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O custo Joesley

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Joesley Batista, preso pela Polícia Federal

O devaneio do bilionário Joesley Batista, dono da Friboi, de derrubar o presidente da República, através da caneta do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, com a chancela do ministro Édson Fachin, do Supremo Tribunal Federal, causou grandes estragos. Aos políticos, sim. E muito mais ao país. Com a dirferença de que os políticos podem e sabem se defender.

Antes de entregar ao Ministério Público Federal a gravação contra o presidente, o dono da JBS-Friboi, um dos maiores negócios de alimentos do mundo, cuidou de fazer a mudança de sua empresa para o exterior. A providência era para evitar qualquer dano ao grupo na eventualidade de um revés.

Ainda no ano passado, o grupo tentou migrar sua sede para a Irlanda, como parte desse plano, mas a rota teve que ser alterada por oposição do BNDES e quando o Brasil passou a considerar aquele país um paraíso fiscal.

Em maio passado, a maior parte das operações do JBS -- quase 80% -- já estava no exterior, conforme o jornal Valor Econômico. Nos Estados Unidos, eram 56 fábricas de processamento de carne e quase metade das suas vendas globais.

Somente depois disso, Joesley tratou de abrir o bico e fechar, a toque de caixa, a delação que o procurador-geral da República recebeu com as duas mãos.

Caiu dos céus

O acordo de delação premiada do dono da Friboi se tornou o mais vantajoso dos 155 firmados até então na Operação Lava-Jato. A delação simplesmente os livrou de qualquer punição pelos mais de 240 crimes que confessaram ter cometido em conluio com políticos, graduados funcionários públicos e outros cúmplices.

Logo após a delação, os executivos da JBS, que pagaram propinas a torto e a direito para o sucesso de seus negócios sujos, além de abastecerem campanhas políticas com dinheiro de caixa 2, foram liberados para fixar residência em Nova York, nos Estados Unidos.

A multa de R$ 225 milhões aplicada à empresa pareceu um troco perto dos R$ 170 bilhões faturados em 10 anos. Somente por seus delatores na Lava-Jato, a Odebrecht pagará R$ 500 milhões em multas, além de R$ 6,7 bilhões devidos do acordo de leniência.

Mais um nó

Os delatores deram mais um nó no Ministério Público, que pareceu enfeitiçado com a lábia de Joesley: sua delação incluiu medidas para garantir a segurança deles e da família. O mesmo documento prevê que os executivos sejam incluídos em um programa de proteção a depoentes, caso necessário.

Segundo ainda o jornal Valor Econômico, o acordo foi justificado pela Procuradoria-Geral da República por causa do “caráter emergencial de alguns relatos dos signatários que narram supostos crimes praticados no presente e com perspectivas de práticas futuras”.

Lucrando com a crise

O jornal O Globo publicou uma nota, na manhã do dia 18 de maio, logo após a explosão do escândalo, informando que a JBS comprou dólares em grandes quantidades antes do fechamento do mercado, no dia anterior, quando a moeda registrou valorização de 1,67%, sendo negociada a R$ 3,13.

No dia seguinte ao escândalo da gravação no Jaburu, o dólar disparou, atingindo o limite máximo permitido de 3,3235 reais. A moeda abriu subindo cerca de 5% e as negociações começaram mais tarde. Por volta das 11 horas, a moeda bateu 3,43 reais.

Bolsa quase quebra

No mesmo dia, a bolsa abriu em queda de mais de 10% e entrou em circuit breaker. O mecanismo, que paralisa as negociações em 30 minutos, só é acionado quando as cotações superam o limite de 10% de alta ou de queda.

Na volta das negociações, se a queda atingir 15 por cento ante o encerramento do dia anterior, os negócios são suspensos por 1 hora. A última vez em que isso ocorreu no Brasil foi em 2008, em meio à crise internacional.

No abismo

Esses não foram, contudo, os maiores estragos causados pelas espertezas do dono da JBS. Com a sua traquinagem, ele lançou o país no abismo das incertezas política, financeira e econômica. Após o golpe traiçoeiro, a muito custo, o presidente conseguiu se equilibrar no cargo e por um milagre a economia não degringolou completamente.

Temer assumira o poder, um ano antes, com o compromisso de recuperar a economia, promover o ajuste fiscal, fazer as reformas e buscar a retomada do emprego, num país de 13 milhões de desempregados e sem perspectivas no horizonte imediato. Estava conseguindo, a duras penas. Mas aí teve que gastar todas as suas energias para escapar da arapuca que armaram contra ele.

A conta chegou

Agora, viu-se que, além desses estragos na política e na economia, Joesley Batista e seus cúmplices deixaram também numa sinuca de bico as instituições, à frente o Ministério Público Federal e o Supremo.

De forma açodada, elas deram crédito desmedido aos seus relatos, sem as necessárias diligências para apurá-los adequadamente e sem atentar para as consequências da megadelação para o país. A conta está chegando. A galope.