a língua portuguesa, também não tem intimidade com a tecnologia. E eis que, numa reunião na qual tratavam de seus planos maquiavélicos, soltaram a língua com o próprio gravador ligado, sem saber que a conversa com seu braço direito estava sendo gravada.

Provando do próprio veneno

Depois que Joesley Batista gravou clandestinamente o presidente Michel Temer, ele negociou sua megadelação com a Procuradoria Geral da República em troca de impunidade para mais de 200 crimes que confessou ter praticado.

Sua proposta foi aceita de muito bom gosto pelo procurador Rodrigo Janot. Aí chegou a hora de ser feita a perícia na gravação, exigida tanto pelo acusado, Michel Temer, quanto pelo Supremo.

Para começar o serviço, a Polícia Federal requisitou o aparelho da gravação. Até então, ela só tinha em mãos o CD da conversa de Joesley com o presidente.

O gravador foi entregue. Na varredura que fez no aparelho, a PF encontrou a gravação com o presidente. E encontrou muito mais. Lá estavam outros áudios que Joesley Batista deletou, mas que a  PF, com o uso da tecnologia, conseguiu recuperar.

E foi aí que apareceram aquelas conversas abjetas, inclusive impróprias para menores de 18 anos, em linguagem chula, que provocaram a reviravolta no caso. E que levarão Joesley para a cadeia.

Vaca vai pro brejo

Quando a JBS descobriu que a PF havia recuperado todas as gravações de seu gravador, aí mais uma vez tentou a esperteza. E mandou o áudio incriminando os delatores, fazendo parecer que ele estava indo por engano. Era um remendo para evitar a acusação de omissão de informações que ameaçaria os megabenefícios da delação.

O procurador Rodrigo Janot, sabendo que essas gravações estavam em poder da PF, não teve outro caminho a não ser o de denunciar a tramoia, para não virar cúmplice.

Foi assim, portanto, que o poderoso dono da Friboi rasgou a boca no arame. Agora a vaca vai pro brejo! Ou melhor, o dono dos bois vai.